


O Internacionalista n° 22 / NOTAS INTERNACIONAIS / dezembro de 2024
Consequências e resultados do cessar- fogo entre Hezbollah e Israel
O governo Netanyahu aceitou um cessar-fogo no Líbano para ter mãos livres para completar a limpeza étnica no norte de Gaza e acirrar sua ofensiva sobre a Síria e Irã
A resistência e as massas devem continuar sua luta e combates até derrotar totalmente o sionismo e expulsar o imperialismo de toda a região!
A nota abaixo foi redigida antes da derrubada de Bashar al-Assad, e publicada no jornal O Internacionalista n°22. Na sua avaliação, está contida a tendência de Israel avançar na sua ofensiva contra Síria e Irã. O que demonstrou-se um prognóstico acertado.
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Na noite do dia 26 de novembro, Israel e os EUA informaram sobre um acordo de cessar-fogo de 60 dias com o movimento xiita Hezbollah no Líbano. O acordo retoma a Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, que encerrou a guerra entre Hezbollah e Israel em 2006. As forças israelenses se retirarão do Líbano, mas desta vez o controle sobre a Linha Azul (faixa de 15 quilômetros que serve de “tampão” entre os dois países) não estará apenas sob supervisão da Força Interina da ONU (“cascos azuis”), mas também sob a responsabilidade do exército nacional libanês.
Os objetivos de Israel, ao assinar o cessar-fogo, foram anunciados por Netanyahu: 1) focar as atividades israelenses no Irã, 2) renovar tropas e repor equipamentos perdidos, 3) prevenir a convergência da resistência do Hezbollah com a do Hamas. Celebrada como uma vitória pelos sionistas, é nos fatos uma derrota. Israel não conseguiu destruir as capacidades militares do Hezbollah, impedir o lançamento de foguetes contra as colônias sionistas e, portanto, fazer retornar os colonos às terras ocupadas. Foram demonstradas as capacidades militares e a coragem da resistência libanesa em sangrar o poderoso exército sionista e rebaixar a moral de suas tropas e colonos sionistas, especialistas em enfrentar palestinos e libaneses desarmados. Pesou ainda, na decisão do governo colonial e terrorista, o profundo retrocesso econômico e a escassez de trabalhadores, por causa da política de mobilização que afetou a produtividade da economia, golpeada pelos gastos de guerra.
O imperialismo e aliados querem um exército libanês traidor de seu povo
Dias antes do cessar-fogo, foi apresentado um Plano de Recrutamento do Exército do Líbano, pelo Comandante do Exército, General Joseph Aoun, logo após uma viagem que fez aos EUA. Com financiamento pelo valor de um 1 bilhão de dólares, o primeiro-ministro libanês, Najib Mikati, anunciou que a medida procura recrutar e armar 6 mil novos soldados. O “plano” não foi discutido com as facções opositoras, nem com todos os ministros do governo. O Ministro da Defesa, Maurice Slim, acusou Aoun e alguns ministros de violarem a Constituição, visando a monopolizar o controle sobre os militares. O ex-ministro da Defesa, Yaacoub Sarraf, disse que seria melhor usar esses fundos para melhorar salários, condições de vida e equipamento dos 85 mil soldados já trabalhando.
O “Plano de Recrutamento do Exército do Líbano” é parte de um plano imperialista e sionista para usar o exército libanês como seu instrumento contra o Hezbollah. O imperialismo está ciente dessa situação, e por isso procura implementar seu “plano” para o exército, visando a aplicar a tática de aprofundar a divisão entre xiitas e sunitas, e entre estes e os cristãos, procurando criar as condições para uma “nova guerra civil” libanesa. Não conseguindo derrotar a resistência libanesa, quer destroçar as relações internas entre as facções libanesas, e arrastar o Hezbollah a um conflito interno. Mas, é difícil que setores do exército se disciplinem a servir de capachos dos que lutam contra seu inimigo comum, ainda que conservem profundas diferenças religiosas e políticas. Isso poderia levar a uma deserção em massa do exército, e a aumentar a influência de Hezbollah. O que levaria a transformar as derrotas táticas do Hezbollah, pelas perdas de lideranças e capacidades militares, em um massivo apoio à sua luta.
O Hezbollah não foi derrotado, e sim o sionismo
A invasão derrotada reforça a autoridade do Hezbollah, que representa a revolta da nação oprimida contra seus opressores, e demonstrou ser capaz de infligir pessadas derrotas ao exército sionista. O cessar-fogo foi imposto pelos EUA a Israel, para evitar a continuidade de uma guerra que levaria ao enfraquecimento de seu vassalo e, portanto, a atrasar o objetivo imperialista de usar seu exército para enfrentar a Síria e o Irã. O Hezbollah irá aproveitar a trégua para se reagrupar e melhorar suas capacidades de combate, para continuar a luta contra Israel, e isso inclui continuar a ajudar os palestinos.
O Hezbollah é o maior e mais popular das facções, e está integrado profundamente à sociedade libanesa como um partido político, e até uma “organização social”. Dirige e aplica programas sociais extensivos, como construção e administração de escolas, hospitais, bancos, e até cooperativas agrícolas. Foram os maiores financiadores da reconstrução, após a guerra de 2006, e estarão à frente na próxima reconstrução que se abre com a retirada israelense. Uma “nova guerra civil”, no quadro de profundo ódio dos oprimidos árabes contra o sionismo, provavelmente não ajudaria muito aos pró-imperialistas e aliados do sionismo, e sim ao Hezbollah, para ganhar novos apoios e capacidades políticas. Isso se verifica, concretamente, com o Hamas, que ganhou um apoio maior do que contava no passado, ao se erguer como a resistência comprometida com seu povo, enquanto a ANP definha como traidora.
Síria: o novo front de guerra do militarismo imperialista e sionista
A Síria se tem aproximado do Irã, e conta com apoio da Rússia. Recentemente, foram deslocadas tropas russas sobre as fronteiras norte e sul do país, para ajudar o Exército Árabe Sírio a combater milícias pró-imperialistas e pró-sionistas, que visam a uma ofensiva militar para desgastar militarmente o exército sírio e, assim, reacender a ‘guerra civil’, que impeça o país de responder militarmente, se Israel decidir avançar na colonização completa das Colinas do Golã. Na prática, há uma guerra em curso de Israel contra a Síria, ainda que acobertada pelo uso de milícias jihadistas que o sionismo treina e financia. É o mesmo método que usa a OTAN na Ucrânia para combater a Rússia, utilizando um exército nacional vassalo como intermediário. O sionismo acredita que, quanto mais a Síria continuar consumindo recursos militares e financeiros na guerra fratricida, mais fácil será para o sionismo transformar o território soberano sírio em colonato sionista, porque, se for à guerra, a Síria teria dois fronts abertos.
Para Israel, colonizar totalmente as Colinas do Golã lhe daria controle direto sobre importantes recursos aquíferos, e capacidade para realizar ações militares contra a Síria impunemente. Dois terços das montanhas já foram ocupadas, após a Guerra de 1973, e nunca mais devolvidas ao país que é seu dono legítimo. O cessar-fogo no Líbano tem por consequência indireta, portanto, permitir a Israel continuar com sua política colonial por todo o Oriente Médio. Mas, para impor à população israelense uma nova aventura bélica que consumirá maior porção dos orçamentos, agravando a crise econômica e sangrando ainda mais a força de trabalho, o governo Netanyahu deverá submeter o país a uma mais ferrenha e violenta ditadura.
O governo ditatorial de Netanyahu é o resultado da democracia colonialista e racial
A expulsão de setores sionistas críticos do gabinete por Netanyahu e a ultra-direita religiosa reforçou a centralização ditatorial do governo. Essa tendência estava presente no objetivo da subordinar o judiciário ao executivo, na aprovação no Parlamento de Israel como estado judeu exclusivo, no avanço aos assentamos sionistas, etc. A ofensiva militar assassina sobre Gaza acelerou sua cristalização. Essa política colonial, racista e genocida é defendida por todos os partidos sionistas, e foi referendada nas eleições. Agora, viraram leis, graças às instituições da “única democracia da região” que, por meiodelas, elevam o terrorismo de estado e a limpeza étnica a um patamar constitucional. A “democracia israelense” se revelou como uma tosca pintura da ditadura cívico-militar de uma gangue genocida e racista.
Os passos mais recentes dessa ditadura foram aprovar no Parlamento israelense uma lei para encarcerar – e torturar nos fatos – qualquer palestino ou palestina de até os 12 anos, sob suspeita de “participar em atividades terroristas”. Para os menores de 12 e 13, detidos por “suspeita de terrorismo”, serão construídos centros de detenção separados. Ao completar os 14 anos, serão transferidos para prisões de adultos. A lei permite ainda deportar os parentes dos “acusados” – qualquer que seja sua idade. A lei estará vigente por cinco anos e, depois desse prazo, poderá ser aprovada por mais dois anos.
Aguarda-se ainda que o Parlamento sionista aprove a extensão da presença militar israelenses sobre o norte de Gaza. Ainda que o sionismo não consiga expulsar todos os palestinos de suas terras, impôs um declínio acentuado da população civil, e apagou do mapa a infraestrutura necessária à vida (hospitais, instituições educativas, moradias, serviços básicos, etc.). É com esse objetivo que estão se construindo ali infraestruturas militares e civis para, depois, colonizá-las. O cessar-fogo com o Hezbollah permite a Israel se “concentrar” em assentar sua colonização e limpeza étnica nessa região de Gaza. Mas, para isso, terá de derrotar a resistência palestina e apagar do mapa os palestinos, o que nunca conseguirá.
Pela derrota do sionismo e a destruição do estado genocida de Israel
Os ataques do Irã, dos houthis e das milícias iraquianas se somaram à capacidade da resistência libanesa e palestina, reunindo-os, na prática, em uma frente de ação comum contra um mesmo inimigo, e que expressa a luta pela autodeterminação nacional por trás do véu do obscurantismo religioso. Portanto, os marxistas e aqueles que estão pela vitória da resistência e seu direito à autodeterminação, sem concordar com o programa e métodos de suas direções políticas e militares, sempre lutarão pela sua vitória e pela derrota do sionismo e do imperialismo. A derrota dos opressores genocidas abrirá caminho à luta das massas árabes pela sua emancipação e libertação nacional. E favorece a luta de classes do proletariado nos países imperialistas e no mundo todo, ao enfraquecer seu principal inimigo em casa.
É preciso “reunir em uma só força a ação das massas contra seus inimigos comuns no mundo todo (…) para abrir caminho à derrota do sionismo e do imperialismo, e para avançar na revolução proletária por toda parte”. Essa tarefa depende, fundamentalmente, de a classe operária mundial “estrangular toda e qualquer colaboração com o Estado genocida de Israel” nos seus países, e impor a seus governos a ruptura de todas as relações com o estado de Israel (citações do Manifesto n° 54 do PPRI, “Um ano de genocídio um ano de resistência”, de 8 de outubro de 2024).
A destruição do estado de Israel, um câncer criado pelo imperialismo para dominar o Oriente Médio, permitirá dar passos para construir sobre seus escombros um Estado operário, produto do avanço das massas sob a estratégia da revolução e ditadura proletárias, acabando com a exploração de classe e a opressão nacional, projetando assim a estratégia dos Estados Unidos Socialistas do Oriente Médio.