O Internacionalista n° 20 / NOTAS INTERNACIONAIS / outubro de 2024


Macron recusou nomear Lucie Castets – proposta pela Nova Frente Popular (NFP) como primeira-ministra – em nome da “estabilidade institucional”. Governistas, os Republicanos, os socialistas de “direita” (os que não se uniram à NFP como fez a ala reformista do partido) e o Reagrupamento Nacional-RN (ultradireita) foram contra aprovar um “governo da esquerda”. No dia 05/09, foi indicado por Macron o direitista Michel Barnier como primeiro-ministro. Contava com apoio de sua bancada, além dos Republicanos e socialistas de direita, mas não com os votos suficentes para sua aprovação. Macron e Barnier recorreram à ultradireita para que sua indicação não fosse censurada na Assembleia Nacional (AN). Para a RN, Barnier é um “fóssil da vida política”, mas afirmou que se absteria de apresentar “moção de censura”. Com essa declaração, se abriu uma via para a formação de um governo de “unidade nacional” – na verdade, um governo de unidade entre direita e extrema direita, com “esquerdas” subordinadas.
Barnier já apresentou a lista de 38 nomes para compor o Gabinete de Ministros. Dezesseis desses já estão em funções ministeriais. Dentre os “novos”, há republicanos com posições ideológicas e políticas muito próximas da ultradireita: contra a imigração, o casamento “homoafetivo”, o aborto, os subsídios aos imigrantes, manter direitos trabalhistas, etc. As ameaças de “censurar” um governo da NFP e sua recusa em fazer o mesmo com Barnier demonstram que a RN poderá tanto condicionar como impor partes de seu programa ao novo governo, em troca de garantir sua estabilidade na AN. Nos fatos, Barnier e Macron passaram a depender dos ultradireitistas na AN e, portanto, quanto mais à direita e mais reacionária seja a política do novo governo, mais se fortalecerá a RN – eleitoral e politicamente.
A NFP denunciou a nomeação de Barnier como um “golpe contra a democracia”, uma vez que os “resultados das urnas foram apagados”, afirmaram. Apresentou um “voto de censura” contra Barnier e Macron, mas foi derrotada. Isso acontece porque, como assinalamos no jornal OI 17 (julho, 2024), o acordo eleitoral da NFP com Macron, para barrar a vitória da extrema direita, acabou fortalecendo-a, porque continua em ascensão a tendência da burguesia de assumir posições reacionárias e chauvinistas.
A NFP saiu do pleito eleitoral como força eleitoral majoritária, mas é incapaz de impor seu governo à burguesia, e cumprir suas promessas eleitorais. A RN ficou como terceira força na AN, mas passou a condicionar o governo e suas medidas. Ainda que a burguesia francesa não precise de um governo frente-populista, já que seu reformismo (ainda que ultra-limitado) se choca de frente com a política de contrarreformas, ataques e ajustes, é graças à subordinação dos frente-populistas à democracia burguesa (manifestada no “acordão” que salvou Macron do vexame eleitoral) e suas constantes traições aos movimentos, que a burguesia nem precise recorrer aos métodos fascistas – por enquanto.
Erguendo as reivindicações que defendem a vida das massas, se podem desenvolver os métodos da ação direta para impô-las, e assim elas irão avançar na sua independência de classe, e poderão abrir uma via para a revolução, por meio da luta de classes. A tarefa imediata é a de ajudar as massas a romperem com os reformistas frente-populistas que as enganam e desviam, usando-as para servir de base de manobras para a burguesia continuar destruindo as condições de vida e trabalho.