O Internacionalista n° 22 / dezembro de 2024

Editorial Internacional

As tendências bélicas ameaçam afundar as massas mundiais na barbárie, e na fome e miséria

Não há outra saída aos explorados e oprimidos que combater as burguesias e governos capitalistas, e ajudar incondicionalmente à luta das nações e povos oprimidos, para que se abra caminho à revolução que irá tirar à humanidade da ameaça da barbárie em larga escala


Em meio à decomposição capitalista, abre-se o caminho para aprofundar as tendências bélicas, que servem de meio para buscar uma nova fase de enriquecimento dos monopólios, destruindo forças produtivas em escala planetária, especialmente aquelas desenvolvidas sob a forma da propriedade nacionalizada pelas revoluções proletárias. O que inevitavelmente levaria a uma nova divisão do mundo e dos mercados, à reconstrução de fronteiras nacionais, e à destruição da China e da Rússia, para transformá-las em semicolônias. Está aí a explicação das referências do imperialismo quanto à possibilidade de uma guerra contra a Rússia e a China nos próximos anos. A retomada da guerra civil na Síria, por iniciativa das milícias pró-imperialistas, e daquelas ligadas a Israel e à Turquia, é mais um episódio desse percurso histórico. A cada mês que se passa, mais um passo é dado para uma conflagração entre o imperialismo e seus vassalos, com a Rússia e a China, o que arrastaria, inevitavelmente, a Coreia do Norte e todos os governos e países aliados – ou que delas dependem para sobreviver e se defender – da ajuda e apoio de suas burocracias governantes.
O imperialismo está em curso de guerra com, para tomar posse das fontes de lítio e outros minerais da Ucrânia necessários a suas indústrias, hoje sob controle russo e abrir caminho para enfrentar a China. A Ucrânia já ofereceu essas riquezas ao amo imperialista, em troca de que continuem seu financiamento e se envolvam ainda mais na guerra. Ofereceu ainda 19 empresas estatais a preço de banana, dentre elas, a maior empresa de extração de titânio e zircônio da Europa, e 100 mil hectares de terras. Os EUA já se colocaram para essa corrida, e despejaram bilhões de dólares em armas e financiamento. A Alemanha não quer ficar para trás, e pretende se tornar no maior e mais decidido apoiador da guerra contra a Rússia na União Europeia (UE). A burguesia francesa, expulsa da África, e com um passivo financeiro gigantesco, assim como a Inglaterra, também querem ser parte dos espólios de guerra na Ucrânia. Mas, para isso, a Rússia deveria ser derrotada, o que três anos de guerra contra a OTAN e mais de 30 países demonstrou ser uma impossibilidade. Por trás das potências imperialistas em decadência, se alinham os países vassalos europeus, com pouquíssimas exceções.
A situação de decomposição e desagregação das forças produtivas capitalistas atingiu o ponto em que força as potências imperialistas a falarem e se prepararem para a guerra. As burocracias herdeiras do estalinismo não querem a guerra, mas potenciam suas tendências, quando suas forças produtivas ganham terreno e conquistam mercados à custa do retrocesso do imperialismo. Novas medidas de guerra comercial contra a China e a Rússia foram anunciadas por Trump, mas também pela Alemanha e outros países, impulsionadas pela desagregação e retrocesso industrial – e em certa medida militar, também – das potências imperialistas, que já não têm como recorrer apenas aos mecanismos fiscais e às contrarreformas contra as massas, para dar sobrevida a suas economias em retrocesso. O desenvolvimento das economias nacionalizadas e o avanço de suas forças produtivas levam o imperialismo a afundar ainda mais no retrocesso econômico e, portanto, a aumentar sua ofensiva intervencionista. A militarização em Taiwan, Japão e Coreia do Sul, etc. são impostas pelos EUA visando a esse objetivo. Não obstante, pretende cercar a China e a Rússia, e atingir seu desenvolvimento e interesses estratégicos. Uma vez fracassadas todas as medidas diplomáticas, poderá levar a burocracia a uma ofensiva, quando se a ameaça de ser derrubada, e sua fonte de poder (a economia nacionalizada pela revolução) corre perigo de ser destruída. Ainda que não busque a guerra, seria equivocado acreditar que a burocracia não a escolheria se for ameaçada sua própria sobrevivência. A invasão da Ucrânia, em 2022, e a mudança da Doutrina Nuclear da Rússia aprovada há uma semana atrás, e que lhe permite atacar “preventivamente” qualquer país, caso se considere uma ameaça à sua soberania, o provam.
A guerra não é apenas uma escolha dos governos, mas uma imposição objetiva da decomposição das forças produtivas mundiais como um todo. E, quanto mais as contradições econômicas se avolumam entre as duas formas de propriedade antagônicas mundiais, os governos de todas as partes são irresistivelmente arrastados a cavar sua trincheira junto ao imperialismo e seus aliados, ou junto aos Estados Operários degenerados e seus aliados. As democracias capitalistas na Europa se preparam para esse cenário. Diante da derrota da Ucrânia, França e Inglaterra, cogitam enviar tropas sem qualquer disfarce. Por isso, após criticar Trump, agora se preparam para seu plano de “ceder territórios” à Rússia, para depois preparar uma nova ofensiva. É com esse objetivo que começaram a circular, por toda Europa, diversas cartilhas “preparando e ensinando” os civis a como proceder em caso de uma guerra contra uma “potência nuclear” que ameaça a “democracia” e “cultura ocidental”: uma clara referência à Rússia e à China. Nos fatos, há uma guerra (ainda que não declarada) do imperialismo contra a Rússia, e, tudo indica, está se esgotando o tempo dos monopólios para fazer o mesmo com a China, antes que domine a produção e o comércio mundiais.
São essas contradições que determinam, em última instância, o caminho do rápido agravamento dos choques mundiais, das guerras civis e o genocídio palestino no Oriente Médio. O cessar-fogo entre Israel e Hezbollah significou uma derrota militar da tentativa de invasão profunda nos territórios do Líbano, e foi imposto pelo imperialismo norte-americano ao seu cão de guarda sionista – o cessar fogo permite a concentração de forças no genocídio em Gaza e nas ações ofensivas contra Síria. Logo ficou claro que o imperialismo condicionava seu vassalo, porque está já desenvolvendo seu plano de reacender os conflitos e confrontos na Síria. Há vários dias atrás, foi realizada uma ofensiva de milícias pró-imperialistas que contam com apoio e financiamento dos EUA, Israel e também da Turquia. O fato dessa ofensiva ser geral, em toda a frente norte e também no sul do país, onde sionismo se prepara para colonizar as Colinas do Golã sírias, demostrou que o imperialismo deve destruir as bases de apoio militares e financeiras da resistência árabe que se interponham a seus objetivos, e impor à Rússia sua retirada do país, e depois o recolonizar com ajuda sionista, removendo mais um obstáculo para cercar (e atacar) o Irã e a Rússia. Ao mesmo tempo, também atacando e destruindo os apoios nacionais para o desenvolvimento da Rota da Seda e do comércio e influência chinesa sobre os países árabes. Nessa linha, ocorrem, as tentativas de golpes de estado contra o governo eleito na Geórgia, financiadas e organizadas pelo imperialismo. Prepara-se, para esse país, que rejeitou se somar à UE (por enquanto), um cenário ao estilo “Euromaidan”, ou ainda de uma intervenção externa, sob qualquer justificativa. Não há qualquer margem para uma nação oprimida tomar decisões soberanas à margem do imperialismo: ou serve de ponta de lança para seus interesses, ou seu governo tem de ser removido.
As massas europeias são convocadas a se sacrificar, a perder direitos e rebaixar suas condições de vida, em nome dos lucros monopolistas e dos interesses do capital financeiro na guerra na Ucrânia e no genocídio palestino e libanês. Mais de 400 bilhões de euros foram torrados na Ucrânia e na indústria bélica, em prejuízo da situação econômica e dos assalariados do continente. Na França, por exemplo, no orçamento para 2025, se preveem cortes de 40 bilhões de euros, e mais 320 bilhões a serem arrancados de impostos. As massas respondem com greves, manifestações e radicalizando seus protestos contra a guerra, o genocídio e as contrarreformas, as que dão passos para a revolução.
A derrota do sionismo e do imperialismo, e a derrubada revolucionária das burocracias herdeiras do estalinismo, com o proletariado retomando o controle sobre a economia nacionalizada, são duas tarefas históricas urgentes. A revolução social nos países capitalistas e a revolução política nos estados operários degenerados nunca estiveram tão entrelaçadas na luta de classes contra a barbárie capitalista, e nunca ficaram tão claras suas bases comuns objetivas. Mas, essa compreensão não comparece como guia nos movimentos e nas lutas, por conta da crise da direção revolucionária do proletariado. Um programa que combine essas duas tarefas, formulando o programa e métodos para realizá-las, é decisivo para reconstruir a direção revolucionária que ajudará os povos oprimidos e o proletariado a derrotarem as burguesias e derrubarem governos, avançando sob a estratégia da revolução e ditadura proletárias.