O Internacionalista n° 24 / fevereiro de 2025

Editorial Internacional

Trump inicia sua presidência apontando para um claro percurso fascitizante e militarista de sua política interna e externa


Em 20 de janeiro, Trump assumiu seu segundo mandato à frente dos EUA. No percurso destes dias, assinou mais de uma centena de ordens executivas (decretos). Dentre elas: 1) retirou os EUA dos Acordos de Paris sobre emissões de CO2, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE); 2) revogou as leis de promoção de igualdade e diversidade de gênero, bem como os processos de 2,5 mil pessoas processadas pela invasão ao Capitólio em 2021; 3) vetou o poder de agências federais emitirem regulações; 4) bloqueou pedidos de asilo político, cancelou a concessão automática de nacionalidade por nascimento, no país, de filhos de imigrantes, aprovou a deportação de imigrantes “ilegais” e decretou estado de “emergência nacional” nas fronteiras com México; 5) classificação de cartéis de drogas e dos houthis como “terroristas”; 6) aprovou a entrega de milhares de bombas de uma tonelada de explosivos cada uma para Israel, 7) declarou “emergência energética” associada ao fim das restrições ambientais e dos empreendimentos eólicos (terrestres e marítimos); 8) obrigação do trabalho presencial em jornada completa para funcionários públicos; 9) suspensão da ajuda financeira da USAID para o exterior por 90 dias, dentre muitas mais. Recentemente, 10) orientou agências de segurança a aplicarem medidas extraordinárias para avaliar como “deportar” estudantes estrangeiros envolvidos nos protestos pró-palestina; 11) aplicou taxações mais elevadas para produtos canadenses, mexicanos, latino-americanos e europeus; 12) ordenou deportações vexatórias de imigrantes ilegais; 13) congelou as ajudas financeiras ao exterior; 14) demitiu centenas de funcionários de diversas agências; 15) agravou as pressões sobre os países da Europa para aumentar seus gastos e financiamento militar da OTAN em até 5%, etc.
Os decretos esclareceram o objetivo da mudança tática operada no comando do estado da principal potência imperialista. Não são uma declaração ideológica, mas medidas práticas e ações concretas para ajustar a política interior e exterior, visando a equacionar a desagregação da economia norte-americana diante de seus concorrentes mundiais. Traduzem para a linguagem política uma tendência que percorreu o governo democrata e que, uma vez plenamente amadurecida, precisava ajustar seus métodos e táticas da guerra comercial e tendências bélicas contra seu principal rival – a China. E de enfrentamento direto aos movimentos sociais.
Entre a primeira e segunda guerras mundiais, se operou um deslocamento do poder capitalista, da Europa para os EUA. A participação dos EUA na divisão do mundo de pós-guerra junto da URSS (a Inglaterra cumpriu um papel secundário à instrumentalização da divisão do mundo entre as principais forças econômicas e políticas mundiais), consolidou aquele país como o principal motor da indústria e consumo de mercadorias, bem como de principal poder financeiro mundial. Essas condições “excepcionais”, resultado do fluxo de riquezas criadas mundialmente aos cofres estadunidenses pela via de reparações e pagamento por mercadorias e empréstimos, combinada à elevada técnica produtiva e produção estandardizada, se manifestaram nos EUA como posse de três armas decisivas para seu domínio sobre o conjunto da economia mundial capitalista: a) posição “predominante” para determinar a nova divisão do mundo, de acordo com os interesses de sua burguesia – a exemplo da criação de seu enclave militar no Oriente Médio, Israel; b) monopólio da moeda para o comércio mundial, que se transformou em um meio de apropriação de grande parte de mais-valia mundial, por mecanismos monetários; e c) uma força militar muito superior em número e técnica, que lhe garantiu a imposição de seus interesses, no caso de as duas primeiras “armas” fossem insuficientes para impor suas imposições.
Com o gigantesco e acelerado desenvolvimento econômico da China (produto contraditório desse percurso de elevação do capitalismo norte-americano e do expansionismo de seu capital financeiro) foi ela que passou ocupar o lugar de principal país manufatureiro, alcançou os EUA em ramos chaves do desenvolvimento tecnológico, e projetou seu expansionismo, retirando dos EUA várias de suas posições comerciais. A decomposição industrial e o constante retrocesso do “setor” tecnológico perante o desenvolvimento chinês obrigam a burguesia norte-americana a se livrar dos “velhos” métodos dos governos democratas, e assumir uma política agressiva em sua política exterior. É erto que lhe restam ainda os enormes recursos militares herdados do passado. Essa é, talvez, a mais imediata e efetiva “arma” que resta à burguesia norte-americana para tentar frear seu retrocesso e desagregação industrial e comercial. São parte dessa política, as contínuas ameaças de Trump de taxar em 100% as mercadorias produzidas pelos BRICS, visando a evitar que o dólar perca mais terreno nas transações e, desse modo, se freie o deslocamento de enormes valores criados socialmente para esse país que, diuturnamente, hoje são deslocados pelo poderio econômico da China, que espalha enormes volumes de sobretrabalho produto da exploração da força de trabalho chinesa por todas partes, para abrir mercados antes dominados pelos EUA.
Sem essa apreciação objetiva do conteúdo da mudança nas relações mundiais entre o estado operário degenerado chinês, com seu portentoso desenvolvimento de suas forças produtivas baseadas na propriedade nacionalizada pela revolução, com as forças produtivas capitalistas em retrocesso na maior e mais poderosa potência imperialista, não é possível entender o conteúdo e objetivos traçados pelo governo Trump. É parte do problema da burguesia norte-americana, o desenvolvimento e fortalecimento técnico e produtivo das forças produtivas erguidas sobre a propriedade nacionalizada pela revolução proletária na Rússia. Mas, o maior perigo o representa hoje – e imediatamente – a China. Assim, o governo Trump pressiona a burguesia européia que tome para si lidar com o “problema russo”. A União Europeia precisa dos recursos minerais e industriais do Leste ucraniano e de recursos energéticos baratos para subsidiar sua produção industrial. Precisa tomar matérias-primas essenciais que estão sob controle russo, e, sobretudo, destruir a economia estatizada para, depois, reconstruir suas forças produtivas que se decompõem e se desagregam, presas às fronteiras nacionais. As exigências de Trump aos governos europeus de elevarem seu financiamento da OTAN é uma divisão de esforços no interior da burguesia mundial imperialista, em função de como a crise capitalista se reflete em cada país e região.
A destruição das regulamentações ambientais, para elevar a produção de recursos energéticos fósseis, e o encerramento de programas de produção “socioambientais mais responsáveis”, visa a aumentar a produção, aproveitando-se da capacidade industrial instalada, portanto, sem ter de realizar grandes investimentos em capital constante, que encareceria a produção de bens e mercadorias. Dada a profunda decomposição de seu “tecido produtivo”, em grande parte obsoleto, a burguesia norte-americana vê seu tempo se esgotar para tentar retomar sua primazia nos mercados, baseado em altos investimentos de capital que não seriam lucrativos imediatamente, e que, aliás, exigiriam realizar uma redução brutal no preço da força de trabalho, com as ameaças da luta de classes que isso carrega. Um caminho mais “fácil” e “rápido” é rasgar os acordos da OCDE, e liberar os EUA de impor barreiras às importações unilateralmente. Em síntese: a política de Trump trata de elevar os lucros dos monopólios estadunidenses, apoiando-se na capacidade industrial e técnica já instalada, e aumentar artificialmente (impostos) os preços das mercadorias de seus concorrentes.
Além de que os EUA “atravessam uma fase de desagregação industrial e retrocessos no mercado mundial”, isso é ainda mais violento e real para a burguesia europeia. Na luta pelo domínio da produção e as margens dos lucros, e na luta contra a China, a principal violência recairá sobre os custos da força de trabalho no interior das potências capitalistas. Os EUA buscam que a Europa capitalista arque ainda mais com os custos da guerra na Ucrânia. Mas, a própria burguesia norte-americana não tem como avançar em seus objetivos, sem optar por uma maior violência dirigida contra os direitos, conquistas e salários das massas assalariadas norte-americanas. O fechamento de “programas sociais”, de subsídios e garantias para as “diversidades”, os próximos ataques aos direitos trabalhistas e sindicais, a redução dos custos orçamentários, reformas no sistema da saúde e redução de impostos aos mais ricos, etc. visam a um mesmo objetivo: maior apropriação de recursos financeiros em mãos do capital financeiro.
A política traçada por Trump exige uma mudança nas relações internas entre as classes, especialmente entre o proletariado e a burguesia nacional norte-americana. Disso tratam as medidas de maior centralização política sobre as instituições, para conter as inevitáveis disputas inter-burguesas, de um lado, e garantir uma frente unificada mais repressiva e ditatorial sobre sindicatos e movimentos de luta. O controle do parlamento e da Justiça garantem imediatamente ao republicano centralizar a tomada de decisões e imposição das medidas legais e medidas jurídicas necessárias ao seu plano de governo. Um exemplo disso são as deportações de imigrantes e as emaças de fazer o mesmo contra os estudantes estrangeiros (com visto) que apoiaram a luta contra o genocídio palestino. Trata-se de uma aplicação da lei aprovada sobre o governo Biden, de criminalização dos manifestantes e movimentos pró-Palestina. É abortando a luta de classes que o capitalismo norte-americano procura garantir “uma maior capacidade de uma ofensiva mais agressiva na política exterior (…)”. A estrutura legal, jurídica e até os fracassos da política econômica de Biden-Harris se desenvolveram, por meio de um salto, para as medidas tomadas por Trump em seu novo mandato. Ajustou-se assim a superestrutura política às condições de profunda crise dos EUA, e à necessidade de acirrar a luta pelos mercados e uma nova divisão do mercado mundial. Tudo isso condiciona e determina as tendências fascistizantes mais claras do seu segundo mandato.
Essa política impulsionará a revolta das massas oprimidas nos países semicoloniais e das massas assalariadas nos próprios Estados Unidos. Os ataques da burguesia devem ser respondidos com aa luta e ação direta das massas assalariadas. Mas, a luta de classes nos EUA e na Europa exige que se forme uma vanguarda organizada em partido marxista-leninista-trotskista, que rompa com o democratismo e as instituições, e abra um caminho para a conquista de sua independência de classe. Assim, terão de resolver, nos EUA e no mundo todo, sua crise de direção revolucionária, que ajude a projetar e transformar “as lutas defensivas das massas em uma ofensiva política sob a estratégia da revolução e ditadura proletárias, para assim finalmente derrotar as burguesias, frear o genocídio palestino, estrangulando o sionismo, e dar passos na conquista das reivindicações dos explorados com uma luta unitária e mundial”.
Essa tese é provada, a cada dia que passa, como mais urgente. É desenvolvendo as lutas defensivas pelas reivindicações mais imediatas, “e organizando as massas para derrotar as burguesias, com seus próprios métodos de luta e com sua força coletiva, que será possível dar passos para construir os partidos revolucionários e abrir caminho à luta revolucionária pelo seu poder próprio”. Luta que se combina à defesa irrestrita das conquistas revolucionárias por meio da revolução política nos estados operários degenerados, que abre a via para a solução proletária para a crise, a que leva a humanidade para a barbárie.


Nota: todas as citações foram extraídas do jornal O Internacionalista n° 21, “Trump derrota Harris e obtém a maioria no Congresso”, publicada como encarte à edição de novembro de 2023