O Internacionalista n° 25 / NOTAS INTERNACIONAIS / março de 2025


A eleição antecipada na Alemanha foi resultado da renúncia dos Ministros de Fazenda, Transportes e Educação em novembro de 2024. O “voto de desconfiança” contra o chanceler Olaf Scholz no Bundestag (Parlamento), finalmente, abriu caminho para as eleições antecipadas, previstas anteriormente para outubro de 2025. 85% do eleitorado se apresentou para votar: o índice mais elevado, desde a “reunificação” do país, há 35 anos.
Os democratas-cristãos da CDU/CSU (direita) foram a primeira força, obtendo 28,6% dos votos, conquistando 268 deputados. Alternativa para Alemanha (AfD), da extrema direita, obteve o segundo lugar com 20,8% (152 deputados). O Partido Social Democrata (SPD), do ex-chanceler Olaf Scholz, 16,4%: o pior resultado da legenda desde 1987, obtendo apenas 120 cadeiras no Bundestag. O Partido Verde/PV, 11,6% (85 cadeiras). O partido Die Linke (A Esquerda), 8,8%, entrando no Bundestag com 64 deputados. A legenda Aliança Sahra Wagenknecht/BSW (ruptura de Die Linke) ficou com 4,97%, e os Democratas Livres (FDP), ex-aliados do governo Scholz, 4,9%, ficando sem deputados, ao não superarem a cláusula de barreira de 5% dos votos.
A aliança CDU/CSU recorrerá à SPD e aos Verdes para indicar Friedrich Merz para chanceler. Ou seja, irá se apoiar sobre a mesma aliança que desagregou sob os impactos das crises econômica e política.


Contradições inter-imperialistas condicionam a política do novo governo

As eleições realizaram-se depois da 61° Conferência de Segurança de Munique, que marcou uma mudança nas relações entre os imperialismos norte-americano e europeu. Nela, caiu como balde de água fria a afirmação dos EUA que deixariam de apoiar a Ucrânia, bem como a acusação de seu vice-presidente, Vance, que as “ameaças internas” à Europa provinham do cancelamento de eleições e tentativas de cassação de partidos. Referia-se ao objetivo dos partidos social-democrata e social-cristão de tentar cassar judicialmente a participação da AfD, que Trump e Vance apoiaram abertamente.
Trump foi obrigado a felicitar Merz, mas logo afirmou que continuará com a guerra comercial travada contra a indústria europeia. Seu objetivo é o de subordinar a Europa à divisão dos mercados pretendida pelos EUA em seu proveito, ora elevando as taxações alfandegárias, ora subordinando nos acordos de exploração das riquezas, como na Ucrânia. A “paz” acordada entre EUA e a Rússia levou os presidentes da França, Alemanha, Polônia, Itália e outros países a convocarem uma reunião em Paris, para avaliar como enviar forças militares à Ucrânia – sem apoio dos EUA. Merz, ainda candidato, afirmou que iria fornecer mísseis de longo alcance, para atingir alvos no interior da Rússia. Essa bravata do futuro chanceler foi ao encontro da bravata dos governos reunidos em Paris, declamando a “independência” dos EUA. Mas, não há como contestar o domínio norte-americano no momento em que a economia da UE beira a recessão, e é incapaz de carregar o fardo da guerra na Ucrânia sozinha. Trump o sabe muito bem, e é por isso que recorre às ameaças da guerra comercial, que tende a afundar a Europa ainda mais na recessão.


Reformas dos orçamentos europeus em benefício do belicismo imperialista

Antes das eleições, a CE aprovou a “simplificação” de 50 programas de apoio ao “desenvolvimento” social e produtivo, os reunindo em apenas três fundos. O objetivo é limitar e recortar os orçamentos para saúde, moradia, educação, transporte, infraestrutura, salários, aposentadorias, Investigação e Desenvolvimento (I&D) etc., quando sejam “ultrapassados” os limites dos déficit e dívida fixados pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento. Entretanto, o investimento em armas, munições e equipamentos militares estão fora deste teto, podendo ultrapassar esse limite, para o qual se aprovarão regulamentações especiais.
A “reforma do orçamento” europeu é ditada pelos interesses dos monopólios e do capital financeiro europeus, que lucram bilhões com a guerra e destruição na Ucrânia. Mas, também é uma saída para a queda da taxa dos lucros e da produtividade da indústria europeia perante seus concorrentes, fundamentalmente a China. Eis porque Merz se colocou como primeira tarefa de seu governo discutir no Bundestag a necessidade de aprovar a declaração da Situação de Emergência. Trata-se de um mecanismo constitucional que faculta ao executivo a possibilidade de desrespeitar a Lei Fundamental (Constituição), que limita o endividamento a 3 % do PIB nacional: a proposta é aumentar para até 5% o financiamento da OTAN. A declaração de “emergência” permitiria ainda que o governo alavancasse a emissão monetária e reajustasse seu orçamento, sem ter de passar pela aprovação do Parlamento.


As “reformas” levam à centralização autoritária e à repressão

As “reformas” da UE e Alemanha não podem ser aplicadas sem rasgar os entraves legais que proíbem os governos de se endividarem, e facilitarão o aumento das despesas militares, deslocando bilhões de euros do pagamento da dívida do bloco (20% do total dos gastos do Bloco Europeu), dos subsídios à produção agrícola (um terço do orçamento europeu) e do “desenvolvimento” econômico e social dos países mais pobres do bloco (mais um terço do orçamento). É parte das “reformas” a revisão da Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados (Convenção de Genebra de 1951). A primeira medida a ser “suspensa” será a proibição de devolução de refugiados ao país onde existe perigo para suas vidas.
O “novo governo” alemão propôs alterar as leis que proíbem a expulsão sumária de imigrantes/asilados e o fechamento de fronteiras, visando a “poupar” bilhões de euros em subsídios sociais para a manutenção de imigrantes e asilados. Essa é uma reivindicação reacionária de setores da pequena burguesia e dos assalariados que veem cair suas condições de existência social, e culpam os estrangeiros e imigrantes, por serem concorrentes pelos empregos e benefícios estatais. É hipocrisia de Merz afirmar que se propõe a “barrar” a ultradireita e tomar emprestada dessa o seu programa contra os imigrantes e estrangeiros. Merz se apoiará ainda na legislação de Scholz, que criminaliza as lutas e movimentos. Seu governo será de continuidade e de agravamento das tendências fascistizantes.


Convulsões democratizantes e fascistizantes da pequena burguesia

Aconteceram manifestações massivas contra a AfD antes das eleições. Centenas de milhares se mobilizaram, exigindo a cassação dos direitos políticos da legenda, e que serviram de base de manobra para os partidos social-democrata, social-cristão, verde e liberal para se negarem a fazer qualquer aliança com a AfD para governar. Mas, ainda assim, não houve como impedir seu crescimento exponencial.
Ocorre que a mesma desagregação da base econômica que impulsiona um setor da pequena burguesia a se aferrar a suas ilusões democráticas, impulsiona outra fração a procurar a solução de sua situação miserável nas medidas fascistizantes e antidemocráticas. É o que se verifica nos estados que faziam parte da RDA (chamada de “Alemanha Oriental”), que votaram em massa pela AfD. Em sua época, a RDA garantiu pleno emprego, salários adequados às necessidades (ainda que rebaixadas) e acesso gratuito à educação e saúde em todos os níveis. A “reunificação capitalista” liquidou essas conquistas e transformou os assalariados da Alemanha “oriental” nos piores pagos do país, e sua pequena burguesia ficou arruinada. Sem sua direção revolucionária e diante das traições do estalinismo, a perda de suas anteriores condições de vida se expressaram em revolta reacionária, enchendo a ultradireita de votos .
A recente reunião na Espanha de partidos ultradireitistas que exigem a “refundação da Europa” sob o lema “Make Europe Great Again” (Tornar a Europa Grande Novamente), cópia de “Make America Great Again” de Trump, é também um sintoma dessa situação. . Os chamados “Patriotas pela Europa” se servem da via eleitoral e da democracia formal para canalizar e expressar as tendências fascistizantes de setores da burguesia e da pequena burguesia. Em relação às anteriores eleições, a CDU/CSU cresceu 4,8%, enquanto a AfD 9,6%, e Die Linke, 3,6%. O SPD caiu -9,5%, o PV -1,8% e a FDP -6,6%. As perdas de votantes de social-democratas e liberais abonaram o crescimento da CDU/CSU, mas sobretudo da AfD.


Die Linke: a “muleta esquerda” do convalescente capitalismo

A esquerda centrista e reformista europeia celebra a entrada da legenda Die Linke no Bundestag. Nascida do extinto Partido Comunista da Alemanha Oriental, seu crescimento de 2025 teve por base do eleitorado mais jovem e o apoio do distrito operário Neukollin, em Berlim, berço do “espartaquismo luxemburguista” (em referência à Liga Espártaco fundada pela revolucionária Rosa Luxemburgo), e povoado por imigrantes. Porém, sua campanha e programa estão muito longe dessas raízes. Um histórico oportunista marca esse partido, que integrou governos estaduais (na Turíngia), expulsou militantes pró-palestinos de suas fileiras, e aprovou orçamentos militares em favor da OTAN.
Entre o programa da Die Linke e sua base eleitoral, há um abismo que será aprofundado quando for colocada no Bundestag a aprovação do aumento do orçamento militar. O mais provável é que os “neo-espartaquistas” reneguem mais uma vez do legado de Karl Liebknecht (que votou contra os créditos de guerra do imperialismo alemão, em 1914) e, assim, se abra uma via para a radicalização política dos setores operários e da classe média que participam de sua base de apoio, podendo evoluir para uma posição revolucionária, se confluir no cenário com uma direção proletária. Entretanto, sua ausência na situação acabará aumentando a decomposição capitalista e da própria esquerda, beneficiando ainda mais a AfD.


O “novo governo” nascerá em crise e voltado a atacar as massas

A CDU/CSU e aliados prometem manter a política fracassada do governo anterior, ampliando os ataques aos direitos, salários e subsídios sociais. Prometem ainda alavancar o militarismo alemão e europeu em defesa das “democracias”, contra as ameaças do “imperialismo russo”. A verdade é que a militarização é uma via traçada pela burguesia do continente em face das tendências recessivas. A Alemanha, assim como a Europa, está em piores condições do que nas últimas três décadas, para concorrer nos mercados e se “independizar” dos EUA, na esfera da segurança militar. A saída mais prática seria, portanto, se submeter ainda mais aos EUA, e capitular perante a Rússia, para assim ter acesso à energia mais barata e, conjunturalmente, reavivar sua produção industrial em queda.
Qualquer que seja a saída ensaiada para sua política exterior (manter a guerra na Ucrânia ou se submeter à “paz” imposta por Rússia e Trump), a burguesia alemã tem por única saída no país atacar mais duramente às massas, para manter seus lucros, e assim não se arriscar a travar uma luta aberta contra EUA ou Rússia, quando ainda não conta nem com condições econômicas nem políticas. Entretanto, aumentar a exploração e destruição de direitos e salários dos explorados significará reforçar o Estado policial, a repressão e a centralização autoritária. Ou seja, alavancar a luta de classes, que pode radicalizar os operários e a pequeno-burguesia empobrecida a abrirem uma via de uma crise pré-revolucionária do regime político.


Decomposição capitalista e seus reflexos nas massas

As exportações alemãs se reduziram, apesar da retomada do comércio mundial após a retração da Pandemia. As montadoras de veículos, coração industrial da economia alemã, estão em crise e são noticiadas novas demissões e cortes na produção a cada mês , além de fechamentos e deslocamentos de indústrias para o exterior. A mais recente vítima dessa situação de bancarrota capitalista foi a fornecedora alemã de peças para automóveis Continental, que planeja cortar mais de 10 mil empregos. Haverá ainda 480 cortes de empregos na subsidiária de software da Continental, a Elektrobit, 330 deles na Alemanha. A Volkswagen demitirá até 25 mil funcionários, e fechará sua fábrica em Nuremberg. A gigante química BASF se acha na mesma situação. Mais de 30 mil pequenas e médias empresas foram fechadas, e nunca mais reabriram. Nesse quadro de retrocesso, estagnação e desindustrialização, a taxa de lucros da burguesia estagnou, em meio à guerra da Ucrânia e a concorrência da China. A guerra comercial com os EUA projetará esses índices desagregadores para os próximos dez anos: avalia-se em mais de 300 mil os empregos ameaçados pela elevação dos preços dos produtos das barreiras alfandegárias norte-americanas.
O consumo popular caiu, na mesma medida em que se alavancaram os lucros parasitários da indústria militar com a guerra na Ucrânia. Os salários reais se encontram abaixo dos valores de 2019, como acontece também na França, Itália, Inglaterra, etc. Os cortes orçamentários na saúde e benefícios sociais destroem as condições de vida do setor dos assalariados terceirizados e dos desempregados. A inflação está em 7%: a mais elevada desde a “reunificação” alemã. São essas condições que impulsionaram importantes greves dos operários metalúrgicos, dos transportes e dos serviços nos anos anteriores. Manifestações permanentes e massivas contra o genocídio palestino continuam assombrando a burguesia.
Também na Bélgica houve greves, a exemplo dos trabalhadores aeronáuticos em 13 de janeiro, com manifestações massivas contra a reforma das aposentadorias e pensões sociais. Estão aí as greves na Grécia contra as privatizações e os cortes na saúde e na educação. No Reino Unido, os metroviários convocaram um calendário de greves, em defesa dos salários e direitos conquistados. Na Itália, sindicatos ameaçam com greves por suas reivindicações.
São tendências instintivas das massas que lutam por abrir uma situação de luta de classes, respondendo à decomposição capitalista, abrindo uma via de choque com os governos e a burguesia. Mas, logo se chocam com o imobilismo e traições das esquerdas e direções submetidas à burguesia. Todos os partidos se colocaram contrários às manifestações e greves radicalizadas, todos eles em defesa da ordem burguesa. As direções sindicais continuam abortando as lutas e traindo suas bases. Mas, apesar desses entraves e do aumento da repressão, os explorados e oprimidos se erguem em defesa das reivindicações contra a burguesia e seus governos, e abrem assim um caminho à luta de classes.


Direitização da política burguesa e a importância da luta de classes

A situação alemã se assemelha às condições existentes na fase anterior à Segunda Guerra Mundial. Não há saída aos interesses da burguesia alemã, a não ser agravando as tendências bélicas e a disputa pelas fontes de matérias-primas. A diferença é que a burguesia imperialista do país ainda realiza suas manobras acobertada pela formalidade democrática. Mas, seu fundamento histórico persiste: a decomposição capitalista empurra a burguesia a assumir posições fascistizantes e militaristas, como no passado.
Há uma direitização de todas as frações burguesas, arrastando todos os partidos, inclusive os reformistas e centristas. Essa é a reação política e social da burguesia para proteger seus negócios em meio ao acirramento das disputas interimperialistas e a necessidade de uma nova partilha do mundo pela força. Quanto mais frágil e desagregada sua base econômica, maior a necessidade de a burguesia alemã apossar-se de recursos indispensáveis à produção e afundar na miséria os explorados. Eis porque o futuro governo Merz terá de assumir cada vez mais feições bonapartistas. Isso, no quadro de atraso do proletariado e de ausência de sua direção revolucionária, poderá fortalecer as tendências fascistizantes e reacionárias.
Como estava já colocado na pré-guerra mundial, a tarefa mais imediata da atual conjuntura é abrir um caminho à luta de classes e construir as direções revolucionárias sob o programa e estratégia proletárias, elevando a luta instintiva e reivindicatória das massas à luta política pela derrota do militarismo e a derrubada da burguesia. Trata-se ainda de avançar na unificação da luta da classe operária europeia, sob um programa unitário pela derrota da burguesia européia em seu conjunto, esmagando suas tendências fascistizantes e desenvolvendo a estratégia dos Estados Unidos Socialistas da Europa, bandeira que se ergue perante o fracasso da unidade capitalista da Europa.