O Internacionalista n° 26 / abril de 2025

Editorial Internacional

A decomposição capitalista da Europa arrasta para o buraco a democracia burguesa e as liberdades políticas

Estão sendo criadas as condições para a estratégia proletária dos Estados Unidos Socialistas da Europa encarnar no seio da vanguarda que começa se forjar na luta de classes


As tendências militaristas e ditatoriais se avolumam na Europa. O pano de fundo desse processo reside na decisão da burguesia imperialista europeia de contornar o agravamento da crise, continuar a guerra na Ucrânia e o genocídio palestino destruindo as condições de vida das massas, e aumentando a opressão e saque sobre os países vassalos e as nações oprimidas, o qual assume, cada vez mais, a forma de guerra bélica aberta pela conquista e manutenção de mercados e fontes de matérias-primas.
A produção de armas e o financiamento da guerra concedem elevados lucros à indústria bélica e ao capital financeiro das potências imperialistas. Mas, a tendência à queda da taxa dos lucros monopolistas é mais “veloz” que a possibilidade de resolver os gargalos provocados pela desagregação econômica europeia. O que se manifesta claramente no esgotamento dos estoques de armas que não são repostos no ritmo em que são destruídos na Ucrânia. Isso escancara a limitada capacidade industrial e reduzida base técnica para travar a guerra contra o Estado Operário degenerado russo, que, apoiado na conquista revolucionária da propriedade nacionalizada, elevou as condições de vida das massas nacionais durante a guerra, e foi capaz de triplicar e elevar a composição orgânica e técnica de suas forças produtivas – especialmente as da indústria militar. Com a retirada tática dos EUA do apoio e comando dos combates contra a Rússia, a Europa está em frangalhos para continuar a guerra, apoiada apenas em seus recursos industriais, que, somados à crônica carência de reservas estratégicas de matérias-primas e energia barata, obrigam as potências imperialistas a impulsionarem as tendências bélicas para se apossarem de recursos naturais, matérias-primas e mercados à força e, assim, manter sua atividade econômica, com o respirador artificial do saque e opressão nacionais.
São essas tendências desagregadoras que empurram a burguesia europeia a recorrer, cada vez mais, às medidas de centralização autoritária das instituições e governos europeus, e à militarização das relações políticas e sociais no continente. Por isso, os ataques cada vez mais violentos contra direitos políticos e contra as condições de vida das massas aumentaram exponencialmente durante os últimos três anos . Na França, Macron prepara novas contrarreformas para sustentar o parasitismo financeiro, que se expandiu sobre a nação com a guerra na Ucrânia. Na Inglaterra, o governo “trabalhista” de Starmer anuncia medidas de austeridade fiscal e a redução de gastos sociais para garantir o rearmamento do país e para a guerra contra a Rússia. Assim como Macron, Starmer planeja cortar bilhões de dólares em empregos e serviços sociais, apenas para duplicar os investimentos em armas e munições. A Alemanha aprovou a ruptura do teto de gastos e do equilíbrio fiscal, para aumentar a gastança em equipamento bélico. Planeja-se ainda aumentar as reservas do exército em centenas de milhares. Suécia, Dinamarca, Espanha, dentre outros países da UE, fazem campanha para preparar a população para uma guerra contra a Rússia, visando a justificar novos cortes em saúde, educação, serviços e aposentadorias, para desviar mais recursos para a indústria bélica. Isso se combina aos crescentes cortes às liberdades democráticas, visando a impor autoritariamente medidas sobre os países e a população europeia como um todo, para a mobilização da economia e da nação para a guerra. O que se reflete nas tendências dos regimes parlamentares ou presidencialistas a assumirem traços ditatoriais marcantes.
A UE recentemente aprovou uma “estratégia de segurança interna” à Europa para estender e ampliar medidas policiais e legais contra “ameaças de potências estrangeiras”, ou seja, uma política de demonização e criminalização da Rússia ou seus aliados. Essa política tem seu reflexo sobre a crescente perseguição e criminalização dos movimentos árabes e da população islâmica, sob pressão de Israel e como justificativa para continuar financiando o genocídio em Gaza, Síria, Iêmen e Líbano. A “integração” da política de segurança militar e dos organismos de inteligência nacionais é parte desse processo. Também o são as medidas intervencionistas para remover candidatos ou impor governos sobre aqueles países e governos que entram em choque com as diretrizes das potências imperialistas da Europa. Isso se verifica nas medidas tomadas pela burguesia imperialista e governo europeu para se organizarem manifestações golpistas na Eslováquia, depois do governo de Rober Fico “anunciar que não apoiaria enviar novas armas para Ucrânia ou sua integração à OTAN.” Da mesma forma agiram na Geórgia, para criar as condições de um golpe contra o governo do partido nacionalista “Sonho Georgiano … que ensaia uma limitada soberania nacional, e se nega a continuar com sanções e ataques à Rússia”. Soube-se depois que foi oferecido ao governo georgiano, apoio e financiamento em troca de “iniciar” um conflito bélico com a Rússia, proposta que foi apresentada por uma congressista do Partido Democrata dos EUA. As mobilizações organizadas pelas ONGs e embaixada europeias na Sérvia visam a pressionar Aleksandar Vucic, que resiste “a romper relações com a Rússia ou estender as sanções contra ela”. A recente prisão da presidente da região autônoma de Gaugázia (Moldávia), cuja população é favorável ao fim da guerra na Ucrânia e à reaproximação da Rússia, indicou que a Comissão Europeia não se deterá diante de nenhum preconceito democrático para impor as imposições da burguesia imperialista aos governos. O fantasma do fascismo, que destrói a democracia formal e impõe a centralização burocrático-policial à economia e força de trabalho, à serviço dos monopólios, vem tomando forma não sob governos ultradireitistas e xenófobos; e sim sob governos e partidos liberais e socialdemocratas.
A guerra na Ucrânia e o genocídio palestino tem sido muito lucrativos para o capital financeiro e monopolista, mas têm encontrado resistência massiva dos explorados. São constantes os bloqueios ao envio de armas para Israel e as greves em defesa dos salários, empregos e direitos. As tendências da luta de classe se manifestam por todo o continente, ainda que setores das massas sejam arrastadas por trás de ilusões democráticas, mas logo são traídas, quando os governos eleitos aplicam a mesma política belicista e de contrarreformas. A radicalização das lutas é respondida pela burguesia e seus agentes no governo com repressão e perseguição. Avolumam-se as leis repressivas que criminalizam protestos. Milhares de presos políticos enchem as prisões europeias todos os dias. A tendência fascistizante da política burguesa ganha corpo no gigantismo dos Estados policiais para esmagar a luta de classes. Enquanto os protestos e direitos de livre organização e manifestação das massas são restringidos ou retirados, o criminoso e genocida Netanyahu tem total liberdade para se deslocar pela Europa, apesar de ter mandado de prisão do tribunal Penal Internacional (TPI)
Os últimos acontecimentos demonstram que não há solução ao militarismo, à destruição das condições de vida das massas e ao retrocesso no desenvolvimento econômico dentro dos marcos da unidade capitalista da Europa. O estreitamento dos mercados e as inúmeras fronteiras nacionais sobre as quais se ergueu a unidade econômica capitalista está por ser destruída pelas mesmas burguesias que as ergueram, produto da visão do mundo pós-Segunda Guerra Mundial. Essas condições não abrem caminho à democratização da Europa, mas sim às tendências fascistizantes e autoritárias.
É nesse cenário convulsivo que surge como guia para a ação revolucionária da vanguarda e das massas a luta imediata pelas reivindicações e contra as contrarreformas, pelo fim da guerra na Ucrânia e do genocídio em Gaza. A “luta pelas reivindicações mais sentidas dos explorados é a via para transformar o curso da crise, das guerras e contrarrevoluções em novas revoluções proletárias”, afirmamos no Editorial Internacional do OI n° 22. Por isso, não se trata de desviar a luta de classes para “salvar” a democracia burguesa, que nada mais tem a oferecer. No quadro da decomposição das relações de produção e propriedade capitalistas, a democracia formal burguesa afunda e se destrói junto delas. Portanto, trata-se de abrir caminho à estratégia proletária sob o programa dos Estados Unidos Socialistas da Europa, que é a estratégia para transformar as lutas defensivas em ofensiva política dos explorados e oprimidos pela via da revolução e ditadura proletárias por todo o continente.