
O Internacionalista n° 21 / NACIONAL / ELEIÇÕES – 2° Turno / novembro de 2024
As esquerdas se enrolam para defender uma candidatura com um programa direitista
No 2º turno das eleições de 2024, as esquerdas permaneceram em geral centralizadas politicamente pelo reformismo petista que, por sua vez, está subordinado à Frente Ampla burguesa que elegeu Lula/Alckmin em 2022.
Veja-se o caso do PSTU. Em Minas Gerais, rejeitou o apoio a Fuad, do PSD, porque seria uma candidatura burguesa. Defendeu ali, como em outros estados em que o PT ou o PSOL não estavam no 2º turno, o voto nulo. Não se preocupou nas terras mineiras em estar afastado dos trabalhadores, das bases, que seguiram as candidaturas burguesas.
Já em São Paulo, o PSTU caracterizou a candidatura de Boulos assim: “O programa de Boulos e os compromissos firmados durante toda a sua campanha foram com os capitalistas, com o governo Lula e com vários partidos e figurões da direita. Pelas escolhas que tomou, não confiamos que Boulos fará um governo comprometido com os interesses do povo trabalhador de São Paulo”. Certamente, Boulos foi uma candidatura burguesa, com um programa que em muitos pontos lembrou os de Paulo Maluf e Orestes Quércia – defesa do aumento da repressão policial para enfrentar a criminalidade, “polícia na rua para prender bandido” foi dito explicitamente. No entanto, apesar disso, que o iguala a Fuad em Minas Gerais, por exemplo, o PSTU decidiu pelo voto crítico em Boulos em São Paulo: “(…) defendemos voto crítico em Boulos. Fazemos isso porque entendemos o desejo de milhões de trabalhadores e jovens que esperam que o bolsonarismo seja derrotado na eleição e faremos campanha para ajudar em sua derrota”.
Assim, o “desejo de milhões de trabalhadores e jovens” serve para justificar o apoio ao PSOL e ao PT, mas não a outros partidos da Frente Ampla contra o bolsonarismo e a extrema direita. O PSTU está agarrado no calção de banho do PT e PSOL, tentando ficar à beira do guarda-sol da Frente Ampla. O “voto crítico” e a assimilação de parte do programa reformista na campanha eleitoral do PSTU, teve o objetivo aparelhista de arrastar parte da base petista e psolista descontente com os rumos direitistas do governo de frente ampla. O resultado é a perda da independência de classe, o chamado a um voto num candidato que não faria “um governo comprometido com os interesses do povo trabalhador de São Paulo” como o próprio PSTU diz. O PSTU chamou a votar num candidato e num programa contrário aos interesses dos trabalhadores, ainda que criticamente.
O MRT colocou sua posição de apoio crítico sobre a base de “um programa revolucionário”. Colocou-se “junto com todos aqueles que querem derrotar Nunes, Bolsonaro, Tarcísio e a extrema direita.” Uma unidade frentista pode ser colocada com as mais diversas correntes políticas de esquerda, para se alcançar um objetivo comum de mobilização e de luta pelas reivindicações. O que não se pode fazer é pintar o demônio de santo. A política da maioria das correntes e partidos de esquerda, de derrotar a extrema direita e o bolsonarismo por meio da disputa eleitoral e anulando as lutas de classes, não pode ser apoiada de jeito nenhum. O MRT diz que apoia criticamente Boulos “com um programa revolucionário”. Mas Boulos tem um programa burguês de direita, contra as reivindicações e as lutas. E o MRT tenta mascarar seu apoio a isso com palavreado radicalizado.
Como bons morenistas, a SOB – Socialismo ou Barbárie – afirmou que “nossa bandeira funde a luta direta com o voto, defendemos: Tomar as ruas já! Nenhum voto em Nunes e nenhuma confiança na conciliação de classes!” Nesse sentido, sua defesa do voto crítico em Boulos foi a de aparência mais radicalizada. Porque propôs que se organizasse um movimento nas ruas, não para defender as reivindicações com a luta de classes, mas para eleger Boulos que representou a política burguesa antagônica às lutas e reivindicações das massas. Somente seria possível que o voto expressasse a luta nas ruas, se e somente se, o candidato fosse parte dessas lutas de classes, e defendesse as reivindicações e os meios de alcançá-las, à margem da politicagem burguesa. Diria o conjunto dos morenistas, e mais os revisionistas e reformistas: “mas isso não ganha eleição!”. Sim. Mas isso preserva a independência de classe e que as massas assumam a resolução de seus problemas pelas próprias mãos, dando um passo no sentido da revolução proletária. O problema é que as esquerdas caminham no sentido oposto.
