O Internacionalista n° 23 / NOTAS INTERNACIONAIS / janeiro de 2025


O governo de Bashar Al Assad, na Síria, vinha sendo sustentado principalmente pela Rússia e pelo Irã, desde que a guerra civil de 2011 a 2015 foi sufocada conjunturalmente. Nessa guerra civil, o Estado Islâmico era a maior força militar, seguido pelo conjunto de rebeldes curdos, que se chocavam também contra as forças da Turquia. Os Estados Unidos tentaram durante anos derrotar o Estado Islâmico, que chegou a ocupar territórios em vários países da região e proclamar seu califado. O governo e exército sírios se mostraram impotentes para manter sob controle as regiões e nacionalidades, e para derrotar ou frear o avanço das milícias. Somente sob a ação militar da Rússia, foi possível derrotar o avanço do Estado Islâmico, afugentando-o para áreas desérticas do país. A partir daí, Moscou passou a ditar a política da Síria e a definir o destino de seu governo, embora os EUA continuassem ali com suas tropas para roubar petróleo sírio, a Turquia patrulhasse suas fronteiras e entrasse diuturnamente em seus territórios, os curdos mantivessem ataques, e grupos menores ocupassem cidades do país. O exército sírio de 200 mil soldados, apoiados na Rússia e no Irã principalmente, mantiveram a Síria como um país pelo qual passavam insumos aos palestinos e ao Hezbollah, submetidos ao genocídio sionista e à ofensiva militar de Israel para colonizar a Palestina e regiões do Líbano, e que ajudava o Irã em suas retaliações a Israel.

Assad encabeçava uma ditadura nacionalista sob a forma de uma dinastía familiar de 57 anos em seu país. As prisões estavam lotadas de presos políticos, e realizavam diariamente torturas. Havia um ódio profundo de grande parte da população a seu governo. No cenário internacional, já tinha ocupado anteriormente um papel de apoiador dos interesses da burocracia russa, com sua aproximação à URSS, e depois das potências imperialistas, como fizeram Kadhafi, na Líbia, e Hussein, no Iraque. Nos três casos, os governos passaram a ocupar um papel de obstáculos aos interesses do capital financeiro internacional, quando mantiveram sob seu controle e nacionalizados setores estratégicos da economia nacional e, por suas medidas de governo de limitada soberania nacional, obstaculizaram o expansionismo imperialista. Na Líbia, a derrubada de Khadafi levou ao estabelecimento de um caos político no país, e de um governo títere, que hoje ainda está sob a tutela do imperialismo. No Iraque, a imposição de um governo títere, produto da ocupação militar estrangeira do país, levou à formação de milícias opositoras, dentre as quais o Estado Islâmico. Este foi inicialmente apoiado pelos EUA, no caminho para derrubar Assad na guerra civil. Mas, as sucessivas derrotas militares e os interesses das frações burguesas e pequeno-burguesas que estavam em sua base social o levaram . a atacar o governo títere do Iraque, e proclamar um Califado que poderia erguer um novo obstáculo aos objetivos imperialistas, e então passar da lista de aliados dos EUA para a lista de terrorismo internacional. Para o imperialismo, o lugar que ocupa um país e sua política externa não depende da forma política de seu governo, se democrática, ditatorial ou familiar, ou menos ainda do conteúdo do programa de movimentos internos e externos, desde que esteja a seu lado e sirva a seus interesses, é um aliado; se passar a obstaculizar seus negócios de qualquer forma, passa para a lista de ditaduras e terroristas.

Por isso, o mesmo Assad, que antes da guerra civil era chamado pelo imperialismo de “Leão da Síria”, sobretudo, por suas posições de não apoiar circunstancialmente organizações palestinas e servir de contrapeso às pretensões das organizações libanesas que combatiam pela libertação da ocupação síria desse país, passa ser um ditador sanguinário, quando a Síria se alia à Rússia e favorece as movimentações do Irã e suas milícias em seu território.

Assad somente poderia ser derrubado pelo levante das massas sírias. Mas não foi isso o que se passou. A ofensiva das milícias acontecia sob impulso dos sionistas e da Turquia, e não de um novo levante das massas. Todos os meios de comunicação mostraram claramente que Assad entregou o poder e ganhou seu refúgio na Rússia. Isto, um dia depois da reunião de negociação entre Rússia, Irã e Turquia, onde certamente se discutiram os detalhes de sua rendição. Essa imposição foi negociada pelas forças que realmente poderiam decidir seu destino. A queda do exército Sírio como castelo de cartas foi mais uma amostra disso. Rendição para um pequeno grupo islâmico, o THS, uma cisão da Al Qaeda na Síria, e adversária do Estado Islâmico – ainda que setores dele possam ter somado ao THS. Um grupo que se declarou aliado de Israel e festejado pelas potências imperialistas dos EUA, Inglaterra, França e Alemanha.

De fato, o exército Sírio se rendeu porque não tinha condições de combater. A Rússia “estranhamente” não esmagou militarmente o pequeno THS, como fez com o E. I.,. Como o governo e exército sírios não demonstraram resistência, decidiu, após bombardear algumas posições do HTS e combater junto do exército Sírio nos primeiros dias, negociar a “saída” de Assad, em troca de manter suas bases no país nas costas do Mar Mediterrâneo. A burocracia contrarrevolucionária de Putin entregou a Síria para um títere do imperialismo e do sionismo A queda de Assad e a entrega do país foi uma moeda de troca da burocracia para preservar seus interesses gerais.

Quais foram as consequências da queda de Assad?

1) Cessou o fornecimento de insumos aos palestinos de Gaza e ao Hezbollah pela Síria, fortalecendo diretamente Israel no genocídio;

2) Israel realizou em poucos dias mais de 300 ataques sobre a Síria, quando tinha feito esses mesmos 300 ataques em 11 meses anteriores. Os EUA fizeram mais 75 ataques. Os alvos eram as instalações militares do exército da Síria, para desarmá-la, e locais do Estado Islâmico e curdos, entre outros. Dessa forma, os EUA e Israel condicionaram a sucessão de Assad garantindo que o THS ficasse no poder, sem ter de enfrentar os demais grupos opositores a Assad, conforme acordado com a Rússia, Irã e Turquia;

3) Israel imediatamente ocupou e expandiu as fronteiras do Sinai, do qual prometeu não mais sair. Seus ataques militares não são respondidos, o sionismo avança sem resistência sobre a Síria;

4) abre-se a possibilidade de um processo de fragmentação territorial do país em diversos estados étnicos, religiosos ou nacionais, que se enfrentarão entre sim e, sobre eles, agirá a burguesia imperialista para impor seus interesses;

5) O novo governo da Síria, títere dos EUA e de Israel, vai bloquear a possibilidade de que o território sírio transporte produtos da Rússia e da China. Será um obstáculo ao desenvolvimento da Rota da Seda na região, e um ponto de apoio aos EUA em sua ofensiva de guerra comercial e econômica, sem falar da garantia ao imperialismo da extração petrolífera do país;

6) A Turquia ampliou sua área de patrulhamento no norte da Síria, e será um pretendente no caso da divisão territorial do país.

Em resumo: o governo russo, que articulou a saída de Assad após seu governo ser incapaz de manter o poder e controle do país, acabou entregando o país ao controle do imperialismo e do sionismo. Não houve uma revolução democrática, nem popular, que tivesse derrubado Assad com independência política, econômica e militar diante do imperialismo e do sionismo.

Conjunturalmente, em um acordo, confluíram interesses do imperialismo e da burocracia russa na resolução de um conflito, agindo cada um de acordo com seus interesses próprios, rifando a soberania e integridade territorial da Síria.

A queda de Assad constituiu uma derrota para o proletariado mundial e para o povo palestino em sua luta contra o imperialismo e o sionismo. Enfraquece conjunturalmente a resistência libanesa perante a ofensiva sionista. Odos maior  responsável por essa derrota é o governo russo, a burocracia contrarrevolucionária de Putin. O imperialismo e seus vassalos no Oriente Médio, que cercaram e bloquearam por décadas a Síria, e deflagraram uma guerra civil, visando à sua destruição, alcançaram seu objetivo, com a colaboração da burocracia herdeira do estalinismo.

As esquerdas, que abandonaram a luta anti-imperialista em toda parte e assimilaram a democracia imperialista, festejaram a queda de Assad como uma vitória da democracia sobre a ditadura. Contraditoriamente, não bateram palmas para Putin e sua burocracia, que foram responsáveis pela queda de Assad. Afinal, Putin também é uma ditadura, e não uma democracia.

Pior ainda é para os revisionistas do trotskismo, como o morenismo, porque abandonaram o programa da revolução política nos países em que persiste o predomínio da propriedade nacionalizada pelas revoluções, como a China e a Rússia, classificando esses países como “imperialistas”, tanto quanto as potências EUA, Europa e Japão. Por esse raciocínio curioso, a Rússia imperialista teria sido uma das responsáveis pela derrubada de um governo ditatorial de um país como a Síria e por sua libertação, assim como seria o imperialismo, por negociar esse processo. Para ser consequente, teria de afirmar que um país imperialista (ou o imperialismo como um todo) pode jogar um papel histórico  progressivo de emancipação nacional na época em que vivemos.

Estão a distâncias estelares dos fundamentos do trotskismo. Para o socialismo científico, as potências imperialistas só reservam à humanidade as crises, maior opressão, guerras e contrarrevoluções. Nos países atrasados e semicoloniais, o proletariado e demais oprimidos têm de lutar contra suas burguesias e o imperialismo em toda parte, e sob a estratégia da revolução e ditadura proletárias. Os países em que houve a revolução proletária estão sob governos burocráticos/ditatoriais que expropriaram o poder dos explorados e que atuam para preservar suas fontes de poder e ganhos, por isso buscam incessantemente acordos circunstanciais com o imperialismo (como demonstrou, mais uma vez, a resolução da guerra civil na Síria), que levarão à derrota e à restauração capitalista. Por isso devem ser derrubados por uma revolução política.

No caminho para a revolução socialista mundial, é preciso derrotar o imperialismo em todas as trincheiras no mundo todo. Isso não quer dizer apoiar governos burgueses, democráticos ou ditatoriais, mas colocar-se sempre ao lado desses governos e dos países atrasados quando enfrentam e são atacados  pelas potências imperialistas. Cada derrota do imperialismo em cada lugar é um passo para sua derrota definitiva pela revolução mundial socialista.


Abaixo o governo títere do imperialismo do HTS! Por um governo operário e camponês na Síria! Pela derrota total do imperialismo e do sionismo no Oriente Médio e no mundo todo!