O Internacionalista n° 21 / NOTAS INTERNACIONAIS / novembro de 2024


Com 53,92% dos votos, o partido governista Sonho Georgiano, derrotou a oposição pró-imperialista, e conquistou a maioria dos 150 assentos do Congresso da Geórgia nas eleições gerais de outubro. A Coalização pela Mudança teve 11,3%; o Movimento Unidade Nacional, 10,16%; e a Geórgia Forte, 8,8%.
As eleições foram contestadas pelos partidos oposicionistas e pelos governos da Europa e dos EUA. A denúncia de fraude é abertamente impulsionada pelas embaixadas e representantes diplomáticos imperialistas no país, que derramaram milhões de dólares em campanhas e comícios com representantes diplomáticos, para arrastar as massas a votarem na oposição, sob a promessa de integrar o país à União Europeia e desenvolver a economia nacional. As manifestações contra as eleições acontecem um mês depois de realizadas, contra a “lei de agentes estrangeiros”, que obriga as ONGs que recebem mais de 20% de financiamento do exterior a se registrarem sob as leis georgianas. Vetada pela presidente da Geórgia, Salomé Zurabishvili, mas ratificada pelo Parlamento, a “lei” permite ao estado controlar o funcionamento de organismos que servem ao imperialismo para fazer campanha contra o governo do primeiro-ministro Irakli Kobajidze, que resiste a se subordinar aos ditames dos EUA e da União Europeia (UE). Diplomatas, embaixadores e figurões políticos da UE (a exemplo dos embaixadores da Letônia, Estônia e Finlândia) foram à Geórgia para participar das manifestações e denunciaram a “fraude” nas eleições.
Zurabishvili nasceu em Paris e é filha de refugiados georgianos. Iniciou sua carreira política como funcionária diplomática da França, e foi nomeada como embaixadora desse país no Chade, na África, durante o golpe de Estado organizado pelo imperialismo francês contra Idriss Déby. Em 2003, foi nomeada embaixadora francesa na Geórgia. Nacionalizou-se georgiana um ano depois, quando o governo francês chegou a um acordo com o governo pró-imperialista da época, para ser integrada como funcionária desse governo. Zurabishvili é um agente imperialista inserida de fora para dentro do país. Enquanto a oposição defende um “programa de governo” que nada mais é que a tradução, em solo georgiano, dos programas de Poroshenko, Timochenko e Zelensky, que presidiram a Ucrânia após do golpe de Estado organizado pelo imperialismo contra Yhanukovich, em 2014.
Como Kobajidze, Yhanukovich pretende manter relações com a Rússia, e não aceita as imposições leoninas da União Europeia para o país ingressar no bloco. As manifestações desconhecendo o resultado eleitoral são uma manobra para criar as condições para um golpe de Estado, como aconteceu na Ucrânia. E assim como os três testas-de-ferro do imperialismo ucranianos, a presidenta da Geórgia é um agente do imperialismo, e obedece o roteiro das embaixadas estrangeiras para a Venezuela: acusa as eleições como fraudadas e o primeiro-ministro de ser um agente “russo”, para justificar um golpe.
O governo georgiano se tem aproveitado do choque entre as potências capitalistas e a Rússia para, aproveitando-se de sua situação geográfica estratégica na Rota da Seda chinesa e do comércio na Ásia, encenar uma certa independência, e acelerar o crescimento econômico. Porém, é intolerável para o imperialismo a existência de um governo semicolonial que pretenda ter uma mínima autonomia. Ou os países semicoloniais se subordinam e se transformam em plataformas da ofensiva imperialista contra os Estados Operários degenerados da Rússia e China, ou seus governos serão derrubados por golpes de estado pró-imperialistas. A vitória da “revolução laranja”, em 2003, na Geórgia, elevou um representante do imperialismo ao governo, que depois pretendeu unir a Geórgia à OTAN, e realizou uma ofensiva militar para anexar o território autônomo da Ossétia do Sul. Essa região defendeu seu direito à autodeterminação e de se unir à Rússia, o que serviu de justificativa para a invasão russa na Geórgia, e levou à derrota militar do seu exército, armado e apoiado pela OTAN. A Ossétia do Sul conquistou sua independência e se uniu à Rússia, dando um golpe nos planos imperialistas. Nas eleições de 2012, a oposição pró-russa saiu vitoriosa, agravando assim a ofensiva imperialista atual.
O futuro da Geórgia é condicionado atualmente pelos choques entre as forças econômicas e políticas antagônicas que se digladiam pelo mundo inteiro. Segue vigente a tese elaborada por Lênin, que afirma que as revoluções proletárias abriram um choque de morte entre dois sistemas antagônicos, que deve levar à destruição do capitalismo ou à destruição das conquistas proletárias: a propriedade nacionalizada e os estados erguidos sobre essa base econômica revolucionária. A transformação da Geórgia em base de manobras do imperialismo contra Rússia e China favoreceria claramente a contrarrevolução e restauração capitalista na Rússia. Sua derrota, entretanto, favorece a permanência das conquistas revolucionárias – apesar da política contrarrevolucionária das burocracias – e a ofensiva da classe operária mundial contra suas burguesias, ao enfraquecer mundialmente o imperialismo.
Os revolucionários denunciam as manifestações da oposição georgiana como golpistas, e a serviço do intervencionismo imperialista. E assim como na Ucrânia – mantendo as devidas proporções e diferenças – tam-
bém na Geórgia é preciso defender a derrota do imperialismo, sem apoiar em nada o governo georgiano ou russo. O programa da revolução social na Geórgia e Ucrânia, e da revolução política na Rússia, expressam as tarefas históricas colocadas ao proletariado ucraniano e georgiano, de um lado, e russo, de outro, que permitem a defesa de suas conquistas históricas e abrem caminho para a derrota e expulsão do imperialismo das nações oprimidas, e da burguesia imperialistas em toda parte.