O Internacionalista n° 23 / janeiro de 2025

Editorial Internacional

2025 será marcado pelo agravamento da guerra comercial, dos conflitos militares e da opressão e saque sobre as nações e povos oprimidos

É urgente ajudar as massas a avançarem na luta de classes e transformarem a crise capitalista e as guerras em levante insurrecional contra as burguesias


O ano de 2025 será marcado pelo agravamento dos conflitos entre os países imperialistas e seus vassalos, de um lado, e os estados operários degenerados e seus aliados, de outro, que tem suas raízes na contradição entre as forças produtivas capitalistas, desenvolvidas sob a forma da grande propriedade privada monopolista; e as forças produtivas desenvolvidas sobre a base da economia e dos meios de produção nacionalizados pela revolução proletária. Isso foi assinalado por Lênin como o antagonismo fundamental da nossa época histórica, que se abriu com a vitória da Revolução de 1917.

Coloca-se uma tendência de desenvolvimento da guerra comercial e dos conflitos em marcha para a  guerra bélica entre essas duas forças mundiais antagônicas.  A burguesia mundial se encaminha a destruir maciçamente forças produtivas, recursos humanos e industriais, em uma escala muito superior à já realizada por meios econômicos, combinada a uma redistribuição dos mercados pela força, para manter a sobrevida do regime capitalista, que se afoga em suas próprias contradições. E a destruição das economias nacionalizadas pelas revoluções proletárias é a única garantia de uma sobrevida ao capitalismo em desagregação por um breve período, por meio de uma ampla recomposição das forças produtivas, que, neste caso, se daria sob controle do capital financeiro internacional.

As eleições nos EUA, com a vitória de Trump sobre Harris, indicou uma reorientação tática da burguesia norte-americana, que avalia ser necessário acirrar o choque contra a China pelo controle de recursos e reservas estratégicas de matérias-primas e mercados. É parte desse plano, carregar sobre as costas da burguesia europeia grande parte do desgaste militar, político, econômico e social do confronto militar direto com a Rússia. Comprometer seu rival econômico no campo imperialista a investir maiores capitais e recursos na guerra é parte do objetivo do imperialismo estadunidense, que procura  preservar seus próprios recursos para um choque com a China. Ainda que permaneçam os atritos e disputas intestinas entre a burguesia imperialista européia e norte-americana por mercados (a promessa do governo republicano de retomar e aumentar as barreiras alfandegárias e as manobras econômicas de dumping em detrimento da produção europeia), e controle de fontes de matérias-primas e recursos naturais, é a necessidade absoluta da burguesia imperialista em seu conjunto de destruir as economias nacionalizadas e os estados operários, o que permite adiar  os choques inter-imperialistas mais violentos.

A Alemanha, o coração econômico e financeiro da zona do Euro, está vendo sua economia ser destruída pelas imposições da burguesia norte-americana, de prescindir do petróleo e gás russo barato, aumentando ao mesmo tempo sua dependência das importações controladas pelos EUA. Outrora o motor industrial da Europa, continuou a retroceder (pelo 3o ano seguido), estrangulada pelos elevados custos energéticos do embargo imposto pelos EUA ao petróleo e gás russos. O crescimento previsto para 2025 mal chegará a 0,2%. A Volkswagen e a Bosch, gigantes industriais, estão a reduzir o seu negócio, e procuram deslocar parte de sua produção para fora do país, minando ainda mais as capacidades industriais da Europa em seu conjunto. O que se reflete, todavia, na queda do Euro e seu retrocesso como moeda do comércio mundial. A Europa não perdeu a soberania, cedeu-a aos EUA. A sabotagem do Nord Stream foi parte desse plano, que afundou a Europa e a empurrou a manter a guerra na Ucrânia, para achar uma saída para sua estagnação e recessão, potenciando as tendências bélicas que arrastam França, Inglaterra, Polônia e quase todos os países do bloco econômico europeu. O quadro geral na Europa é o de uma economia e política de guerra.

O dólar se encontra atingido pelo crescimento do comércio em moedas nacionais. Trump ameaçou com medidas militares, se o dólar continuar a retroceder e ameace os métodos financeiros dos que ainda dispõem os EUA para se apropriar de grande parte da mais-valia mundial, por meio de seu monopólio sobre as transações comerciais graças à imposição de sua moeda. Para os EUA, que retrocedeu no mercado mundial e se desindustrializou, o maior perigo a seu domínio mundial  é a China, que vai tomando, um após outro, os mercados e continentes que antes estavam sob o domínio (direto ou indireto) dos EUA. Essa é a base objetiva de Trump para a nova fase da guerra comercial aberta anos atrás por Obama, e que é marcada pelo crescimento exponencial das sanções e tributações aos produtos chineses. Métodos de uma guerra econômica, que toma a forma cada vez mais definida de confronto militar. O armamentismo de Taiwan e as alianças militares estabelecidas pelos EUA, visando a cercar e ameaçar militarmente o gigante chinês, prenunciam, na corrida armamentista mundial, que o objetivo principal dos EUA é destruir seu principal rival mundial, o que não poderá ser feito apenas por meios econômicos. Quanto à Rússia, sem o poder econômico exportador da China, mas com uma indústria mais integrada e desenvolvida, é uma ameaça aos interesses fundamentalmente da burguesia europeia, que precisa derrotá-la na Ucrânia para se apossar de recursos naturais e das zonas industriais do Leste ucraniano, para dar sobrevida a sua produção industrial, enquanto desembolsa investimentos na indústria militar e no financiamento da guerra.

A África se tem convertido em outro campo dessa disputa, e seus governos e países vêm refletindo esse processo. Governos nacionalistas, assentados em ditaduras militares, se aproximam da Rússia e China, que oferecem mercadorias, matérias-primas, investimentos e industrialização a baixos preços. O que abre caminho para sua maior penetração no continente, à custa do retrocesso do imperialismo. A retirada das tropas francesas e dos EUA de antigos aliados africanos, e a ascensão de governos e ditaduras nacionalistas que recorrem aos estados operários degenerados como um elemento de contrapeso ao imperialismo, marcam a extensão dos conflitos, desde a Europa e Ásia, para o continente africano.

Na América Latina, o expansionismo econômico e comercial chinês se coloca diante da resistência dos EUA, que vêm apoiando eleições ou rejeitando-as, apoiando partidos e coligações, promovendo o intervencionismo sobre as nações oprimidas ou a desestabilização de governos, a fim de ampliar seu controle sobre recursos e o parasitismo sobre os orçamentos. Estão sob disputa com a China, reservas de lítio e controle de recursos minerais, petrolíferos, aquíferos, etc. Trump ameaça tomar de assalto o controle e propriedade do Canal do Panamá, visando a reduzir os custos dos transportes e impedir seu uso por concorrentes. Ainda que esse plano colonialista não se imponha, demonstra o belicismo inerente ao governo republicano, que precisa combater e realizar uma violenta ofensiva política e econômica para expulsar a China do Continente. A permanência de tropas dos EUA no Peru, onde foi construído um gigantesco porto para escoar mercadorias e matérias-primas para a China e dela para o continente, é uma expressão a mais dessa ofensiva, que se mantém, qualquer que seja o governo de plantão na principal potência imperialista. O governo Milei é também um instrumento dessa ofensiva, entregando aos capitais norte-americanos a exploração de recursos minerais, posse de terras e uma completa submissão ao FMI. O México está sob a mira de Trump, que aprofundará a expulsão dos imigrantes que passam pelo país para os EUA. É objetivo do republicano fazer com que México arque com os custos políticos e econômicos dessa política chauvinista. O desconhecimento das eleições na Venezuela e o apoio a um governo títere são parte do intervencionismo norte-americano, ainda que sob diferentes métodos, no quadro geral dos conflitos e choques crescentes com a China e Rússia, que têm interesses e investimentos na exploração do petróleo venezuelano e do lítio boliviano, e ameaçam os interesses dos monopólios e do capital financeiro. 

A queda de Assad foi orquestrada em comum acordo entre Rússia, Turquia e os governos árabes. Entregou-se um país a seu desmembramento, em benefício dos interesses reacionários da burocracia russa, do sionismo e dos governos árabes. A “negociação” que levou à entrega do poder por Assad ajuda o desenvolvimento do genocídio e limpeza étnica dos palestinos pelo sionismo, enclave imperialista que serve aos EUA, para redefinir as fronteiras nacionais e submeter governos da região a suas imposições. O holocausto palestino, a destruição da Síria e os ataques aos houthis destroem as bases materiais e as vias de abastecimento dos movimentos que ainda resistem ao imperialismo. É parte desse processo, criar as condições de uma guerra contra o Irã e, assim, aumentar o controle imperialista sobre todo Oriente Médio e, ao mesmo tempo, impulsionar o cerco militar sobre as fronteiras nacionais dos Estados Operários degenerados. Apossar-se de territórios ricos em recursos (gás na Palestina, oleodutos para transporte de gás para Europa e os EUA, etc.) e cortar rotas de abastecimento e exportações da China, são medidas que se encadeiam para abrir caminho ao choque aberto entre o imperialismo e os estados operários degenerados.

Os governos burocráticos são forçados a resistir, na medida em que lhe exigem seus interesses de casta. Isso explica a série de acordos “estratégicos” entre Rússia, China, Coreia do Norte e o próprio Irã, de compartilhar recursos e tecnologia, visando a erguer uma mínima estrutura comum de comércio e relações econômicas, políticas e militares, que reforcem suas capacidades de defesa e resistência perante um conflito armado com o imperialismo sobre suas fronteiras nacionais. Não se trata de uma posição ideológica, e sim de uma imposição. Desde que a burocracia expropriou o proletariado que fez a revolução, e tomou posse do controle das alavancas das economias nacionalizadas para defender seus interesses de casta, a burocracia reage empiricamente à ameaça da destruição da fonte material de seus ganhos e poder político. Não se apagam as contradições e interesses nacionais dessas, mas são obrigadas a negociar esses interesses no momento em que o imperialismo as ameaça de destruição e derrubada.

As burocracias sempre procuram um acordo com o imperialismo. Eis porque, apesar de se reunirem em um bloco oportunista para sua defesa, ainda se opõem à internacionalização das lutas das massas por sua emancipação, como o prova sua negativa em apoiar a luta da resistência palestina e libanesa, pela derrota total do imperialismo e do sionismo. O exemplo da Síria soma-se ao do Iraque e Líbia, das nações que foram trucidadas pelas traições das burocracias e pelo intervencionismo imperialista. Diariamente, são negociados o sangue palestino, e suas terras e recursos, quando as burocracias se negam a armar e apoiar a resistência palestina. O mesmo se passa com a soberania e integridade territorial do Líbano e do Iêmen. Se, por um lado, o regime nacionalista teocrático iraniano é um ponto de apoio dos movimentos que lutam contra o imperialismo e seus vassalos, por outro, é dependente do “acordo estratégico” com a Rússia para sobreviver. E já sabemos o que aconteceu com a Síria, quando a burocracia negociou seu governo como moeda de troca para preservar, ainda que conjunturalmente, suas bases no país, ou algo ainda não revelado.

Por baixo do choque mundial entre esses dois sistemas econômicos e regimes de propriedade antagônicos, são as massas e nações oprimidas que sofrem, trucidadas pela fome, miséria e os massacres em nome dos interesses da burguesia mundial ou das burocracias contrarrevolucionárias herdeiras do estalinismo. A base objetiva da luta de classes está na decomposição do modo de produção capitalista.

Está colocada a necessidade de o proletariado e demais oprimidos darem passos no caminho da luta revolucionária. Mas, lhes falta seu programa e estratégia nas manifestações, greves e nas lutas das nações e povos oprimidos. Essa direção só pode ser erguida e fortalecida se se ligar aos movimentos e lutas contra a burguesia, o imperialismo e também contra as burocracias reacionárias. É preciso estar na trincheira da defesa incondicional das economias nacionalizadas e dos estados operários, sem compactuar em nada com os interesses e políticas burocráticas. O Programa da Revolução política é, por isso mesmo, decisivo para defender as conquistas revolucionárias, e ajudar o proletariado a recuperar o controle sobre as economias nacionalizadas e do aparelho do estado operário e, dessa forma, se poderá inclusive dispor de recursos e apoio técnico à luta das massas e nações oprimidas de todo o mundo. É preciso transformar cada luta das massas em um episódio da luta contra a burguesia, impulsionando a unidade dos explorados e oprimidos sob um programa próprio e defendendo suas reivindicações com os métodos da ação direta coletiva das massas. Trata-se de combinar a luta pela derrota do imperialismo à luta pelas reivindicações mais sentidas e comuns dos explorados. Nesse percurso, se forjará a direção revolucionária que luta pela estratégia da revolução e ditadura proletárias.