O Internacionalista n° 20 / NOTAS INTERNACIONAIS / outubro de 2024


A Alternativa para Alemanha (AfD), partido de extrema direita, venceu as eleições legislativas regionais na Turíngia, com 32,8% dos votos. A União Democrática Cristã (CDU) obteve 23,6%. A aliança Sahra Wagenknecht – Por razão e Justiça (BSW), uma ruptura do Die Link (agrupamento de socialistas e antigos membros do PC da República Democrática da Alemanha/RPD), 15,8%. O Partido Social-democrata (PSD) do chanceler Scholz, alcançou 6,1%, e seus aliados Verdes e o Partido Democrático Livre (SDP) ficaram de fora, com 3,2% e 1,1%, respectivamente, abaixo da barreira dos 5%. Na Saxônia, a AfD ficou em segundo lugar, com 30,6%, e a CDU com 31,9%. O BSW obteve 11,8%. Os partidos da coalizão governista federal já anunciaram que não vão fazer acordos com a AfD, que cresceu 10% em relação às eleições anteriores, e será decisiva para censurar governos e votar leis, agravando a crise do governismo e seus aliados.
O boicote à energia e petróleo russos, produto do apoio do governo alemão aos ditames dos EUA na guerra na Ucrânia, criou uma grave crise energética, que alavancou o aumento dos preços de serviços e produtos de consumo. A inflação alcançou 7%: o nível mais elevado desde a “reunificação” entre a Alemanha ocidental e a RPD. A Alemanha retrocedeu nas suas capacidades industriais de bens manufaturados de alto valor agregado, energia e produtos químicos. A produção manufatureira vem retraindo, desde 2017. Isto no quadro de avanço da China nos mercados europeus, antes monopolizados pela produção alemã. Empresas alemãs se deslocam para outros países, para baixar os custos. Na Polônia, as empresas alemãs investiram 37 bilhões de euros, e criaram 450 mil empregos. O que se reflete na estagnação do PIB (-0,1% no primeiro semestre de 2024) e na retração da produção industrial Alemã, que caiu em 0,75 pontos porcentuais, em relação a outubro do ano passado.
O diretor executivo da Evonik Industries AG (produtos químicos), Christian Kullmann, afirmou: o país corre risco de se desindustrializar e ver uma onda de fechamentos de fábricas. A Volkswagen está avaliando aprovar milhares de demissões, e fechar fábricas, pela primeira vez em 87 anos de sua história. O governo é impotente para resolver esses problemas e, ao contrário, os agrava, ao intensificar o apoio à Ucrânia, e ao renunciar ao consumo da energia russa barata, aprofundando assim o rombo das contas fiscais e o retrocesso produtivo. Assim o reconheceu o próprio ministro das Finanças, Christian Linder: “nós estamos empobrecendo porque não temos crescimento. Estamos ficando para trás”, disse.
Desde a Segunda Guerra Mundial, a extrema direita não vencia uma eleição regional. Seu crescimento se produz em meio ao curso de decomposição capitalista mundial. A extrema direita cresce, sobretudo, apoiada na pequena burguesia e em setores do proletariado que sofrem com os estragos das políticas do governo sobre suas condições de vida. No país, é ainda uma expressão particular do avanço geral dos partidos nacional-chauvinistas, ultradireitistas e de tendências fascistizantes por toda a Europa. A eleição da BSW, cujo programa combina políticas reformistas e fim da ajuda militar à Ucrânia com medidas direitistas (controle à imigração), também expressa essa tendência.
A burguesia imperialista assume posições fascistizantes e chauvinistas para proteger seus negócios e manter seus lucros elevados, o que se reflete nas medidas e políticas partidárias burguesas. Os partidos da ordem burguesa terão de assumir compromissos com a AfD ou a BSW, ou assumir as posições desses partidos para garantir sua governabilidade. É o que já acontece na França, quando Macron assume posições da ultradireita do Reagrupamento Nacional para governar. A Alemanha reflete esse curso, tanto mais rápido quanto mais importante é seu papel nas relações econômicas e políticas do continente.
O governo alemão dispensou enormes montantes de capital para “compensar” a destruição dos serviços estatais na RPD, quando da “reunificação”, visando a manter mínimas condições de saúde, educação e emprego para as massas que se integravam ao capitalismo. O que viria a se combinar com o aumento da imigração, mão-de-obra mais barata, que levou ao subemprego e à destruição de direitos trabalhistas de um setor do proletariado, que não estava acostumado com essas chagas. A reunificação capitalista da Alemanha realçou a decomposição do regime burguês, e escancarou a traição do estalinismo, na destruição das conquistas revolucionárias (propriedade estatizada, pleno emprego, atendimento médico e da saúde para todos, etc.). Não é por acaso que o Leste alemão se tornou um terreno fértil à expansão de posições nacionalistas reacionárias e chauvinistas. Com a ausência da direção revolucionária e com a extrema direita e a reação disfarçadas de “esquerda”, levantando reivindicações das massas (ainda que deformadas), as tendências de luta de classes são contornadas, e se favorece que setores desencantados das massas sejam arrastados pelas posições demagógicas da AfD ou do BSW.
Somente um movimento baseado nas reivindicações que defendem a vida e direitos das massas, e que se posicione claramente pela solidariedade com todos os oprimidos, fundamentalmente palestinos e libaneses, criará condições objetivas para derrotar a extrema direita e as tendências fascitizantes, – acobertadas sob a retórica nazista ou reformista. O movimento pró-Palestina e pelo fim da guerra na Ucrânia pode ser um firme ponto de apoio para combinar a luta reivindicatória ao objetivo da derrota do sionismo e do imperialismo na Palestina e na Ucrânia. A extrema direita achará condições para continuar crescendo, a não ser que as massas construam seu partido revolucionário. A história alemã mostra que não é possível derrotá-la no campo da democracia burguesa. Somente com um programa em defesa dos explorados e a força coletiva das massas, sob direção do partido revolucionário, é que isso será possível.