O Internacionalista n° 25 / NOTAS INTERNACIONAIS / março de 2025


Desde o começo de 2025, a escalada de tensões entre o governo da República Democrática do Congo (RDC) e a milícia armada M23, apoiada e financiada pelo governo de Ruanda e pelo imperialismo, vem ganhando destaque na mídia internacional. O grupo M23 deixou de atacar apenas alvos militares e pequenas cidades para tomar cidades-chave na região, como Goma (capital da província de Kivu do Norte, região rica em jazidas de minerais) em fins de janeiro e Bukavu (capital da província vizinha de Kivu do Sul), no dia 16 de fevereiro. O governo de Félix Tshisekedi, presidente do país, muito pouco ou nada pôde fazer, diante da fraqueza de suas forças armadas e diante da superioridade bélica do M23 e de Ruanda – cujas tropas invadiram a RDC e combatem junto da milícia. A preocupação central por parte da União Africana é uma escalada ainda maior do conflito, abrindo a possibilidade de um novo conflito regional aberto, como as duas últimas guerras do Congo, ocorridas na década de 1990.
Décadas de crise política levaram, de acordo com a Agência da ONU para Refugiados, ao deslocamento interno ao país de 7 milhões de pessoas, e mais 1 milhão de pessoas que buscaram asilo em países vizinhos, como Angola, Tanzânia, Burundi, entre outros.
As províncias do Leste do Congo têm longo histórico de instabilidade política e de luta por controle das vastas reservas de minérios presentes na região. Há desde forças políticas armadas por países vizinhos (M23), passando por organizações religiosas extremistas (Forças Democráticas Aliadas, ligadas ao Estado Islâmico), estando presentes até mesmo facções armadas pela burguesia de caráter gangsteril.
O solo da RDC está entre os mais ricos do mundo. Há abundantes reservas de diamantes (quarto maior produtor mundial em 2022), ouro, cobre, lítio e cobalto (estes dois últimos, imprescindíveis matérias-primas para indústria de baterias recarregáveis presentes em celulares e carros elétricos). Especificamente em relação ao cobalto, em 2022, o país foi responsável pela produção de 130 milhões de toneladas do metal, representando assim 68% da produção mundial.
Obviamente, em se tratando de África e minérios, o jogo de interesses pelas riquezas congolesas não se restringe a atores regionais, os governos e as milícias. O imperialismo europeu tem um papel relevante na instabilidade dos governos do país há décadas, na medida em que a União Europeia assina memorandos de entendimentos com Ruanda, com intuito de “mobilizar fundos para a disposição de infraestrutura requerida para o desenvolvimento de cadeias de ofertas de metais brutos”, metais esses que são contrabandeados da RDC para Ruanda a fim de que, de lá, sejam vendidos para Europa. Esses metais, justamente com lítio e cobalto, serão usados pelos europeus em sua “transição energética” na construção de baterias e painéis solares. Portanto, a ação do M23 e de outros grupos locais representa somente a manifestação mais imediata e visível de transações realizadas em favor do imperialismo, e de seu objetivo de saquear as riquezas da África em proveito dos lucros de seus monopólios.
O imperialismo estadunidense também nos oferece suas “opiniões” acerca do conflito. Instituições privadas deste país, como a Harvard Kennedy School, atribui todas as calamidades ocorridas nas minas dessa região ao “imperialismo chinês”, que seria responsável por “mais de 450 minas operadas por nacionais chinesas ilegalmente, visto que não estariam de acordo com a legislação congolesa de mineração”. A China é o maior parceiro comercial da RDC, tendo esta exportado, no ano de 2023, o valor de 14,3 bilhões de dólares para aquela, sendo metade desse valor (7,41 bilhões) cobre refinado. Portanto, a China é um parceiro-chave e imprescindível para a RDC, sendo o governo americano incapaz de conter o avanço chinês nesta parte do mundo, assim como é incapaz de deter a produção e comércio chinês em todo lugar.
As frações imperialistas dos EUA e da Europa armam e financiam o M23 para enfraquecer o Governo da RDC e tentar instaurar um governo que reverta a aproximação com a China e garanta a exploração das fontes de matérias-primas pelas multinacionais norte-americanas e europeias. O expressivo aumento nas últimas décadas das trocas comerciais (importações e exportações), investimentos diretos, empréstimos, doações, transferência de tecnologia, etc. da China e da Rússia no continente africano, permitiram que estes aumentassem a sua influência em todo o continente africano, enfraquecendo as posições do imperialismo dos EUA e Europa. Trata-se, portanto, de mais uma expressão do choque entre as potências imperialistas estagnadas com os estados operários degenerados.
Por outro lado, os governos nacionalistas burgueses que surgem nos países africanos são incapazes de realizar as tarefas democráticas pendentes (reforma agrária, soberania nacional, desenvolvimento industrial, etc.), na medida em que defendem a grande propriedade privada dos meios de produção, de um lado, e estão submetidos à ação de forças econômicas e políticas que condicionam por cima das fronteiras nacionais seu desenvolvimento, de outro. Está colocada, assim, a necessidade de que a luta pela autodeterminação nacional se realize sobre a estratégia e programa da revolução proletária nos países africanos, para expulsar de fato o imperialismo dos EUA e europeu dos seus países, romper a subordinação às manobras das burocracias chinesa e russa, que somente procuram preservar seus interesses, e avançar na construção do socialismo, que por sua própria natureza deve ser internacional!