O Internacionalista n° 21 / NOTAS INTERNACIONAIS / novembro de 2024


Em 1º de outubro, o Irã retaliou Israel, pela morte de um general-brigadeiro da Guarda Revolucionária, na Síria, e pela do líder do Hamas, Ismael Haniyeh, em seu próprio território nacional. Centenas de mísseis e drones foram lançados, e dezenas deles – hipersônicos – conseguiram atingir um radar avançado e um aeródromo militar, sem que a defesa antiaérea pudesse derrubá-los. Israel jurou retaliar o Irã, o que fez, finalmente, no sábado 26/10, com apoio logístico e militar dos EUA.
O ataque de Israel contra o Irã foi anunciado ao próprio Irã por vias diplomáticas, indicando ainda que apenas atacaria “objetivos militares estratégicos”, portanto, de forma acordada e organizada conjuntamente com os EUA. O mesmo tinha feito o Irã, quando, também por vias diplomáticas, informou “antecipadamente” que atacaria Israel – ainda que sem informar a quantidade de mísseis e os alvos. Esses “avisos prévios” mostraram que, de um lado, a Rússia impediu que o Irã iniciasse uma guerra em grande escala, que poderia levar a uma guerra direta com o imperialismo. E, de outro lado, que Israel também foi condicionado pelos EUA a limitar seus ataques, visando a evitar uma guerra que os obrigaria a gastar enormes quantias de recursos (financeiros e militares) que enfraqueceriam sua capacidade de manter abertos os fronts contra Rússia, na Ucrânia, e contra China, por toda a Ásia. A burguesia imperialista – apoiada na grande propriedade monopolista – e a burocracia herdeira do estalinismo – que parasita da propriedade nacionalizada pela revolução proletária – são as duas forças que determinam, nos fatos e cada lado com seus interesses particulares, a “margem” de ação militar dos estados envolvidos diretamente nos conflitos armados no Oriente Médio.
Israel é um braço armado da burguesia imperialista e um instrumento do capital financeiro para erguer novas fronteiras nacionais, visando a controlar territórios, recursos e governos do Oriente Médio. Como estado criado artificialmente a serviço da colonização militar e da violenta opressão nacional, o genocídio, a limpeza étnica e a segregação nacional são elementos constitutivos de sua natureza histórica e de seu conteúdo de classe. Por isso, é impossível existir um estado palestino independente ao lado do estado de Israel. E jamais haverá qualquer “acordo de paz”, enquanto Israel existir, que não signifique negar aos palestinos seu direito à autodeterminação, e fazer de Gaza e da Cisjordânia novas colônias sionistas. Não é por acaso a aprovação de uma lei no Parlamento sionista que rejeita o direito à existência de um Estado Palestino, e que não foi contestada e nem criticada pelas burguesias imperialistas dos EUA e Europa.
O chamado “plano dos generais”, que está sendo aplicado no norte de Gaza, é o começo da solução final do sionismo ao chamado “problema palestino”: a limpeza étnica dos palestinos e a posse de suas terras e recursos pelo imperialismo e sionismo, com os métodos de terrorismo de estado. O holocausto palestino – e também libanês – é acobertado sob máscaras ideológicas ou religiosas, a depender dos interesses políticos e da conjuntura internacional. Mas, sob a superfície dessa retórica, reside o venal cálculo econômico. O deslocamento forçado e assassinatos em massa, para “limpar” Gaza e Cisjordânia dos palestinos, abre caminho à colonização das terras e aos empreendimentos imobiliários bilionários. O assassinato e deslocamento forçado servem, em última instância, aos lucros dos investidores, que financiam a economia israelense, tanto na área militar quanto de infraestrutura civil.
A violência, as torturas, os pogroms, o genocídio, a destruição da infraestrutura necessária à vida, a imposição da morte por fome e doenças forçadas, e todos os métodos bárbaros de conteúdo fascista, são funções econômicas de um estado criado artificialmente para servir aos interesses monopolistas, e por isso é que entram na contabilidade da burguesia imperialista e sionista como parte dos “investimentos” militares necessários para conseguir impor seus objetivos. Negar a existência do direito dos palestinos a seu Estado é também parte dessa contabilidade. Um estado palestino – ainda que severamente limitado em suas atribuições soberanas – teria direito à exploração das jazidas de gás de sua plataforma marítima, ou ainda a receber tributos pela sua exploração. Isso afetaria, por exemplo, os interesses do imperialismo que, em meio aos massacres e assassinato de crianças e mulheres, começou a financiar a exploração inicial dessas jazidas. A “Bacia do Levante”, localizada também na plataforma marítima palestina de Gaza, possui enormes reservas de gás natural, e sua exploração requer poucos investimentos, aumentando exponencialmente os lucros. São ao menos 122 trilhões de pés cúbicos de gás natural, no valor de US$ 453 bilhões. A criação de um estado Palestino obrigaria a compartilhar grande desse montante via tributos, o que nem o imperialismo, nem o sionismo, pretendem fazer.
A Autoridade Nacional Palestina, ainda na década de 1990, assinou um contrato de exploração de gás por 25 anos com a BG Group (BBG). Essa traição, porém, custou caro à ANP, quando o sionismo se negou a repassar qualquer quantia, sob justificativa de que esses recursos “poderiam ser usados” para financiar o terrorismo das organizações jihadistas. Uma parte considerável da produção de gás feita até hoje dessa “bacia” é exportada para a Jordânia e o Egito, mostrando claramente as ligações e interesses que fazem esses dois países apoiarem Israel no genocídio, e facilitar seus ataques contra o Irã, o Líbano e Gaza. Petróleo e gás que inundam ainda os mercados europeus, perante o fechamento do suprimento de gás russo imposto pelos EUA às potências da Europa, por conta da deflagração da guerra na Ucrânia.
Não obstante, esses interesses e objetivos não poderão consolidar-se, sem a aniquilação do povo palestino que resiste à sua expulsão, genocídio e brutal opressão nacional. Por isso o objetivo da derrota do Hamas, de expulsar a população palestina de suas terras e de impor um verdadeiro holocausto, não apenas sobre os palestinos, mas também sobre a resistência libanesa. O governo libanês está submetido ao imperialismo. Mas, a milícia xiita é decisiva para qualquer “acordo de paz” com as forças imperialistas e sionistas. O objetivo do “Grande Israel”, que se estende também às terras e recursos libaneses, explica a extensão da ofensiva colonial e militarista do sionismo sobre o Líbano. E cada passo do enclave imperialista é imediatamente justificado pelos EUA, Reino Unido e Alemanha.
Amos Hochstein, diplomata norte-americano nascido em Israel, e tripulante de um tanque israelense em seu passado, nas Forças de Defesa de Israel (FDI), foi enviado pelo governo Biden para propor ao governo libanês que retomasse a resolução 1701 da ONU, readequando-a aos interesses dos EUA e de Israel. A Resolução foi resultado da derrota militar de Israel em 2006, e parte do acordo de “cessar-fogo”, visando à “desmilitarização” da fronteira sul do Líbano. Mas, jamais impediu Israel de avançar no seu controle militar, usar o espaço aéreo do país para atacar a Síria, e continuar colonizando terras, aos olhos de toda a ONU. Hochestein pretende agora “modificar” a resolução 1701, para que as Forças de Paz da ONU se engajem na luta contra o Hezbollah, sem precisar de autorização do governo libanês. Ou seja, exige que perca sua soberania, dando liberdade de ação ao sionismo e imperialismo para intervir. A “manutenção da paz” serviria apenas de disfarce ao controle imperialista e sionista sobre maiores porções das terras libanesas. Seria uma verdadeira colonização, acobertada pela utilização de forças militares dependentes da ONU.
Não bastasse a impotência da ONU e do genocídio promovido por interesses econômicos venais, os palestinos e libaneses veem como seus supostos “aliados” são também cúmplices e gestores do holocausto, em função de seus próprios interesses econômicos e geoestratégicos. Quatro dos membros integrantes dos BRICs foram caracterizados por Netanyahu como “estados abençoados”, por manterem seus laços econômicos e diplomáticos com Israel. Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Índia financiam e sustentam diretamente o holocausto palestino e libanês. O Irã é o único de seus membros “associados” envolvido em choques militares abertos com Israel. A burocracia russa administra essa “heterogeneidade” dos BRICs apoiando o Irã com armamentos e apoio logístico – visando a impedir um fortalecimento desmedido do sionismo – ao mesmo tempo que garante os interesses da própria burocracia russa e das burguesias da Índia, EAU, Arábia Saudita, Brasil e Egito, ao manter as exportações de carvão (Rússia e África do Sul), petróleo (Brasil, Egito, EAU, Arábia Saudita e Rússia), componentes eletroeletrônicos e militares (Índia), financiamento de projetos de infraestrutura (em Haiffa se privatizou parte de seu porto, e os vencedores do leilão foram a estatal chinesa Shanghai International Port Group e a empresa indiana Adani), etc. Outro exemplo da hipocrisia dos defensores da “solução dos dois estados” é a extensão dos intercâmbios comerciais da China com Israel, ao qual exportou bens por US$ 14,4 bilhões. Os EAU deixaram Israel exportar seus bens e produtos a partir de seus portos, em uma clara tentativa de evadir o cerco militar dos houthis no Mar Vermelho em apoio aos palestinos.
A África do Sul dá uma amostra clara dessa hipocrisia, ao iniciar um processo na Corte Internacional de Justiça (CIJ) contra Israel por genocídio, e, ao mesmo tempo, seu Ministro do Comércio do país, Parks Ta, defender as exportações de carvão para Israel. Segundo explicou Tau, “As sanções aplicadas por um membro contra outro na ausência de sanções multilaterais da Organização das Nações Unidas (ONU) violariam o princípio de não discriminação da Organização Mundial do Comércio (OMC), e abririam o país a um desafio legal.” Ou seja, o governo sul-africano pode dar-se ao luxo de processar um estado por genocídio, enquanto acoberta sua cumplicidade real com esse genocídio, sob a farsa do “direito comercial internacional”. Essa mesma hipocrisia é a do governo Lula, que denunciou o genocídio, somou-se ao processo na CIJ da África do Sul, mas compra armas da Elbit e exporta petróleo para Israel.
Como fazem Israel, Reino Unido, Alemanha, Espanha, Bélgica, França e tantos outros países alinhados e subordinados aos ditames dos EUA, também entre os supostos países contrários aos massacres, e que reconhecem o “estado palestino”, há os financiadores do holocausto palestino, com pouquíssimas exceções de um punhado de nações oprimidas. O imperialismo faz negócios com o genocídio, e procura estender as guerras, objetivando a destruição das propriedades nacionalizadas russa e chinesa, fundamentalmente, assim como a sua influência em várias regiões do mundo, como África e América Latina. As burocracias da Rússia e da China buscam um acordo que preserve seus interesses, estrangulando a capacidade de luta dos povos e nações oprimidas pela sua autodeterminação. São os explorados e oprimidos, que não têm qualquer interesse material com a continuidade do genocídio, a única força social capaz de combater ao lado dos palestinos pela sua real autodeterminação.
Para dar passos por esse caminho, que é o da independência de classe, as massas por todo o mundo e em todos os países, devem romper com seus governos, e usar seus métodos próprios de luta para impedir que o imperialismo e sionismo sejam vitoriosos, afundem a humanidade na barbárie e destruam as conquistas revolucionárias do proletariado mundial. O programa da revolução social nos países capitalistas, e o da revolução política nos estados operários degenerados pelas burocracias contrarrevolucionárias, surgirão como respostas às necessidades práticas da luta do proletariado para impor suas reivindicações e ajudar na derrota do sionismo e imperialismo no Oriente Médio. Esse é o caminho da vitória das massas palestinas e do avanço na revolução proletária nos países capitalistas. E isso exige superar a crise de direção revolucionária, erguendo os partidos proletários e internacionalistas que combatam ao lado dos oprimidos (sem apoiar o programa e métodos de suas direções), e organizem o proletariado em todos os países para estrangular a maquinaria militar das potências, e avançar na luta de classes contra as burguesias, sob sua estratégia própria de poder.