O Internacionalista n° 25 / NOTAS INTERNACIONAIS / março de 2025


Na sua Declaração “O novo governo sírio começa a ser reconhecido pelo imperialismo que lhe impõe suas condições” (9/01/2025), o CERQUI caracteriza o governo deposto de Bashar al-Assad como “um governo repressivo sanguinário”, que governou “o país por mais de meio século, oprimindo as massas sírias e as nacionalidades que compõem o território”. Tratar-se-ia do mesmo governo que, “no século passado, foi um forte ponto de referência na resistência ao colonialismo, de rejeição à criação do Estado de Israel, que rejeitou as intervenções militares americanas e promoveu a unidade das nações árabes”, facilitando “a intervenção do Hezbollah no Líbano”. A Síria ocupou “uma posição destacada na resistência nacionalista à ofensiva dos EUA no Oriente Médio”, afirma o CERQUI. Apesar disso, não se deve “perder de vista o caráter capitalista e de classe do Estado e sua expressão governamental encarnada pela dinastia Assad”. É parte dessa avaliação supor que Al-Assad seria o principal responsável dos 600 mil mortos, 6,8 milhões de refugiados, 13 milhões de deslocados e 90% de pobres e miseráveis.
Com a guerra civil (2011-2024), a “sobrevivência do governo de Bashar Assad” passou a depender “do apoio da Rússia e do Irã”, países esses que, “Embora expressassem as contradições e conflitos com os Estados Unidos e aliados, limitaram-se à defesa de seus próprios interesses nacionais”. Agora, assinala o CERQUI, a Rússia procura “negociar com o novo governo os mesmos interesses econômicos e comerciais que foram garantidos em troca do apoio nos anos de confrontação com a jihad islâmica”.
Quanto ao governo da Hayat Tahrir al Sham (HTS), se o caracteriza como “dependente das forças externas” e incapaz “de reorganizar o país em novas bases econômicas e políticas decididas, apoiadas e defendidas pelas massas sírias”. E ainda que “O imperialismo celebra a queda de al-Assad”, não confia “totalmente nos vencedores que descrevia até ontem como terroristas e que procura condicionar”.
Diz ainda que a queda de Al-Assad “reabre a guerra civil internacionalizada pelo controle do país em outras proporções. Nessas condições, o novo governo não será capaz de garantir a paz enquanto se intensificam a intervenção imperialista na região e a ofensiva anexionista do Estado sionista de Israel”. De forma que se “abriu caminho para o avanço do domínio dos Estados Unidos sobre a Síria. O que vai depender … da luta revolucionária”. Assim, “A autodeterminação da Síria depende do fim da opressão de múltiplas nacionalidades, constituindo um Estado Federativo Socialista (…) trata-se de organizar um movimento revolucionário para derrotar e expulsar o imperialismo norte-americano e aliados” com a “frente única anti-imperialista, sob a direção do proletariado”. Eis como “a revolução social pode quebrar a cadeia de opressão do capital imperialista e conquistar o direito à autodeterminação (…)”.


A importância da correta caracterização de um regime de governo

Os governos do clã alauíta dos Al-Assad assumiram uma forma dinástica de características ditatoriais. Contraditoriamente, foi isso que permitiu durante “meio século” impor uma frágil divisão de poder territorial e estatal entre as nacionalidades e seitas religiosas em troca de governabilidade. A repressão contra nacionalidades e religiões em um momento dado se combinava com as concessões políticas, territoriais e econômicas para com outras nacionalidades e seitas religiosas. Sabe-se que os alauítas controlavam o comando e grande parte do exército, enquanto o controle da economia e administração territorial se distribuía entre sunitas, drusos, curdos, etc. Esse equilíbrio foi rasgado pela crise capitalista de 2008 e, sobretudo, pelo intervencionismo imperialista na guerra civil em 2011. É parte da política imperialista agravar as disputas sectárias e opor uma nacionalidade à outra, para impor seus interesses. Foi assim que o controle estatal das fontes de matérias-primas nacionais passou, em grande parte, às mãos dos EUA, quando os curdos se aliaram ao imperialismo. Não obstante, o que mais incomodava o imperialismo era que Al-Assad garantia uma via logística de rearmamento às milícias iranianas e ao Hezbollah e, fundamentalmente, sua dependência do Irã e da Rússia, o que dava a esses países vantagens em suas movimentações regionais contra o imperialismo e o sionismo.
Portanto, se se caracteriza o “meio século” do governo Al-Assad como um período em que esse constituía uma referência “na resistência ao colonialismo, de rejeição à criação do Estado de Israel”, contra “as intervenções militares americanas”, e promotor da “unidade das nações árabes”, além de um facilitador da “intervenção do Hezbollah no Líbano”, e se soma a isso seu papel no fortalecimento da influência iraniana e russa, então fica claro por que o imperialismo “celebra” sua derrubada.
Fica claro também que o conteúdo político desse governo, apesar de posteriores deformações, era nacionalista burguês. Entravou o expansionismo imperialista e serviu de base de manobras co ntraseus principais adversários no Oriente Médio. Caracterizá-lo como “capitalista” e “ditatorial” apenas indica seu conteúdo geral de classe (sua relação com a propriedade dos meios de produção) e sua forma de governo (democrática ou ditatorial). A monarquia saudita é um governo “ditatorial” e “capitalista”, assim como o é o governo teocrático iraniano. Mas, o primeiro é um vassalo do imperialismo e o segundo está em choque aberto com ele. Por isso, o decisivo no caso de governos burgueses (ou capitalistas) é qual papel cumprem nas relações políticas mundiais, na luta de classes e qual sua relação com o imperialismo. É isso, precisamente, o que não “deveria perder de vista” o CERQUI na aplicação do método leninista, que delimita a política e tática proletárias na base da distinção entre nações oprimidas e opressoras.
Na nota “Revisionismo teórico e reacionarismo político caracterizam a posição da LIT-QI sobre a Síria” publicada no OI n° 23 (janeiro de 2025), mostramos que a LIT-QI caracterizava o governo de Al-Assad como um “governo ditatorial” e que desconhecia “meio século” do regime nacionalista burguês em choque com o imperialismo. Procedia assim para festejar sua derrubada como uma vitória das massas. O CERQUI não oculta o “conteúdo” de “meio século” dos Al-Assad, mas, como os morenistas, também “apaga as consequências da guerra civil, do brutal bloqueio econômico, da posse ilegal dos recursos energéticos do país pelo imperialismo, e tantas outras medidas e situações que provocaram a destruição da economia e afundaram as massas na miséria e pobreza”, responsabilizando Al-Assad por todas as desgraças que sofreram as massas. Assim, o CERQUI conflui com os morenistas na conclusão de que a derrubada de Al-Assad poderia ser considerada, pelo menos, como um fato progressivo para as massas.


A destruição da economia síria foi resultado da guerra civil internacionalizada

Com o acirramento da crise capitalista e a ofensiva intervencionista dos EUA por todas partes, a Síria passou a ser um alvo das movimentações imperialistas. Após 13 anos de guerra civil internacionalizada pelo imperialismo, já não restava nada do desenvolvimento econômico em agricultura, indústria de transformação, extração de petróleo, comércio e serviços conquistados em “meio século” do regime Al-Assad. Foram destruídas as redes elétricas (hoje apenas 20% continua a funcionar), dos transportes e do sistema de saúde e educação. A principal fonte de rendas externas eram as exportações de petróleo e a produção agrícola. A guerra civil e a posse dos poços petrolíferos pelos invasores norte-americanos, assim como pelo Estado Islâmico e aliados (como a atual HTS), cortaram a fonte desses fundos. A desvalorização da moeda resultante desse processo alavancou a pobreza e miséria nacionais.
Em 2011, o PIB era de US$ 67,5 bilhões, mas em 2024 era de US$ 9 bilhões: a economia contraiu 85%. Segundo a ONU, a guerra civil resultou na perda de US$ 800 bilhões para o PIB em 14 anos. O país precisará, diz a ONU, de 55 anos para retornar aos níveis pré-guerra civil. Sua economia hoje é comparável à do Chade ou à dos territórios palestinos. Os índices de pobreza (33%) anteriores à guerra atingiram 90% da população. O desemprego está na casa dos 67%. A extrema pobreza atinge hoje 66%. 75% do total da população necessita ajuda humanitária, atendimento à saúde, emprego, água, energia e abrigo para sobreviver. Esse é o resultado da guerra civil impulsionada e financiada pelo imperialismo.
Como se vê, a Síria não tinha como resistir sem a ajuda militar russa e iraniana. Basta ver os indicadores de importações e exportações de 1960 a 2011 para verificar que o comércio com a Síria era insignificante para a balança de pagamentos da Rússia. Entretanto, as importações de alimentos e armas a partir da Rússia foram inestimáveis para a sobrevivência de Al-Assad. Isso não significa desconhecer sua responsabilidade pela crise, a guerra civil e mortandade. Mas, fazê-lo exclusivo responsável pela miséria, pela fome e pela barbárie é limpar a cara do imperialismo e das milícias jihadistas e curdas que lhe serviram de instrumento para colonizar militarmente riquezas e territórios, assim como do governo Putin, que em seu afã de estabelecer um acordo com o imperialismo negociou a entrega do governo do país.


O imperialismo vai “confiar” na HTS porque garantirá seus interesses mais gerais

Na Síria, a limitada industrialização e controle estatal dos recursos de petróleo e agrícolas garantiram à “ditadura”, durante “meio século”, estender os serviços de transporte, saúde e educação públicas. Além disso, a “ditadura dinástica” dos Al-Assad garantiu a ampliação de direitos civis e políticos às mulheres e das minorias, a exemplo dos curdos com sua autonomia regional. Sobretudo, como assinala o CERQUI, lhe permitiu combater o colonialismo francês (Líbano) e resistir ao imperialismo e ao sionismo. Exatamente o oposto do da HTS e aliados, que são teledirigidos a partir da Turquia e são inimigos do Hezbollah, portanto, um “aliado” de Israel. Seu governo ataca as minorias e nacionalidades de forma violenta, e sem pretender qualquer acordo de convivência. Suas forças armadas são compostas por vários estrangeiros financiados fartamente pela USAID (como foi revelado após Trump publicar suas ações) para combater os governos aliados da Rússia e da China (como milícias uzbeques, ugires, chechenos etc.).
Se a “desconfiança” a que se refere o CERQUI é pelo fato do HTS ser jihadista islâmico radicalizado, e parte de seus quadros de governo provirem de cisões do Estado Islâmico e Al-Qaeda, as medidas de seu governo mostram à burguesia imperialista, sionista e árabe que podem “confiar” nesse novo governo: 1) foram reestabelecidas as relações diplomáticas com o imperialismo, 2) estão sendo restabelecidas as vias de financiamento internacional, e investimentos foram prometidos pela União Europeia, Turquia, países árabes e os EUA; 3) o governo do HTS “aprova” a política de Trump para o Oriente Médio e o Líbano; 4) o HTS nada fará contra a permanência de Israel na Síria; 5) aprovaram a construção de bases militares da Turquia e se garantiu aos EUA sua presença no país, etc. Essas medidas rompem “meio século” nacionalista e ajudam o sionismo a colonizar territórios, e enfraquece o Hezbollah, que combateu Israel em defesa dos palestinos, portanto, enfraquecerá a resistência palestina. Assim, a “desconfiança” do imperialismo no HTS não resistirá à prova dos fatos históricos.


Os “interesses” da Rússia na Síria refletem as manobras de sua burocracia

A Rússia não fez nada para se contrapor à tomada do poder pelo HTS, porque não havia como manter Al-Assad quando o exército sírio não queria combater, e principalmente depois do acordo entre Rússia, Turquia e EUA. Negociou sua saída do país para preservar suas bases militares que lhe dão uma saída ao Mar Mediterrâneo e lhe permitem bloquear (conjunturalmente) as manobras do imperialismo para cercá-la dentro do Mar Negro. Os interesses “econômicos e comerciais” da Rússia na Síria não tinham qualquer peso na sua balança comercial. A venda de armamentos e o envio de cereais e alimentos a preços subsidiados visavam a manter a dependência de Al-Assad das manobras diplomáticas e militares do Kremlin.
Entretanto, manter Al-Assad nas condições em que o HTS e milícias avançavam sem resistência e continuar a combater as milícias significava agravar os conflitos com a Turquia, que apoia e financia o HTS (país do qual precisa para manter aberto o Bósforo à navegação dos navios russos) e sangrar valiosos recursos militares e financeiros, necessários para consolidar os ganhos atuais na Ucrânia e, assim, manter uma posição de força nas negociações de “paz” que se abriram com as ações do governo Trump. No mesmo momento da ofensiva jihadista contra Assad, fechavam-se os últimos detalhes de um acordo estratégico entre a Rússia e o Irã, que vai desde a economia até segurança e “cooperação militar contra ameaças externas”. As manobras da burocracia russa são ditadas pela preservação de seus interesses de casta atados à defesa da propriedade estatal ameaçada de destruição pelo imperialismo. E isso a leva a negociar a saída de um governo aliado e fortalecer novas posições defensivas contra o imperialismo. O CERQUI devia assinalar que sequer está garantida a permanência das bases russas na Síria, enquanto já estão já garantidas as que a Turquia criará, e as dos sionistas e dos norte-americanos.
Por isso é falso afirmar que dá no mesmo para a Rússia um governo aliado a outro, que abre caminho à expansão imperialista contra seus interesses na Ásia. Confunde-se a decisão prática de não defender um governo aliado, que não tinha como se sustentar, com interesse econômico, que era insignificante. Essa retórica serve para deixar passar de contrabando a ideia de que a Rússia agiu como um país imperialista, como fez a LIT-QI para “celebrar” a queda de Al-Assad junto ao imperialismo.


Rompendo os laços com seu passado, o CERQUI afunda no revisionismo

Em 2011, o CERQUI caracterizou que a ditadura de Khadafi colocada sob fogo do imperialismo devia ser defendida pelos revolucionários, inclusive contra as milícias que se tinham erguido em luta, mas passaram a servir de instrumento da OTAN contra a nação oprimida. Isso não significava defender a ditadura nacionalista ou sua política pró-imperialista, e sim defender a nação oprimida sob ataque intervencionista do imperialismo. Assim, sua derrubada constituiu para o CERQUI uma vitória imperialista contra uma nação oprimida – apesar da forma ditatorial de seu governo – e uma derrota da luta das massas pela sua autodeterminação nacional. Utilizando a mesma terminologia do CERQUI, na Líbia e na Síria existiam duas “ditaduras capitalistas” que, apesar de se terem aproximado do imperialismo por momentos, não se subordinavam a ele quando foram depostos. E é por isso que foram removidos pela força pelo imperialismo, o que finalmente aconteceu em ambos os países.
Na Síria, o CERQUI mantém a caracterização da “ditadura capitalista” para Al-Assad e a estratégia da revolução proletária – como fazia na Líbia. Entretanto, está ausente a caracterização sobre se a derrocada de Al-Assad é ou não uma derrota de uma nação oprimida. Outra ausência em relação à Síria é a caracterização do conteúdo de classe e do programa do HTS e aliados. Se há 14 anos essa avaliação era essencial ao CERQUI para mostrar como o levante das massas líbias acabou servindo ao imperialismo para impor seus interesses, 14 anos depois esse “método” marxista é deixado de lado.
As milícias do HTS romperam com seu passado de combate ao imperialismo, e hoje passaram a servir como instrumento de seus interesses. Está aí também o exemplo dos curdos, dos quais se valem os EUA para tomar posse de territórios por meio de bases militares – hoje garantidas pelo HTS. Está aí o “conteúdo de classe comum” entre o HTS e os curdos com o Conselho Nacional na Líbia, denunciado como pró-imperialista pelo CERQUI no passado. Agora simplesmente se faz um comentário de que não abrirá caminho à autodeterminação, nem à “paz”. É claro que não! É um governo que surge da negação da autodeterminação nacional e da continuidade da guerra civil travada pelo imperialismo e aliados.


Oscilação quanto ao leninismo em palavras; na prática, orientação política ao morenismo

Há 14 anos atrás, o CERQUI baseou sua política de defender Khaadafi partindo do fato da opressão imperialista sobre “a nação semicolonial”. Essa posição “principista” não dependia do “caráter do governo”, afirmava o CERQUI. Hoje, esse princípio foi deixado de lado, sem qualquer explicação e sem qualquer crítica aos erros das formulações anteriores. Ora, se o governo Al-Assad foi “uma expressão” da resistência árabe contra o imperialismo e o sionismo, e servia de base à luta da resistência libanesa, apesar de sua degenerescência e de acordo aos “princípios” que aplicou na Líbia, o CERQUI devia defender o governo da nação oprimida e assinalar que sua derrubada foi uma derrota das massas.
Ainda que o CERQUI não caracterize sua queda como uma “vitória” das massas como fez a LIT-QI, fica no meio do caminho, oscilando entre uma retórica leninista em palavras e uma política morenista na prática. Não se explica como “meio século” de nacionalismo-burguês foi destruído pelos mesmos Al-Assad que o ergueram. Esse mesmo método de mudar de linha e política sem qualquer explicação ou crítica foi aplicado para caracterizar que o Estado Operário degenerado na Rússia deixou de existir, e foi constituída ali uma “república burguesa”. Assim como agora não explicam o que mudou nesses mais de dez anos que se passaram para mudar sua tática e linha política, tampouco explicaram o que “falhou” na tese de Trotsky, de que a restauração na Rússia somente seria possível com a guerra civil ou a intervenção militar estrangeira. Ou qual foi o erro de Guillermo Lora que defendia que a Rússia era um estado operário degenerado?. Como fazem os morenistas, basta ao CERQUI escrever declarações sem qualquer ligação entre uma coisa e outra, libertando-se da responsabilidade de fazer uma crítica dos “erros” do passado.
O CERQUI se encaminha a destruir todas suas tradições teóricas e programáticas conquistadas em 30 anos. A Declaração sobre a Síria é mais um exemplo disso. A retórica do passado acoberta a política centrista do presente, manifestando a evolução dialética do CERQUI para o revisionismo morenista.