O Internacionalista n° 25 / março de 2025

Editorial Internacional

Bate boca entre Trump e Zelensky expressa uma mudança nas disputas interimperialistas, mas permanece o objetivo do imperialismo de derrotar Rússia e China


A reunião de Zelensky com Trump na Casa Branca configurou um show de horrores para o presidente fantoche da semicolônia ucraniana. Zelensky compareceu, exigindo mais armamentos e proteção. Estava previsto se assinasse a concessão de exploração de minerais ucranianos aos EUA, como exigiu o presidente estadunidense em troca do apoio já prestado nos últimos 3 anos na guerra contra a Rússia. Não lhe passou pela cabeça que a eleição de Trump não foi apenas a formalidade democrática da transição do governo de um partido a outro da burguesia, mas representava no comando da maior potência imperialista uma mudança tática das frações da burguesia estadunidense por trás de Trump, cujo objetivo é agravar a guerra comercial e aprofundar as tendências bélicas, fundamentalmente contra a China.
O presidente títere da Ucrânia já não se encaixa nos planos das relações diplomáticas que expressam essa mudança da política exterior norte-americana. Pior foi sua pretensão de exigir do chefe político da burguesia imperialista estadunidense subordinar os interesses da burguesia norte-americana ao objetivo da permanência da guerra, sabendo que a “paz” de Trump não é negociável, tampouco para a Rússia, porque lhe garante posse dos territórios ocupados. A burocracia herdeira do estalinismo sabe que nada há a confiar em promessas vazias, e exige uma “paz” que se ajuste aos seus ganhos na região. Quanto à burguesia norte-americana, continuar a guerra seria esgotar recursos que são necessários para enfrentar a China. A enxurrada de provocações e violência política desferida sobre o palhaço ucraniano demonstrou que quem dá as cartas – e decide sobre o futuro da Ucrânia – não é seu governo, mas as forças econômicas e militares que, por cima das fronteiras nacionais, determinam o rumo dos choques mundiais. No momento em que se impulsiona o militarismo imperialista e o defensismo dos estados operários degenerados, os países burgueses semicoloniais são obrigados a se apoiar em uma ou outra força social e econômica mundial para sobreviver. A Ucrânia escolheu se ajoelhar ao amo imperialista do mundo, que agora que mudou seus objetivos imediatos, exige mais favores e até retirou qualquer apoio em inteligência e novos armamentos. Foram cortadas todas as ajudas militar e financeira dos EUA à Ucrânia.
Os EUA já bateram o martelo: sem aceitar a paz russa-estadunidense, Zelensky terá de sair. Não é por acaso que exigem novas eleições na Ucrânia. Para o imperialismo norte-americano, Zelensky não serve mais a seus objetivos imediatos e, assim, os partidos ucranianos começaram a se movimentar. Nada há nada a negociar que não seja aplicar os ditames dos monopólios e do governo norte-americano. Trata-se do mesmo Trump que em seu primeiro mandato enviou o primeiro lote de armamentos para a Ucrânia para combater os movimentos autonomistas de Donbass. Porém, na situação de agravamento do avanço da China e retrocesso brutal dos EUA, continuar a guerra na Ucrânia seria um desperdício de recursos financeiros, e destruiria ainda mais equipamentos e recursos militares dos EUA, necessários para uma maior ofensiva contra a China.
As mudanças táticas dos EUA seguem as mudanças da política externa imperialista sobre os abalos da crise capitalista e do expansionismo chinês. E isso explica porque a possibilidade de um desmembramento da Ucrânia está agora objetivamente colocada. O pano histórico de fundo sobre o qual se desenrolam os fatos é a retomada da disputa entre as potências pelos mercados, e em particular pelas matérias-primas ucranianas. Daí vem a defesa da Europa de continuidade da guerra. Esse fato objetivo da realidade trouxe à superfície as profundas disputas interimperialistas que estavam momentaneamente equacionadas, ou melhor dizendo, acobertadas, por trás da unidade imperialista sob o objetivo de cercar a Rússia e abrir caminho a uma ofensiva para a destruição da propriedade nacionalizada pela revolução, derrubando a burocracia herdeira do estalinismo, e assim reconstruir as forças produtivas capitalistas. Uma possível desagregação territorial da Ucrânia seria ainda uma consequência dos choques entre os países imperialistas e os Estados Operários degenerados.
A mudança tática dos EUA levou ao desespero na burguesia imperialista europeia que se mostra incapaz de continuar a guerra contra Rússia sem apoio militar e financeiro daqueles. O recém eleito chanceler alemão, Merz, assim como os presidentes francês e inglês, correram a convocar Zelensky para uma reunião na Inglaterra, orientada a declarar que estariam dispostos a garantir a “segurança” da Ucrânia. Isto é, a Europa está disposta a continuar a guerra. Macron afirmou que concordaram em rejeitar “a paz a qualquer custo”, defendendo a Europa com suas armas nucleares, e que pretendiam impor uma “trégua” que incluísse a suspensão das operações por mar e ar, assim como de ataques à infraestrutura de energia. Ficariam de fora da “paz” as operações terrestres. Trata-se de uma exigência que a Rússia (que domina de forma incontestável) pare “voluntariamente” sua ofensiva vitoriosa, e permita que a Ucrânia se rearme. O Kremlin rejeitou a proposta, e alertou que continuará os ataques e os estenderá às “forças de paz” europeias.
A taxa de crescimento econômico na Europa é decepcionante, e não há perspectivas de mudanças no curto prazo. O crescimento do Bloco Europeu atingirá apenas 1,7%, em 2025, segundo previsões. A França cresceu 0,6%; o Reino Unido, 0,3%; a Itália, 0,1%; e a Alemanha retrocedeu -0,4 %. A China cresceu na casa dos 4%, e a Rússia até 3,6%. Esses indicadores demonstram que a guerra tem favorecido a Rússia e enfraquecido a Europa. A baixa produtividade europeia e a insuficiência do capital acionário nos países da Europa central e oriental reforçam as tendências desagregadoras, que avolumam e projetam a desagregação econômica alemã, motor industrial do continente. Isso explica a redução em 30% dos níveis de vida da população da União Europeia/UE em seu conjunto. A Europa capitalista se empobreceu, retrocederam suas capacidades produtivas e militares, que pousam sobre uma base material incapaz de prover armas, equipamentos e munições no nível da guerra traçada na Ucrânia. A decisão de Trump de taxar em até 25% as importações da Europa e exigir da Ucrânia que entregue suas riquezas é parte da política norte-americana de impor sua “paz” e a subserviência europeia.
Parece que foge da compreensão dos governos europeus que a decisão de Trump de “congelar” sua ajuda à Ucrânia, e acertar com Rússia uma paz favorável a essa, demonstrou que nos fatos a OTAN foi derrotada. Em meio a esse processo, se desbloquearam as disputas interimperialistas que estavam equacionadas sob o governo democrata de Biden ao se rasgar (conjunturalmente) a frente imperialista na guerra contra a Rússia. A decisão de continuar a guerra (sem os EUA) somente é possível afundando as massas na miséria e pobreza, e impondo-lhes a centralização autoritária. Ou seja, abrir o caminho à destruição do que resta das democracias, à explosão da luta de classes e à ascensão do fascismo.
A situação dos Estados Unidos, economicamente, é um pouco melhor que a da Europa. Porém, essa situação só é possível de ser mantida sobre a base da transferência para os EUA dos fabulosos lucros extraídos pelos monopólios nas semicolônias e pelo aumento do parasitismo financeiro sobre as economias nacionais. Isso se explica por que as semicolônias obtiveram“taxas de crescimento” mais elevadas, mas sobre a base de um retrocesso dos salários reais, destruição de direitos, contrarreformas e aumento da dívida pública, que alimentam o parasitismo da burguesia imperialista. Nos EUA, se mantém a tendência de desindustrialização e de atraso tecnológico-produtivo, apesar das “taxas” de seu crescimento, enquanto a China realiza sua expansão a uma taxa mais elevada e se transforma na fábrica mundial, dominando quase todas as tecnologias consideradas de ponta, e em meio a um desenvolvimento de suas forças produtivas. Seu superávit de um trilhão de dólares é comparável aos rombos do capital financeiro dos EUA que não têm como ser aplicados na produção. Enquanto os Estados Unidos fecham suas fronteiras, com medidas protecionistas, a China tenta abri-las para inundar os mercados com seus produtos de alto valor agregado e mais baratos, que assinalam que, na concorrência pela maior produtividade, qualidade e barateamento dos produtos e mercadorias, a propriedade nacionalizada ainda não esgotou todas suas tendências internas progressivas, ainda que sufocada pelo parasitismo da casta burocrática. A estagnação nos EUA se configura em uma doença crônica e empurra a burguesia imperialista a enfrentar seu principal concorrente mundial.
O essencial da política proletária é compreender que o “agravamento dos conflitos entre os países imperialistas e seus vassalos, de um lado, e os estados operários degenerados e seus aliados, de outro, que tem suas raízes na contradição entre as forças produtivas capitalistas, desenvolvidas sob a forma da grande propriedade privada monopolista; e as forças produtivas desenvolvidas sobre a base da economia e dos meios de produção nacionalizados pela revolução proletária” (OI 23, de janeiro de 2025). O governo Trump, e os da Europa capitalista, projetam as tendências bélicas objetivando a destruição maciça de forças produtivas, fundamentalmente, das economias nacionalizadas pelas revoluções.
A política e tática leninistas de transformar as guerras e intervencionismo imperialistas contra os estados operários e os países oprimidos em guerra civil contra a burguesia nos países capitalistas, seguem mais vigentes do que nunca. Combinar a luta pela derrota do imperialismo à luta pelas reivindicações mais sentidas dos explorados e a via para transformar o curso da crise, das guerras e contrarrevoluções em novas revoluções proletárias. Mas, para isso, é necessário reconstruir a direção mundial revolucionária do proletariado sob o programa da revolução social nos países capitalistas, e da revolução política nos estados operários degenerados, defendendo incondicionalmente as economias nacionalizadas e os estados operários, sem compactuar em nada com os interesses das burocracias.