O Internacionalista n° 23 / MOVIMENTOS / janeiro de 2025


O reajuste das tarifas de ônibus em metrô em São Paulo se estendeu por toda a região metropolitana, pelo estado e em todo o país. De conjunto, configura uma expropriação dos salários, mantidos rebaixados. O salário mínimo, que foi reajustado em 7% (R$ 10 a menos do que deveria, já por conta do pacote de ajuste do arcabouço fiscal), já larga 15% mais baixo, diante dos aumentos do dólar (22%), que vão condicionar elevação de preços em toda a economia – os combustíveis já anunciaram aumentos, que se refletirão nos supermercados. Dessa forma, todos os preços vão subir, enquanto os salários permanecem insuficientes para alimentar uma família de 4 pessoas – segundo o DIEESE, deveriam ser de pelo menos R$ 7 mil. O ministro Haddad foi à TV e disse que o governo não pretende fazer o dólar voltar aos R$ 5, mas apenas “estabilizar” a moeda, hoje ao redor de R$ 6,20. É como se o governo promovesse uma desvalorização da moeda de forma não declarada. Trata-se de um mecanismo de redução geral do valor da força de trabalho e valorização das exportações, que assim trarão mais lucros aos exportadores – manobra usada em mais de uma vez na história brasileira, com destaque para a que Delfim Netto promoveu durante a ditadura militar, de 30% numa só tacada.

Ainda que exista um movimento geral da burguesia mundial para reduzir o valor da força de trabalho, com a precarização e destruição de direitos sociais por meio das privatizações e cortes de orçamentos, o conjunto de reajustes que está acontecendo agora em janeiro de 2025 constitui um confisco geral dos salários, em benefício do parasitismo financeiro e dos monopólios.

Tudo indica que será difícil organizar a resistência dos assalariados e de suas famílias ao aumento das tarifas. As direções das organizações de massas não indicam a organização de um movimento para resistir a esse confisco dos salários. Durante o ano de 2024, as tendências grevistas foram traídas ou sufocadas pela conciliação de classes, que se expressou na política das direções sindicais de negociarem no campo dos ataques da burguesia às massas, e desviando as lutas para as vias judicial, parlamentar e eleitoral. As traições, bloqueios à mobilização, e negociatas realizadas pelas direções, em nome do “combate à extrema direita” e defesa do governo burguês de Frente Ampla de Lula/Alckmin serviram para que todos os governos, federal, estaduais e municipais, lançassem uma série de medidas de ataques às condições de vida e trabalho das massas, favorecendo exatamente as políticas de extrema direita, que se utilizaram da democracia burguesa em decomposição para impulsionarem esses ataques.

Por isso, a situação dos movimentos sociais hoje é bem mais complicada daquela que existia em 2013, que foi o ponto alto de uma série de greves e mobilizações. As tendências de luta de 2024 foram sufocadas ou abertamente traídas, o que dificulta que as massas retomem imediatamente sua mobilização. Mas as contradições objetivas do capitalismo estão aí: mais ataques centralizados às condições de vida e trabalho vão pressionar os assalariados a irem à luta.

A possibilidade de convergir um movimento de defesa dos salários com o de redução da jornada de trabalho pode fazer com que a luta de classe se projete. A reivindicação de fim da jornada de 6X1 e adoção da 6X2 tem sido condicionada pelas direções à disputa parlamentar. Depois de um pequeno ato no final do ano de 2024, essas direções recolheram as bandeiras e foram aos gabinetes dos deputados e senadores. Esse é o caminho da derrota da reivindicação de redução de jornada sem redução salarial. A conquista somente poderá vir da luta de classes.

O movimento de 2013, que tomou as ruas até conquistar a revogação do aumento das tarifas, foi traído pela direção do MPL, que renunciou às ruas a partir disso e rechaçou a reivindicação de estatização dos transportes sob controle dos trabalhadores e da população assalariada. Depois disso, forças organizadas de direita se infiltraram no movimento e o desviaram para a disputa de desgaste eleitoral de Dilma. A bandeira da estatização delimitava as fronteiras do movimento contra a burguesia, que jamais se colocaria em defesa dessa reivindicação, que fere os interesses gerais da burguesia.

O movimento de luta contra os aumentos das tarifas tem de se erguer com as bandeiras de revogação de todos os aumentos de passagens, estatização do transporte sob controle operário, um salário mínimo vital de R$ 7 mil reais, reajustado automaticamente pela inflação medida pelos assalariados, e redução imediata da jornada de trabalho para 6X2, sem redução de salários. Essas bandeiras permitem mobilizar desde as fábricas e bairros, escolas e serviços, em uma força única de combate aos capitalistas e seus governos. É preciso também a convocação das assembleias para organizar o movimento, e também durante as manifestações, para permitir a soberania das bases sobre as direções. A democracia operária é o meio para desenvolver a luta de classes.