O Internacionalista n° 23 / NOTAS INTERNACIONAIS / janeiro de 2025


Publicada no site da LIT-QI, a Declaração “Viva a vitória da revolução Síria! Nenhuma confiança no HTS! Pela formação de conselhos populares para governar o país! Fora tropas estrangeiras!”, começa afirmando que “a ditadura de Al-Assad foi derrubada por uma revolução democrática e popular”. Mas, para o marxismo, a revolução democrática caracteriza fundamentalmente por conquistar a autodeterminação e soberania nacional perante o imperialismo, por abrir caminho à reforma agrária democratizando o acesso à terra, por impulsionar a industrialização por meio da expropriação do imperialismo e a nacionalização dos grandes meios de produção, e, particularmente, por ampliar e estender as liberdades políticas e civis, sobretudo, da livre organização e manifestação do proletariado, e que caracterizam um processo que cria as condições econômicas e políticas ao desenvolvimento das forças produtivas e da organização do proletariado para lutar por sua emancipação de classe. Quanto ao caráter “popular” da revolução é determinada por expressar os interesses e necessidades das massas exploradas e oprimidas, não por se arrastar mais ou menos quantidade de pessoas ao movimento.

Parte da “revolução democrática” almejada pelos morenistas, ainda não seja do agrado deles, já foi realizada há décadas após a tomada do poder pelo pai de Bashar Al-Assad, por meio de um golpe militar nacionalista, e que abriu um processo de democratização burguesa do país, constituiu as instituições democrático-burguesas, aplicou uma reforma agrária que favoreceu os camponeses, que nacionalizou grande parte da indústria, instaurou uma rede nacional estatal de serviços sociais básicos, que elevou a cultura geral das massas e garantiu direitos civis e políticos às mulheres, etc. A derrocada desse regime – que tinha claramente degenerado após décadas no poder, por um movimento que reivindica a formação de um estado baseado na lei da sharia (teocrático), e se declarou inimigo dos direitos das mulheres, das religiões não islâmicas, e das seitas islâmicas que diferem de sua concepção, não poderia ser nunca definido como “revolução democrática” e sim como uma caricatura de contrarrevolução restauracionista, de concepções históricas obscurantistas e retrógradas (Califado).

Para funcionar, a caracterização da LIT precisa apagar a história recente da Síria e ocultar o real conteúdo do golpe militar e as conquistas democráticas (ainda que limitadas) que se alcançaram sob o regime nacionalista burguês dos Al-Assad. Como a LIT esconde deliberadamente esses fatos históricos, mas precisa “fundamentar” sua caracterização falha, recorre à enumeração de medidas conjunturais. Por isso, bastaria para os morenistas que as milícias tenham derrubado um “governo ditatorial” e que foram desmontados “dois principais pilares do regime: o exército e os 18 serviços de repressão e tortura”, para caracterizar a “revolução democrática”. Agora, suponhamos que um movimento jihadista islâmico enfrente um governo pró-imperialista democrático-burguês e o imperialismo para se autodeterminar (como no Afeganistão), sem dúvida não haveria falha em caracterizar esse movimento como a expressão da revolta progressiva da nação oprimida contra o imperialismo, ainda que deformada pelo obscurantismo e sectarismo religioso. E até se poderia caracterizar sua vitória como uma vitória das massas oprimidas para abrir caminho para sua autodeterminação e, nesse estrito sentido, como um avanço à luta de classes mundial. Mas, nunca haveria como caracterizá-la gratuitamente como “revolução democrática”, sem romper com a teoria e o método marxistas. Por isso, a lógica do raciocínio da LIT se sustenta apenas em aspectos formais, e não no conteúdo social e no programa das forças políticas que assumem o poder. Menos ainda importa se a ditadura derrubada representava um regime nacionalista de uma nação oprimida em choque contra a opressão imperialista. Entretanto,  esses “aspectos” eram decisivos para Lênin e Trotsky, para apoiar a nação oprimida (apesar das ditaduras) contra o imperialismo (apesar de se revestir das formas mais desenvolvidas da democracia burguesa) e as forças que serviam a esse para destruir uma nação oprimida e favorecer o imperialismo.

Ora, veja-se que para os morenistas a derrubada de uma ditadura (qualquer seja essa) é sempre uma vitória “democrática”. E por quê? Porque abre caminho para exigir “eleições livres e democráticas”, convocatória de uma Assembleia Constituinte e a formação dos “conselhos populares” que estão na base de sua estratégia eleitoral do “Governo dos Trabalhadores” surgido das eleições. Assim mesmo, exige que esses revisionistas do marxismo desfigurem e falsifiquem os processos históricos e sociais das nações, e as tendências objetivas e as reais forças em choque no cenário mundial. Somente assim podem, por exemplo, fazer responsável exclusivo o governo de Al-Assad de “submeter 90% da população à pobreza”. Nos 50 anos de regime de Al-Assad, esses índices foram constantes? Quais os índices de pobreza na Síria antes da guerra civil promovida pelo imperialismo? A crise de 2008 e, depois, o bloqueio imperialista à Síria, que consequências tiveram para economia e a vida das massas sírias? O PSTU apaga as consequências da guerra civil, do brutal bloqueio econômico, da posse ilegal dos recursos energéticos do país pelo imperialismo, e tantas outras medidas e situações que provocam a destruição da economia e afundaram as massas na miséria e pobreza. E menos ainda apresenta qualquer série de dados e estatísticas históricas para demonstrar que Al-Assad é o único responsável dos “90%” dos pobres.

O mesmo critério e método deveria aplicar à afirmação de que “Desde 2011, mais de meio milhão de sírios foram mortos pela ditadura e cerca de 200 mil estão desaparecidos no vasto sistema prisional do regime, que conta com 400 centros de detenção, tortura e extermínio”. Seria impossível pela estrutura prisional da Síria – incluída aí a “ilegal” – serem centenas de milhares os “desaparecidos” por Al-Assad. As imagens da libertação das prisões mostraram que se tratava de algumas dezenas de milhares (muitos desses presos por delitos comuns ou prisioneiros de guerra). Dezenas de “libertações” publicadas pelas mídias digitais foram encenadas (assim como “massacres” russos na Ucrânia, a exemplo de Bucha). Os mortos e deslocados são produto da guerra civil, e não apenas pela ação isolada da “ditadura”. Muitos deslocados saíram das regiões dominadas pelas milícias. Por isso, ainda que o regime de Al-Assad tenha sido responsável por inúmeras mortes e repressão, também o foram as milícias e organizações que o combateram. Sobretudo, é responsável o imperialismo, que queria destruir a Síria e impulsionou uma guerra fratricida que afundou o país na barbárie da guerra e da fome.

Não justificamos a ditadura e os crimes do regime nacionalista, mas é hipocrisia cínica da LIT-QI responsabilizá-lo por toda a barbárie. É partindo dessa premissa que esses revisionistas do marxismo podem chegar a afirmar, por exemplo, que a “revolução democrática” foi uma ofensiva de toda a população contra um regime artificial e odiado. E as minorias e religiões que estiveram na base do governo Al-Assad por décadas, e hoje são perseguidas, expulsas de seus lares e terras ou massacradas? Os curdos, uma dessas minorias, não participaram da ofensiva do fim do ano passado, mas foram por décadas serviçais do imperialismo, em seu objetivo de destroçar a soberania síria e roubar seu petróleo.

Quanto às milícias jihadistas islâmicas, hoje filiadas à HTS, muitos de seus militantes são estrangeiros e não têm qualquer relação com o desenvolvimento histórico nacional e vieram, especialmente, para combater o governo pela sua filiação religiosa e étnica, portanto, não poderiam expressar um movimento popular de base nacional. Eis porque afirmar que toda ou quase toda a população síria se revoltou contra Assad é, no mínimo, falso e hipócrita. E mais ainda agora, quando o HTS e aliados realizam uma ofensiva de torturas e assassinatos coletivos contra as minorias, sejam da base de apoio ou não do governo derrubado. Bastaria isso para que os morenistas apagassem envergonhados de seu site a seguinte afirmação: “Outra medida democrática foi o respeito pelas chamadas “minorias” confessionais: cristãos de diversas tendências, alauitas e drusos”.

É típico dos morenistas segmentar e distorcer a realidade e os fatos objetivos, para defender  suas caracterizações que não se sustentam à luz dos acontecimentos. É por isso que abstraem (enquanto puderem) as milícias de suas relações com forças econômicas e políticas externas e  contrarrevolucionárias. Os próprios “funcionários” do “Governo de Transição” declararam que querem ter “boas relações” com os genocidas sionistas, e suas milícias mostraram hostilidade com o Hezbollah, que é parte da resistência das massas oprimidas (junto dos houthis) contra o genocídio palestino e o expansionismo sionista. Daí que seja absurdo a LIT dizer que “o Estado de Israel perdeu a sua fronteira mais segura”. Soube-se ainda por ex-agentes do Mossad que Israel pretendeu chegar a um acordo com Assad para o distanciar “do regime iraniano e do Hezbollah”, com promessas de “aliviar as sanções econômicas”. Mas, Assad rejeitou essa proposta feita há meses. Nos fatos, o governo sírio deposto ainda ofereceria ao Irã e suas milícias condições para operar desde seu território, que junto da presença militar da Rússia, o ajudava a manter um certo equilíbrio na guerra civil. Não foram por acaso inequívocas as declarações do Ministro da Defesa de Israel da ajuda dos sionistas para derrubar Al-Assad e de assistência às milícias filiadas à HTS? A queda de Assad lhe permitiu roubar mais terras sírias, e permitiu à Turquia (também aos EUA e Israel) destroçar a integralidade territorial da Síria para disputar seus estilhaços. Um processo semelhante ao sírio em sua forma e conteúdo aconteceu na Líbia. Dizemos ainda de passagem que o rótulo de imperialista para a China e Rússia serve para reforçar a ideia que a “revolução democrática” aconteceu porque enfrentou a população síria contra a “opressão imperialista”.

É interessante observar que a LIT passou dos festejos pela derrocada de Al-Assad pelas milícias “democráticas” e “populares” às graves advertências da possibilidade de a “revolução democrática” ser cooptada pelo sectarismo dessas próprias milicias, e a chamam a “não ter confiança” nelas, porque descobriram que essas destroem as “liberdades já alcançadas”.  Note-se que seu triunfalismo pela “revolução” durou o pouco tempo que levou a HTS a demonstrar que pretendiam destruir as liberdades democráticas, religiosas e nacionais conquistadas durante os governos dos Al-Assad. O que para a LIT foi uma “surpresa”, não foi para o PPRI. Em nossa Declaração de 12/12/24, caracterizamos a derrubada de Assad como reacionária e um retrocesso. Como a LIT-QI falhou (de novo) em suas caracterizações apressadas e impressionistas, agora procuram acobertar seus erros dizendo que a única maneira da “revolução democrática” ser completada é com a “organização independente da classe trabalhadora e dos pobres em conselhos populares, sindicatos, associações estudantis, organizações de direitos humanos e de direitos das mulheres, entre outros”. Em síntese:como o “governo de transição” não se ajusta a suas premissas, passam a buscar “novos sinais” para manter suas caracterizações, associando uma “revolução democrática” inexistente a uma saída revolucionária que devia ser apresentada em antagonismo ao processo de derrubada de Al-Assad pelas milícias, não como sua continuidade. Em outras palavras, as massas devem derrubar o governo pró-imperialista e pró-sionista do HTS.

Para a LIT, a “revolução democrática abortada” será “concluída” por meio de eleições livres (ou seja, que lhes permitam participar, apesar de que negue esse direito a outras minorias), convocando uma Assembleia Constituinte (que será finalmente redigida pelas forças reacionárias, como sucedeu no Chile e Egito, por exemplo), respeitando e ampliando das liberdades políticas e civis (que agora estão sendo negados pelas milícias que os morenistas apoiaram na derrubada de Assad), etc. Esse “etapismo” morenista (primeiro se realiza a revolução democrática, depois se abre uma etapa transitória de um governo dos trabalhadores surgido do voto para, finalmente, chegar à revolução socialista) é comum à LIT, para acobertar seu crime de apoiar movimentos contrarrevolucionários (derrubada de governos nacionalistas que resistem ao imperialismo) e assumir, na sequência, uma posição democratizante burguesa como via de um “governo dos trabalhadores”. Em nenhum lugar do mundo, nem em qualquer processo das últimas cinco décadas, se confirmou essa teoria morenista. O que se confirmou é sua posição criminosa de apoiar derrotas das nações oprimidas para, finalmente, para de escrever sobre os acontecimentos que negaram suas pseudoteorias – como na Líbia.

A Síria, sob o governo nacionalista de Al-Assad, como a Líbia sob o governo Khadaffi,  preservava uma limitada soberania nacional. Enquanto esses regimes nacionalistas avançaram na nacionalização de indústrias e recursos naturais, limitadas reformas agrárias, etc. representaram um choque com o imperialismo. Por isso é que foram derrubados, por meio de milícias e de guerras civis internacionalizadas. Há muitas décadas que o imperialismo queria derrubar o regime sírio, líbio e iraniano. Cumpriu esse objetivo na Líbia e Síria, e agora tem melhores condições para atacar o Irã. Por isso é que Israel destruiu as capacidades militares sírias, para roubar territórios e preparar as condições de seus ataques junto dos EUA contra o regime nacionalista teocrático iraniano. Nesse processo, as limitadas conquistas democráticas e nacionais da Síria serão evaporadas, assim como aconteceu na Líbia! De forma que a vaga revolucionária para todo o Oriente Médio que almejam,  baseada no modelo sírio, como antes fizeram na Líbia, levam a mais derrotas das massas oprimidas e às vitórias imperialistas.

A vanguarda com consciência de classe deve denunciar o método, a teoria e linha políticas elaboradas por Nahuel Moreno e aplicada pelos seus herdeiros (sem a retórica dele). A posição da LIT na Síria, como foi na Líbia, é tributária da democracia burguesa e do revisionismo da teoria leninista, que defendia que nunca se deve apoiar – de forma direta ou indireta – as forças que expressam a política imperialista contra a nação oprimida, apesar de suas formas conjunturais de seu governo.