
O Internacionalista n° 25 / março de 2025
Editorial
Popularidade do governo de frente ampla despenca, puxado pela alta dos preços dos alimentos – que os sindicatos defendam o poder de compra, organizando a luta pelo salário mínimo necessário para viver!
Pesquisa Datafolha, divulgada no dia 12 de fevereiro, mostrou uma queda drástica na popularidade do governo Lula/Alckmin: apenas 24% dos eleitores aprovam o governo, enquanto 41% o reprovam. Na pesquisa anterior da Datafolha, de dezembro de 2024, a aprovação era de 35% e a reprovação de 34%.
Trata-se do pior nível de aprovação e do maior índice de reprovação de todos os três mandatos de Lula. A queda significativa na popularidade ocorreu em todas as faixas/critérios considerados (gênero, renda, região, religião, formação, etc.).
Como já apontado no Jornal O Internacionalista anterior, a explicação fundamental para o tombo na popularidade do governo está no aumento expressivo dos preços dos alimentos. Enquanto a inflação oficial do governo, o IPCA, marcou 4,83% em 2024, dados divulgados pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras) indicam que a cesta de alimentos básicos teve aumento de 14,22% em 2024. Nos meses de janeiro e fevereiro de 2025, esses preços continuaram aumentando. O café torrado está com uma alta de 50% nos últimos 12 meses. O preço do ovo aumentou 40% em fevereiro, puxado pelo aumento do preço do milho (30%, desde julho de 2024) e pela maior procura diante do aumento expressivo da carne.
Diante da queda de 11% na popularidade, nas semanas seguintes à divulgação da pesquisa, o governo divulgou algumas medidas pretensamente “populares”, como a liberação do FGTS para os trabalhadores que foram demitidos sem justa causa, e haviam feito a opção pela modalidade “saque-aniversário” (liberando R$ 12 bilhões), a gratuidade de todos os medicamentos da Farmácia Popular, e o programa Pé-de-Meia (após liberação do TCU) para os estudantes do ensino médio das redes públicas. Embora não tenham sido anunciados os valores desembolsados pelo governo federal para alguns dos projetos, sabe-se que não serão significativos, para não ferir o esforço central do governo de cumprir as regras do Arcabouço Fiscal. Neste sentido, o Ministro do Desenvolvimento, Wellington Dias, que informou à mídia que o governo estava estudando um reajuste no Bolsa Família (sem reajuste há dois anos), para responder ao problema do aumentos dos preços dos alimentos, voltou a essa mesma mídia poucos dias depois, para informar que não haveria reajuste e que, pelo contrário, o governo faria um pente fino no programa para reduzir o custo do programa em R$ 4 bilhões (em 2024, foram gastos com o Bolsa Família R$ 168 bilhões, e a meta para 2025 é reduzir para R$ 164 bilhões).
Incapacidade do governo para controlar os preços dos alimentos
O Governo, por sua política pró-imperialista e pelo caráter atrasado e semicolonial do país, é incapaz de controlar os preços dos alimentos.
Não controla, por exemplo, os preços dos combustíveis, já que mantém a política pró-acionistas de Preço de Paridade de Importação (PPI), como ficou evidente no aumento recente do preço do diesel. Como o transporte no país é majoritariamente feio por estradas, cada aumento do diesel tem impacto em toda a economia. A isso soma-se que o preço não é definido pelos custos de produção internos, mas pelos preços de produção impostos pelas potências imperialistas e pelos principais produtores mundiais. Há ainda as manobras monopolistas de restringir/aumentar a produção para manter os preços elevados em benefício dos lucros do parasitismo financeiro sobre o setor. Ao se negar a impor preços de produção de acordo com os custos nacionais, Lula garante lucros dos parasitas estrangeiros que sugam a renda petroleira do país, e ainda se faz também responsável pelos aumentos dos preços de produtos afetados pelos preços dolarizados do petróleo e seus derivados.
Não retomou a política de estoques reguladores por meio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que foi praticamente liquidada nos governos Temer e Bolsonaro. O próprio presidente da Conab, Edegar Pretto, reconheceu em entrevista ao jornal Brasil de Fato, em janeiro, que o governo ainda não havia retomado a política de estoques reguladores.
O próprio governo já anunciou que não fará nenhuma “intervenção” no mercado, como criação de cotas, tarifas ou impostos sobre a exportação de alimentos.
O fato concreto é que o Brasil é o maior exportador de alimentos no mundo, só que a maior parte do alimento é também commodity, que é cotada (valoriza) nas bolsas de valores, tendo seu preço estabelecido no mercado mundial (em dólar). Os grandes e médios produtores decidem o que produzir e quanto produzir, com base nos preços internacionais, sendo o governo, por defender o agronegócio e o “liberalismo”, incapaz de intervir para controlar os preços dos alimentos no mercado interno, como faz para definir os preços de produção de petróleo e gás no país. Em janeiro, o governo da Bolívia proibiu a exportação de carne, para tentar conter a alta do produto no país. O governo Lula/Alckmin, mesmo diante da gravidade da situação, é incapaz de tomar igual medida, ou mesmo estabelecer limites à exportação por meio de cotas, porque os monopólios da proteína (JBS, Marfrig, BRF, Minerva, etc.) são parte da base do governo de Frente Ampla.
Enquanto os países imperialistas liquidaram o latifúndio no processo das revoluções burguesas com a entrega de terra para os camponeses, e posteriores políticas de preço mínimo para garantir comida farta e barata (de forma a reduzir o valor do capital variável), com uma política de combate à incerteza e instabilidade, a partir de preços mínimos, subsídios, políticas de estocagem públicas, etc, os países semicoloniais, mesmo aqueles que detêm uma farta produção de alimentos, como o Brasil, sofrem com a inflação alta de alimentos, fome, etc. O latifúndio e a agroindústria, para exportarem matérias-primas em dólares, são forças econômicas e sociais que, nas semicolônias, como no Brasil, agem para manter preços mais elevados, ao tomarem terras produtivas para produção de commodities, e irem aumentando os custos de produção dos alimentos pelas terras em que estes se produzem, por estarem longe dos mercados, já que repassam o valor de créditos e preços de sementes e abonos ao preço do alimento, por meio da cotação do dólar e dos preços dos combustíveis, etc.
Política Operária
O combate contra as políticas de fome, as contrarreformas e os ataques do governo burguês de frente ampla de Lula/Alckmin às condições de vida começa com a defesa das reivindicações que abrem caminho à luta contra a burguesia e seus governos. Por isso, a política operária parte da defesa das reivindicações mais sentidas dos explorados, como a defesa dos empregos, salários e direitos, que em seu desenvolvimento pelas massas com os métodos da luta de classes e através de sua experiência prática, permitem-lhes dar passos pelo caminho de sua independência de classe, e as aproximam da estratégia revolucionária
O salário mínimo oficial, de R$ 1.518,00 (com o reajuste rebaixado para garantir o Arcabouço Fiscal) é um salário de fome, incapaz de manter uma família por um mês. Segundo o Dieese, para manter uma família de quatro pessoas em janeiro de 2025, são necessários, no mínimo, R$ 7.156,15.
É preciso também garantir o poder de compra dos salários, não permitindo que a burguesia os arroche por meio da inflação, defendendo a escala móvel dos salários, ou seja, que os reajustes ocorram regularmente de forma a garantir o poder de compra dos salários.
Para defender estas políticas e reivindicações, os assalariados e oprimidos em geral terão de combater e passar por cima das burocracias sindicais e das direções dos movimentos sociais que conciliam com o governo! Para isto, terão de lutar com independência de classe, defendendo e aplicando a democracia operária, e utilizando os métodos próprios da classe operária, a ação direta e a democracia operária (assembleias, manifestações, paralisações, greves, ocupações, etc.). A luta pela formação de oposições classistas e revolucionárias nos sindicatos, das oposições revolucionárias, permitirão dar passos no objetivo de expulsar os burocratas das organizações de massas e recuperá-las como instrumentos de frente única para a luta de classes, mas também para o fortalecimento do embrião da direção revolucionária constituída em partido revolucionário internacionalista.
