O Internacionalista n° 21 / novembro de 2024

Editorial Internacional

As eleições nos EUA indicam qual será o caminho geral das tendências bélicas, do genocídio e da opressão nacional

É preciso desenvolver a luta de classes, objetivando a derrota das burguesias, do sionismo e do imperialismo por todo o mundo


Em 5 de novembro, encerram-se as eleições gerais nos EUA. Fechamos este jornal de O Internacionalista n° 21, de novembro, dias antes dessas. A maioria das pesquisas dão por vitoriosa a democrata Kamala Harris. Trump diz que não reconhecerá o resultado se ele perder. O cenário de um novo janeiro de 2021, quando o derrotado Trump exortou suas bases a pressionarem o Parlamento, e isso desembocou na invasão do Capitólio, voltou a pairar como uma sobra para após 05/10, aumentando a crise política interna.
Segundo uma pesquisa recente da revista Forbes, 76 grandes capitalistas e bilionários fizeram uma declaração de apoio incondicional a Harris, e 49, a Trump. Há uma fração da burguesia imperialista que ainda não se pronunciou, mas cujos interesses estarão resguardados por qualquer um dos candidatos. Os armamentos e as munições continuarão fluindo, em milhares de toneladas, para Ucrânia, Israel, Taiwan e outros, engrossando suas contas bancárias. A divisão inter-burguesa indica fundamentalmente quais frações do imperialismo serão mais beneficiadas com as medidas econômicas de um governo democrata ou republicano. Isso também reflete avaliações táticas diferentes, sobre quais serão suas relações com as classes e camadas de classes internas ao país, e qual o melhor percurso a ser tomado nos confrontos contra a China e a Rússia. Ficou claro assim que a troca de Biden por Harris favoreceu os democratas, ao apresentarem uma candidata que se vende a si mesma como “defensora” dos direitos civis e da democracia diante da ameaça “fascista” de Trump. Essa manobra aproximou setores democratas desencantados com Biden, e que estavam em processo de ruptura com os democratas. E foi por tudo isso festejada por uma poderosa fração da burguesia, que exige estender a guerra comercial e ampliar o intervencionismo bélico, visando à derrota estratégica da Rússia e China.
A maior divergência na política externa diz respeito à Ucrânia. Harris defendeu a continuidade da “guerra” permanente contra a Rússia, enquanto Trump indicou a necessidade de se chegar a um “acordo de paz” com a Rússia, para “liberar” bilhões e bilhões de dólares torrados na Ucrânia, reorientando-os para subsídios e medidas que favoreçam setores da burguesia que realizam grande parte de seus lucros internamente, e precisam reduzir seus custos de produção, atacando os salários, os direitos e os empregos. Harris, diferentemente, se orientará a manter, ainda que limitadamente, direitos e salários para abortar qualquer frente de luta interna, como tem acontecido com as greves operárias dos últimos anos, e as massivas manifestações contra o envio de armas para Israel, que precisa continuar seu genocídio contra os palestinos.
A crise de 2008 continua seu curso de destruição de forças produtivas nas potências imperialistas, enquanto se desenvolvem as forças produtivas estatizadas pela revolução proletária, apesar das burocracias contrarrevolucionárias. Isso é o que pressiona a burguesia imperialista, e arrasta todos os países submetidos a ela na corrida armamentista e belicista. A dívida mundial é três vezes maior do que o PIB mundial, mostrando a incapacidade da burguesia mundial em garantir seus lucros na produção social capitalista. Empresas gigantescas são incapazes de cumprir seus compromissos, e a capacidade industrial é muito limitada para garantir um retorno seguro aos investimentos. Os Bancos operam no “descoberto”, e sem garantia de cumprir o enorme volume de papéeis e compromissos a partir de seus fundos . Um exemplo disso é que o “Índice de Gestão de Compras” (PMI) da indústria estadunidense caiu 47%, entre setembro e outubro deste ano. Um PMI abaixo de 50% significaria uma nova contração industrial sobre a base da contração histórica operada nos últimos 30 anos: 10,3% de queda econômica real nos EUA. Isso explica porque a guerra comercial erguida por Obama, como resposta à crise de 2008, foi agravada por Trump e elevada à enésima potência por Biden, que culminará seu mandato como o presidente norte-americano que mais realizou sanções econômicas a outros países em toda a história dos EUA.
A vantagem está conjunturalmente ao lado dos Estados Operários degenerados e de seus parceiros comerciais, que reúnem cada vez mais um volume de produção de bens e mercadorias de alto valor agregado, transações financeiras e comércio, e que já superaram o PIB conjunto do G7. E, para a burguesia imperialista norte-americana, tudo se trata de evitar mais retrocessos. Seja quem for eleito, modificará pouco ou nada o rumo intervencionista e belicista da burguesia norte-americana. Ainda que os interesses particulares de cada fração imperialista interfiram na disputa eleitoral entre democratas e republicanos, não há qualquer diferença substancial nos programas de democratas e republicanos. Aquilo que era parte da retórica dos republicanos (guerra comercial, expulsão de imigrantes, endurecimento da legislação repressiva, permanência dos encargos militares e o intervencionismo, etc.) foi adotado pelos democratas, incluídos os “subsídios” estatais dirigidos a setores dependentes de serviços e de consumo de produção interna. Há ainda plena coincidência na defesa de Israel, e de continuar apoiando o genocídio palestino, e aumentar seu intervencionismo por todo o Oriente Médio. O genocídio, o colonialismo sionista e a expansão da guerra são ainda “funções” econômicas dos monopólios para impor retrocessos e derrotar a influência russa e chinesa nessa região. São as tendências fundamentais da crise capitalista mundial e do choque de duas forças sociais e econômicas baseadas em duas formas de produção distintas – capitalismo imperialista moribundo e as economias nacionalizadas – que explicam tanto a convergência geral dos interesses burgueses imperialistas, quanto suas divergências táticas.
Essa “divergência” quanto ao momento e as táticas para combater a Rússia e a China é, entretanto, condicionada por um mesmo objetivo por todas as frações burguesas: a destruição da propriedade nacionalizada e transformação dos Estados Operários em semicolônias capitalistas – e, até lá, da contenção do expansionismo comercial que Rússia e China praticam na África e América Latina. Daí que a principal preocupação da burguesia seja de que Trump não consiga lidar com os assalariados, os sindicatos e setores oprimidos, cuja subordinação e centralização aos objetivos imperialistas são fundamentais para manter a ofensiva bélica e atingir a Rússia e a China no mundo todo. Ou seja, como enfrentar e contornar as tendências de luta de classes em alta dentro do país.
As promessas democratas e republicanas de retomar a industrialização dos EUA está destinada a fracassar, sem uma maior extensão do intervencionismo para destruir as economias nacionalizadas e, assim, retomar uma reconstrução de forças produtivas capitalistas, sobre a base de uma destruição em escala planetária de forças produtivas e nova divisão dos mercados. A saída à crise de democratas e republicanos é a mesma: mais armamentismo e maiores encargos militares. A tendência à “desdolarização” do BRICs acirra essa política exterior belicista, opressora e genocida. É por isso que a submissão a essa disputa é um desserviço aos interesses das massas, do mundo todo e dos próprios EUA. De qualquer maneira, são as massas que vão pagar, com seus direitos, salários, empregos, e até com sua vida, para manter o capitalismo moribundo e os negócios da burguesia imperialista. Tampouco o resultado dessa disputa pode alterar a situação geral para os estados operários degenerados, que deverão ver um acirramento das ameaças militares sobre suas fronteiras nacionais. Depois da guerra na Ucrânia virá, inevitavelmente, o avanço das ameaças de guerra na Ásia contra China, ao redor de Taiwan. A destruição da propriedade estatizada pelas revoluções, a principal e mais fundamental conquista revolucionária do proletariado mundial, é o único objetivo que pode dar uma sobrevida ao capitalismo. Esse percurso é inevitável, se o proletariado mundial não conseguir avançar, a partir de seu programa e estratégia revolucionários, e encabeçar a luta das massas oprimidas com independência de classe.
A unidade do proletariado com as massas oprimidas árabes, pela derrota do sionismo e do imperialismo (tanto no Oriente Médio como nas potências), de um lado, e a luta do proletariado russo e chinês pela derrubada revolucionária das burocracias para retomar seu controle sobre a economia estatizada e os estados operários, de outro, são tarefas históricas irrecusáveis para superar a crise de direção revolucionária mundial e em cada país, abrindo, desse modo, caminho às lutas defensivas pelas reivindicações e os métodos da luta de classe, levando as massas a derrotarem suas burguesias e governos, aproximando-as da revolução socialista no mundo todo.