
O Internacionalista n° 21 / NOTAS INTERNACIONAIS / novembro de 2024
Alemanha
A burguesia alemã afunda no militarismo, objetiva travar uma luta encarniçada pelos mercados e assim projeta as tendências bélicas e a fascistização da política
O ministro da Fazenda alemão, Chris-tian Lindne, foi destituído de seu cargo pelo chanceler Olaf Scholz. Parece que não caiu bem ao chanceler que aquele tenha confirmado publicamente o que é consequência prática do governo: continuar em guerra com a Rússia exige o saque os fundos previdenciários, corte de subsídios sociais, e desvio de recursos da saúde, da educação e dos serviços públicos para a indústria bélica. Com a saída do ministro, o governo Partido Democrático Livre (FDP) confirmou sua saída da coalizão de governo. Os ministros de Justiça, Transportes e Educação desse partido já renunciaram. Estão convocadas eleições antecipadas para fevereiro de 2025. A crise política alemã terá reflexos imediatos sobre a situação política, projetando as tendências bélicas e a luta de classes, dentro e fora das fronteiras nacionais.
Segundo o FMI, pelo segundo ano consecutivo, haverá uma contração do PIB alemão. Seguindo as imposições dos EUA, o governo alemão cortou o acesso a recursos energéticos baratos da Rússia e, agora, os paga com aumentos dos custos de produção, enfrentando a produtividade chinesa, que toma de assalto os mercados europeus, que estão com uma economia enfraquecida e doente. Verifica-se a desindustrialização do país, em meio à drenagem de recursos orçamentários para manter os lucros da indústria bélica. A Volkswagen anunciou o fechamento de dezenas de fábricas, e o fechamento de cerca de 15 mil empregos, por conta da queda nas vendas e pela concorrência com a China na produção de carros elétricos, mesmo com a iniciativa do governo alemão de aumentar as taxas em 100% para importação de carros elétricos chineses. A tecnificação, elevada produtividade e o baixo valor da força de trabalho da classe operária chinesa fizeram da China o maior e mais avançado produtor de carros elétricos, ganhando a corrida pelos mercados. O problema é que a Alemanha não tem como concorrer com a produtividade chinesa e seus baixos custos, sem atacar fundo a classe operária alemã, ou seja, sem agravar a luta de classes. Mas, também deveria superar, no curto prazo, profundas deficiências quanto à carência crítica de força de trabalho qualificada e recursos energéticos em 183 setores. A educação tem déficit no valor de 68 bilhões de euros. Milhares de pequenos consultórios médicos e locais para acolhimento de crianças não dispõem de recursos necessários para funcionar. Pequenas e médias empresas quebraram e setores dos monopólios avaliam seriamente deslocar sua produção para fora do país. Isto acontece enquanto os preços de bens e serviços aumentam, rebaixando as condições de vida das massas. Soma-se a isso, a ameaça do agravamento da guerra comercial com os EUA, após Trump anunciar que deve impor tarifas de 10% sobre importações da Europa.
A burguesia e governos alemães estão decididos a fazer tudo para continuar a guerra contra a Rússia, por intermédio da Ucrânia, e o genocídio no Oriente Médio, por meio do Estado sionista de Israel. Os lucros dos barões da indústria e das finanças são mantidos à custa do holocausto dos povos oprimidos, da destruição das vidas ucranianas, do empobrecimento da maioria nacional e do retrocesso industrial. Um membro alemão do Bundestag, membro dos Verdes, partido do governo, Anton Hofreiter, confirmou, em entrevista na TV, que “80% das terras ucranianas estão localizadas aí [no Leste ucraniano] … importante para a produção de baterias, produção de células, de que necessitamos urgentemente aqui neste país”.
A guerra travada pela Alemanha contra a Rússia tem o claro objetivo de controlar essas fontes de lítio, hoje sob controle russo. Tornou-se urgente para a burguesia alemã agravar a exploração e a opressão no país, e também agravar o intervencionismo bélico, na luta pelos mercados. Esse é o fundamento que leva a Alemanha a se comprometer a fundo na guerra na Ucrânia. Para continuá-la em benefício dos monopólios e do capital financeiro alemão, o governo e a grande mídia burguesa vêm fazendo uma aberta campanha belicista e de preparação da população para uma possível guerra. Na capa do jornal alemão Die Welt, na nota “A sombra de Putin”, se acusa a Rússia de querer estender a luta por toda a Europa, e nesse sentido “está a travar uma guerra nas sombras, inclusive contra a Alemanha”. Essa falsificação corresponde à necessidade de a burguesia alemã criar condições para continuar financiando a indústria bélica e a guerra, que traz lucros elevados (e imediatos), sobretudo quando a economia alemã afunda na desagregação e no retrocesso industrial. Assim como os assalariados alemães devem rebaixar suas condições de vida, assim também os ucranianos devem pagar com sua vida pelos lucros e interesses da mesma burguesia alemã.
A cumplicidade alemã na guerra com a Rússia e no genocídio no Oriente Médio impulsionam a criminalização dos protestos e das comunidades muçulmanas e árabes. Foi aprovada uma lei que retira a cidadania aos que apoiem os palestinos ou condenem o sionismo. A bancarrota econômica alemã e seu militarismo tem violentos reflexos na política e instituições europeias. Um deles é a acelerada decomposição da democracia e fascistização das medidas do governo. Os social-democratas, “ecologistas” e “liberais” criam, com suas medidas, as condições para emergir, mais fortes, as tendências fascistas que se expressaram nas eleições regionais (O Internacionalista n° 20, setembro de 2024).
A Alemanha repete em grande parte a história de seu passado de pré-guerras mundiais, porque o capitalismo se decompõe rapidamente, e as massas padecem da crise de sua direção revolucionária. É isso, aliás, que impede que os movimentos em defesa dos palestinos, contra os cortes orçamentários e as greves como a da GDL (ferrovias estatais), expressem essa profunda tendência de luta das massas que se insurgem no país e no continente, em um movimento unitário pela derrota do governo e da OTAN. Entretanto, os ataques do governo são respondidos pelas massas, que lutam como podem e quase sempre enfrentando as traições e os bloqueios de suas direções. Para que essas tendências de luta deem um salto à frente, é preciso desenvolver um movimento baseado nas reivindicações que defendem a vida das massas, e que se posicione pela derrota do imperialismo no Oriente Médio e na Ucrânia, o que criará um firme ponto de apoio para combinar a luta reivindicatória à luta pela derrubada da burguesia do poder, abortando, por meio da luta de classes, o avanço das tendências fascistizantes que se verificam em todos os partidos alemães. Mas, para isso, é urgente que se construa o partido revolucionário e se avance na reconstrução de sua direção revolucionária mundial, sob a política e programa proletários.
