O Internacionalista n° 21 / NOTAS INTERNACIONAIS / novembro de 2024

A guerra comercial, as tendências bélicas e o genocídio continuarão desgraçando os explorados e oprimidos


No momento em que fechamos este encarte internacional do O Internacionalista n°21, era noticiada a decisão de Joe Biden, no apagar da luz de seu governo, de permitir a Ucrânia usar os mísseis de longo alcance fornecidos pelos EUA para ataques contra a Rússia (Inglaterra e França também o permitiram). Não é segredo que sua operação, lançamento e manejo contra os alvos russos somente podem ser realizados por soldados do imperialismo, com acesso aos sistemas técnicos de operação e inteligência por satélite. Biden deixa um presente de grego para Trump, que poderá agravar os confrontos e abrir caminho para a guerra contra a Rússia.

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Tínhamos assinalado em jornais anteriores que era provável que Harris vencesse Trump. Tomamos como base da análise o fato de a maioria das frações burguesas imperialistas se posicionarem até semanas antes das eleições pela continuidade dos democratas no governo (dado pelo maior volume de arrecadação de recursos, por exemplo), e, fundamentalmente, porque contavam com a influência sobre as direções sindicais, o que poderia garantir, a um provável governo Harris, uma melhor centralização dos sindicatos e movimentos de massas para controlar a luta de classes e, desse modo, garantir os negócios da burguesia. Esse erro de prognóstico deveu-se, principalmente, à impossibilidade de observar o quanto a crise tinha modificado de forma decisiva a relação entre as massas e o governo democrata, e corroído o apoio entre amplos setores dos assalariados e da pequena burguesia arruinada em relação a Biden-Harris. Deveu-se ainda à dificuldade de observar praticamente o quanto a burguesia monopolista se orienta a impor no interior do país um controle mais ditatorial sobre os sindicatos, greves, manifestações, etc. O erro é compreensível, sobretudo, quando se entende que a crise da direção revolucionária mundial, e a ausência de uma seção nos EUA, dificulta para os revolucionários avaliarem de forma precisa essas mudanças. O balanço procura ajustar os prognósticos históricos corretos (dissemos, não importa quem ganhe, as massas vão continuar a sofrer com o genocídio, as guerras, a barbárie, a opressão nacional, etc.) às mudanças operadas entre as massas e a virada tática realizada pela burguesia para concentrar sua ofensiva mundial em torno à disputa com a China.
Donald Trump derrotou Kamala Harris obtendo uma grande vantagem, tanto no número de delegados (312 contra 226) como no de eleitores: 68 milhões (51%) contra 63 milhões (47%). Com a oposição democrata enfraquecida, e com a maioria de senadores e de deputados e dentro da Corte Suprema de Justiça, Trump poderá trilhar o caminho de uma maior centralização política das instituições.
Entre os dois candidatos dos partidos imperialistas, se colou Jill Stein (Partido Verde), que obteve 630 mil votos. Ainda que seja um resultado pífio perante os republicanos e democratas, Stein contou com o apoio de um setor que rompeu com o Partido Democrata, por causa da sua cumplicidade no genocídio na Palestina – ainda que se mantenham as ilusões democráticas. Stein foi uma figura chave nas mobilizações contra o genocídio palestino (ela é judia) e nos comícios das ocupações das universidades.
A vitória republicana trouxe à superfície uma mudança na composição de votos, e também dos apoios nos estados. Trump venceu em 28 estados, enquanto Harris, em 18 estados. Em três estados chaves, anteriormente sob controle dos democratas, o republicano se impôs. O republicano foi o mais votado entre aqueles sem um diploma universitário, superando em 14% Harris, que obteve 13% sobre Trump entre diplomados universitários. Harris venceu Trump por 5% entre as famílias com renda acima de US$ 100.000, enquanto o republicano venceu entre as famílias de menor renda (em 2020, Biden superou em 13% Trump, nesse setor do eleitorado). 10% dos eleitores com menos de 30 anos que votavam em democratas, agora, o fizeram em Trump (em 2020, Biden obteve 65% dos votos nessa faixa etária). 68% dos eleitores afirmou que a inflação causava dificuldades no dia-a-dia, e um terço deles, que foi a situação econômica o fator mais importante para decidir seu voto. Reduziram-se em 10% os votantes negros que apoiavam os democratas (90% para 80%) e cresceu em 5% o apoio para Trump. Quanto ao voto latino, os democratas caíram de 71% para 53% (2008/2024), votos que migraram para Trump. O republicano prometeu expulsar os imigrantes ilegais, mas proteger os legalizados e com empregos registrados. Contou também com apoio da burocracia sindical dos Teamsters – o sindicato dos caminhoneiros – e muitos operários de base. Resumindo: os democratas cresceram mais entre os setores de elevados salários da pequena burguesia, enquanto Trump se firmou ainda mais entre operários e a pequena burguesia arruinada.
A vitória do republicano entre as massas se explica, fundamentalmente, pelas consequências da crise sobre os assalariados e os pequenos proprietários. Durante sua campanha, focou especialmente em prometer fechar a torneira da gastança na guerra na Ucrânia, e orientar a economia para garantir teto, comida e estabilidade aos norte-americanos. Essa demagogia burguesa calou fundo entre trabalhadores precarizados e a classe média empobrecida, ameaçados pela concorrência da imigração e a alta do custo de vida. Os democratas não conseguiram, com seus discursos em defesa dos “direitos” e da “democracia”, acobertar sua responsabilidade em relação aos impactos da crise, protegendo a população da alta da inflação. A vitória eleitoral de Trump se explica ainda pelo fato de o movimento Make America Great Again (MAGA), organizado em torno de Trump, controlar a administração das regionais do Partido Republicano. Combinando a demagogia popular com manobras organizativas, garantiu seu controle sobre quase todas as “delegações” republicanas, retirando da corrida eleitoral seus adversários internos, e centralizando o aparelho burocrático do partido, e os senadores e deputados que concorriam por cargos.
Ainda que seja o poder econômico dos monopólios e do capital financeiro que condicionem as eleições, impondo os candidatos e determinando as medidas do governo eleito, precisa da contenção da luta de classes e de uma certa estabilidade política para continuar seus negócios. A democracia formal serve a esse propósito, ao permitir às frações burguesas dominantes acomodarem seus interesses sem ter de recorrer a choques intestinos, mas, também serve-lhes para acobertar os avanços das tendências fascistizantes e autoritárias dos governos burgueses. Foi sob o governo de Biden que foi aprovada, ainda neste ano, uma lei que permite criminalizar e indiciar movimentos pró-palestinos por crimes e apologia ao terrorismo. A burguesia norte-americana ataca cada vez mais as liberdades democráticas, civis e políticas, porque precisa esmagar os movimentos e greves que ameaçam seus negócios e lucros. Nas “democracias” europeias (também na Ásia e América Latina), se observa o mesmo percurso geral.
Os EUA atravessam uma fase de desagregação industrial e retrocessos no mercado mundial. Ampliar a produção e as margens dos lucros internos exigiria reduzir os custos da força de trabalho e investir gigantescas somas de capital sem qualquer garantia de retorno para os investidores e o capital financeiro. O que tampouco seria possível sem uma ofensiva mais agressiva na política exterior, para ampliar o saque de riquezas e a guerra comercial com a China pelo controle dos recursos, mas também ampliar a guerra comercial contra a Europa, por meio de barreiras alfandegárias mais agressivas na disputa pelos mercados. A promessa de Trump de “acabar” com a guerra na Ucrânia, chegando a um acordo com a Rússia, significa preparar o terreno para formalizar a derrota da OTAN. Sem ajuda militar e financeira norte-americana, a burguesia e os governos europeus são incapazes (militar e financeiramente) de continuá-la. Se Trump tentar cumprir a promessa de reindustrializar os EUA, e reduzir a ajuda à Ucrânia, a burguesia europeia se enfraquecerá, e se verá ainda obrigada a entrar em choque com o governo e os monopólios norte-americanos na concorrência pelos mercados, justamente no momento em que suas economias retrocedem, e as massas estão em luta contra suas políticas mais gerais. Assim, serão forçados a escolher entre diminuir sua ajuda para Ucrânia ou continuá-la à custa de agravar os conflitos internos, no momento em que a população europeia sofre com a alta do custo de vida e se espalham pelo continente movimentos e greves.
É importante, no balanço das eleições, desmontar a farsa de que votar em Harris era votar pela “democracia contra o fascismo”, na defesa dos direitos e liberdades contra o autoritarismo. Essa falsificação ideológica jogada pelos democratas acobertou que os democratas mantiveram e até ampliaram as políticas reacionárias, ditatoriais e fascistizantes de Trump. A destruição dos direitos à saúde e à moradia, a legislação fiscal que favorece os ricos e esmaga as pobres, a guerra comercial, a expulsão de imigrantes, a legislação repressiva contra movimentos e greves, o parasitismo dos gastos militares sobre os orçamentos do Estado, os golpes de estados e o intervencionismo nos países oprimidos, etc. são parte essencial da política interna e externa de democratas e republicanos. O republicano dará continuidade à política imperialista traçada por Biden, despojando-a da retórica liberal e da farsa do “multilateralismo”. Como Biden, Trump terá também por principal objetivo favorecer os monopólios e o capital financeiro, impulsionar as guerras que servem a seus negócios, e saquear as nações oprimidas, afundando-as na barbárie social. E assim, cedo ou tarde, seu governo entrará em choque com os explorados e os movimentos, dentro do país e no mundo todo. Para contê-los no interior dos EUA, o republicano aplicará o arcabouço legal repressivo e ditatorial herdado dos democratas e, externamente, a receita das guerras, das intervenções, dos golpes de estado, etc.
Os EUA foram palco de movimentos grevistas e manifestações de massas que indicaram a retomada da luta de classes na principal potência imperialista. Essas lutas refletem e são parte de uma tendência mundial, que está presente entre os explorados e oprimidos, que lutam por suas reivindicações e a defesa dos povos oprimidos, e entram em confronto direto com suas burguesias e governos. Porém, continua ausente, nos EUA e no mundo, a direção revolucionária das massas, sua vanguarda com consciência de classe, organizada em partidos revolucionários e internacionalistas, que transformem as lutas defensivas das massas em uma ofensiva política sob a estratégia da revolução e ditadura proletárias, para assim finalmente derrotar as burguesias, frear o genocídio palestino, estrangulando o sionismo, e dar passos na conquista das reivindicações dos explorados com uma luta unitária e mundial. Entretanto, será desenvolvendo essas lutas defensivas e organizando as massas para derrotar as burguesias, com seus próprios métodos de luta e com sua força coletiva , que será possível dar passos para construir os partidos revolucionários e abrir caminho à luta revolucionária pelo seu poder próprio.