
O Internacionalista n° 26 / NOTAS INTERNACIONAIS / abril de 2025
Convergência centrista entre o PSTU e o POR
Convergência entre PSTU e POR na guerra da Ucrânia
No jornal Massas n° 785, o POR afirma que a guerra na Ucrânia é “inter-burguesa” uma vez foi concluída a restauração capitalista na Rússia, que é hoje um “estado burguês” cuja particularidade seria a de ser uma “potência regional” ou, como aprovado na XVI Congresso de 2022, uma “semicolônia com particularidades”. A particularidade dessa guerra em relação a outras “guerras de dominação”, a exemplo da Guerra do Vietnã e do Iraque, reside “em que envolve a aliança dos Estados Unidos e potências europeias contra a Rússia em torno à Ucrânia”, e que pode abrir caminho ao “confronto entre potências nucleares.” Entretanto, a vantagem econômica e militar está do lado da “aliança imperialista” caracterizada como “mais poderosa do ponto de vista econômico e militar”. Qual a política seria então defendida? Eis: “não à “paz” de Trump, e por uma paz sem anexação” para acabar a guerra, expulsar a OTAN e garantir “a autodeterminação e a unidade territorial da Ucrânia”. Eis como, diz o POR, a paz não resultará “da barganha entre Trump e Putin, cujo resultado será o de partilha e saque da Ucrânia”. Em síntese: trata-se de lutar “contra a paz imperialista” e de impor a “paz sem anexação” – com a retirada das tropas russas da Ucrânia, ou seja, vitória da OTAN.
Para o PSTU, a guerra na Ucrânia é uma guerra inter-imperialista. Assim, denuncia a “paz” de Trump por legitimar “a invasão russa e anexação dos territórios” como “pilhagem imperialista”. Quanto às particularidades da Rússia, afirma que atua “como potência imperialista regional que, nesse momento, utiliza a força para invadir um país mais fraco e impor seus interesses, como historicamente fazem os países imperialistas”. Como o POR, caracteriza que a Rússia é dominada pela “oligarquia burguesa”. Baseada nessas “premissas”, defende a continuidade da guerra para derrotar “o invasor russo” e impor a “integridade territorial e a soberania da Ucrânia”, exigindo, para isso, armas de um imperialismo contra outro imperialismo. Tratar-se-ia de estar “no campo militar de Zelensky para derrotar a agressão russa, sem prestar nenhum apoio político a este governo”. O essencial para o PSTU é que, “Desde o início da guerra, a posição correta para a esquerda é a defesa incansável da soberania, da independência e do direito à autodeterminação da Ucrânia contra a invasão e o ataque imperialista russo, denunciando ao mesmo tempo o papel nefasto do governo Zelensky e do imperialismo dos EUA e da Europa”.
Posições pró-imperialistas unificam os morenistas e poristas sob um mesmo campo retórico
O PSTU e o POR convergem na caracterização de que: a) a “paz” é uma imposição ou reflexo da “vitória” dos EUA; b) a Rússia é um país burguês que exerce a opressão nacional do mesmo modo que o imperialismo devido à “oligarquia burguesa russa”; c) a guerra é “inter-burguesa”; d) a “integralidade territorial e soberania” da Ucrânia tem por fundamento a “expulsão das tropas russas” e o “fim das anexações”; e) deve exigir-se a saída da OTAN da Ucrânia e denunciar “sua colonização” pelo imperialismo. Enquanto divergem em: f) exigir armas ao imperialismo e no apoio à chamada de “resistência ucraniana” pelo PSTU – na verdade, o exército ucraniano comandado e dirigido pela OTAN.
Ser contra a “paz” significa ser favorável à continuidade da guerra. O PSTU é claro a respeito, mas o POR se esquiva desse problema, abstraindo-se na luta revolucionária para um futuro distante. Por outro lado, a “paz sem anexação” tem por conteúdo a negação do direito à autodeterminação dos russos do leste ucraniano como nacionalidade oprimida, pela qual combateram com armas em mãos. De forma que a “integralidade territorial” que defendem tem por conteúdo caracterizar como progressiva e justa a guerra civil contra a nacionalidade russa da Ucrânia, e defender a “reunificação” em benefício do imperialismo. Não é por acaso que a “retirada das tropas russas” e o “fim das anexações” são bandeiras do imperialismo. O que somente pode acontecer com a derrota da Rússia e a vitória do imperialismo.
PSTU e POR estão subordinados à estratégia do imperialismo para a Ucrânia. Mas, no caso dos morenistas, é francamente criminoso exigir armamentos para aquele. Sua entrega à Ucrânia é parte dos “créditos de guerra”, votados nos parlamentos das potências imperialistas para continuar a guerra contra a Rússia, assim como sua ofensiva na Ásia e Oriente Médio. E isso significa apoiar objetiva e politicamente o militarismo imperialista, cujo conteúdo concreto é a opressão nacional e a barbárie social, em proveito dos monopólios. Se fossem consequentes, deveriam estar defendendo que os partidos de esquerda votem pelos “créditos de guerra” em todos os parlamentos burgueses, sobretudo, europeus.
O morenismo fere a teoria marxista, ao argumentar ser possível à Rússia ser “imperialista” sem exportar capital financeiro, que é a definição fundamental que, segundo Lênin, caracteriza o imperialismo monopolista. Sequer explicam como se processaria uma suposta “transição” da “potência regional” para a “imperialista”. Segundo Lênin, é possível o surgimento de uma nova potência imperialista à custa da destruição do “imperialismo adversário”. Então, como a Rússia usaria os “mesmos métodos” dos EUA se a Rússia ainda não é imperialista? Poderão “argumentar” que a opressão sobre a Ucrânia e as anexações “correspondem” a esse processo e, por isso, não se deve defender a Rússia. Caindo, assim, no campo das explicações imperialistas, que afirmam que a guerra é de responsabilidade russa, e não um produto da guerra civil contra o leste ucraniano e do objetivo imperialista de usar a Ucrânia para a OTAN contra a Rússia.
O POR disse que “a base econômica da restauração se encontra na dominação imperialista”. Se isso é verdade, como deveriam mostrar como é possível resistir à subordinação “total”, se a Rússia está sob “dominação” imperialista. Ou explicar como seria possível o imperialismo, que domina Rússia, combater a si próprio na Ucrânia, país que já teria sido transformado em sua base de manobras. A suposta “não subordinação total” de um país atrasado em relação ao imperialismo é a negação pelo POR do reconhecimento do elevado grau de avanço tecnológico e econômico da Rússia, que até os imperialistas já reconheceram, mas não o POR, até semanas atrás. Resistiram a essa constatação porque jogava no lixo sua teoria da Rússia “atrasada”. O que levou a outro erro: caracterizar que a paz é “imposta” por Trump, porque os EUA supostamente foram “vitoriosos”. Se se referem à imposição dos EUA à Ucrânia, tem sentido. Mas, o fato é que a “paz” não foi imposta à Rússia. Ela é que a impôs ao imperialismo, porque está vencendo no campo de batalha, e inclusive no da aplicação de tecnologia avançada na guerra, à coligação militar de 60 países – a maior da história registrada contra um país – com as maiores potências imperialistas à frente.
Importa agora compreender como a posição dos morenistas e dos poristas se aproximaram tanto que quase chegaram a se fundir uma na outra. O fundamento dessa convergência reside em que compartilham das mesmas bases e premissas teóricas e programáticas sobre o fenômeno histórico da restauração capitalista. Eis porque morenistas e poristas convergem hoje sob uma mesma linha política.
Impressionismo e oscilações da revisão antimarxista do POR de 2022
A caracterização da Rússia como “potência regional” do POR tem sua origem na invasão e, depois, da anexação por esse país de territórios ucranianos utilizando os “mesmos métodos” do imperialismo. A opressão da Rússia sobre a Ucrânia tem por conteúdo o objetivo de manter seu controle sobre as ex-Repúblicas Socialistas Soviéticas, em benefício dos interesses capitalistas da “oligarquia burguesa”. O que levaria a Rússia a se chocar com o imperialismo que quer “colonizar” a Ucrânia. Isso é o que daria seu conteúdo à “guerra inter-burguesa” de “dominação”.
Para Trotsky, a Rússia seria restaurada como burguesa apenas na condição de semicolônia. O CERQUI aprovou essa caracterização na revisão de 2022, mas percebeu que não havia como sustentá-la na prática. Daí a caracterização de “potência regional”, que também precisou de um “complemento”. Veio então na “ajuda” a explicação de que herdou da URSS seu poderio militar e nuclear. Assim, a caracterização da opressão da “potência regional” sobre a Ucrânia é colocada retoricamente para cobrir o vazio de não saber como definir a Rússia. Ora, se é certo que a Rússia é uma “potência regional” (antes a caracterizaram como “semicolônia com particularidades”, na revisão aprovada em 2022) que está em choque com o imperialismo, a invasão russa e as anexações seriam uma manobra defensiva de uma nação soberana em choque contra aquele, e o POR deveria estar do lado da Rússia. Para driblar esse obstáculo que criaram nas armadilhas de sua retórica, se recorreu a “minimizar” a participação do imperialismo na guerra e, assim, validar as bandeiras de defesa da soberania e autodeterminação.
Esse percurso de silogismos retóricos teve por objetivo servir de contraparte à real opressão imperialista, justificando-se de não apoiar ninguém na guerra por ambos os lados oprimirem uma nação oprimida. Mas, a Ucrânia sequer se preserva nominalmente como estado, e sua soberania foi vendida ao imperialismo. Hoje não passa de um enclave do imperialismo para atacar a Rússia. Na verdade, os retóricos do POR servem ao imperialismo, ao assumirem uma “distância igual” entre este e a “potência regional” que usam os mesmos métodos de rapinha. A defesa da unidade do proletariado russo, ucraniano e europeu entra em cena para servir à defesa do combate contra a Rússia e o imperialismo, ao “mesmo tempo”. Mas, combater os “dois imperialismos” ao “mesmo tempo” é a palavra de ordem do PSTU – embora na prática esteja combatendo apenas à Rússia, no campo do verdadeiro imperialismo.
O bloqueio à total convergência entre PSTU e POR reside não apenas em que o primeiro defende (e exige) se enviem armas para derrotar a Rússia, mas também no fato de que, apesar da oscilação dos morenistas para a caracterização da Rússia como “potência regional”, acaba afirmando que se trata de uma “potência imperialista”. O que leva a uma diferença na posição entre oPOR e o PSTU, fazendo que este assuma mais consequentemente cavar sua trincheira junto do imperialismo “democrático-burguês” contra o “imperialismo” baseado em uma ditadura bonapartista (assim caracterizam o governo Putin).
O POR recua de chinelos em suas “análises” sob pressão dos fatos da realidade
No editorial do Massas 734, encontram-se viradas nas explicações que jogaram no lixo aquelas defendidas até, pelo menos, um ano atrás. Por exemplo, afirma-se que “Depois de três anos de guerra, ficaram bem estabelecidos os limites de seu desenvolvimento. Ou os Estados Unidos e a sua aliança europeia lançariam a OTAN contra a Rússia, ou a Ucrânia continuaria sendo enfraquecida e caminharia para uma derrota final”. Ocorre que “A derrota da contra ofensiva planejada pelas Forças Armadas da Ucrânia e amparada pelo reforço bélico fornecido pela aliança imperialista, iniciada em 4 de junho e encerrada em 1º de dezembro de 2023, demonstrou a imensa superioridade militar e econômica da Rússia”. Portanto, a Ucrânia “não poderia vencer com suas próprias forças” sem apoio do imperialismo, uma vez que “a OTAN não seria autorizada a intervir diretamente na Ucrânia contra a Rússia”. Por outro lado, as sanções contra a “Rússia não foram capazes de quebrar sua economia, que se acha amplamente entrelaçada com países do porte da China e Índia”. É nesse marco que “Trump faz da Ucrânia uma moeda de troca com a Rússia, por meio de um acordo com Putin”. Conclusão: “a Ucrânia sai derrotada e os Estados Unidos saem vitoriosos, aproveitando-se da derrota de Zelensky, de seus generais e da oligarquia burguesa ucraniana.” E a “vitória” dos EUA seria o fundamento da imposição da “paz” de Trump.
Durante todo o ano de 2022 e 2023, a posição do POR se resumia em: 1) Rússia é uma “semicolônia com particularidades” ou uma “potência regional” onde o capital financeiro domina sua economia e ditava o curso de seu desenvolvimento; 2) Rússia é um país “atrasado” com volumosos ingressos graças à exportação de “commodities”; 3) as sanções viriam a dessangrar sua economia que dependia do mercado mundial dominado pelo imperialismo; 4) o poderio da Rússia no campo militar dependia de sua “herança” soviética, com equipamentos “velhos” e ultrapassados pelo imperialismo; 5) a prolongação da guerra na Ucrânia prejudicaria à Rússia; 6) um impasse para sua derrota total seria colocado apenas pelo fato da Rússia ser uma potência nuclear (herança soviética também); 7) a OTAN não intervinha “diretamente” na guerra, o que favorecia à Rússia em seus ganhos limitados, etc.
A realidade demostrou: 1) a integração industrial russa sobre a base das conquistas revolucionárias do proletariado, ou seja, da propriedade nacionalizada em primeiro lugar, demonstraram uma ampla capacidade de desenvolvimento e centralização, que permitiram à indústria e economia russa sobreviverem às sanções, sobretudo, graças às alianças com a China, um estado operário degenerado que sobre a base da propriedade nacionalizada pela revolução desenvolveu portentosas forças produtivas em um nível que superou ao dos EUA em declínio; 2) está aí o porquê a passagem da Rússia para a quarta economia mundial se realizou sobre bases industriais e tecnológicas conquistadas no passado pelo proletariado e alargadas nos últimos dez anos; 3) a base da indústria militar russa supera em produção em três vezes os países imperialistas, e está ampliando suas capacidades com a introdução de tecnologia que superou a dos países imperialistas, a exemplo e armas hipersônicas e drones de avançada tecnologia digital, e IA que o imperialismo ainda não conquistou; 4) a elevação das condições de vida dos russos em meio à guerra comercial e gastanças da guerra, enquanto nos países capitalistas diminui na mesma proporção, demonstram que a Rússia está muito longe de ser atrasada; 6) que a Rússia está ganhando a guerra apesar da OTAN armar com a maior quantidade de armas jamais vista em uma guerra para um país, dos trilhões de dólares em financiamento, e da OTAN comandar os ataques executadosa pelo exército ucraniano; em síntese; 7) que o imperialismo não domina, nem controla a economia russa, e que apesar do enorme peso na balança comercial das “comodities”, é sua integração industrial e suas capacidades técnicas que lhe permitiram até agora enfrentar todo o imperialismo coligado e vencer a guerra.
A Ucrânia não resistiria nem seis meses sem o imperialismo a seu lado. Durou três anos (até agora) porque o imperialismo está combatendo a Rússia sob a bandeira ucraniana. Os EUA querem a derrota estratégica da Rússia, e por isso participam ativamente na guerra. O exército ucraniano é apenas a mão de obra dessa ofensiva imperialista, ainda que tropas da OTAN combatem em Kursk e Donbass. A derrota da Ucrânia pela Rússia é, portanto, uma derrota dos EUA e da Europa imperialistas. Por isso é que a “paz” é negociada nos termos impostos pela Rússia: com anexações e sem que a Ucrânia se integre formalmente à OTAN. Falar de uma “vitória” dos EUA inexistente, enquanto se oculta a vitória real e objetiva da Rússia, serve para mascarar as falhas grosseiras das análises que obrigariam o POR a explicar porque uma Rússia “semicolonial”, atrasada e sem capacidade de enfrentar o imperialismo, acabou vencendo.
O POR mudou parte das caracterizações que defendia, mas não se vai achar nenhuma explicação dessa mudança. Há o deliberado ocultamento dos fundamentos que levaram ao erro de prognóstico. Fazer essa autocrítica obrigaria a revisar a mudança programática. O POR não quer fazer nenhuma das duas coisas. Até nisso estão copiando a máxima dos morenistas: “se errar, mude de explicação ou ajuste os fatos a suas necessidades retóricas, mas nunca se critique e nunca demonstre a fonte de seu erro”.
A “aproximação” do POR às explicações e bases teóricas do PSTU sobre Rússia explica, por outro lado, porque as críticas programáticas ao morenismo, que eram constantes sobre a situação política mundial, foram extinguindo-se das páginas do jornal Massas sobre a Ucrânia, já desde o ano da revisão.
O POR da Argentina em choque parcial contra a posição do CERQUI
No Jornal Masas n. 454, de abril de 2024, há uma matéria (que foi traduzida no Jornal n. 713 do POR/Brasil), em que o POR argentino critica uma carta elaborada pelo Encontro Memória, Verdade e Justiça. Diz que a Carta “coloca-se no terreno confuso, quando pede ‘fora as tropas russas da Ucrânia, fora a OTAN do Leste Europeu’, sem sequer mencionar o papel miserável do governo ucraniano, totalmente subserviente ao imperialismo, que organizou a guerra civil contra o Leste da Ucrânia. A Rússia deve ser defendida contra a ofensiva explícita dos EUA e da Otan, o que não significa apoio a Putin”.
A bandeira de “Fora as tropas russas da Ucrânia” não tem nada de confusa. É um desdobramento da bandeira de “por uma paz sem anexações” e tem um conteúdo abertamente pró-imperialista. O próprio CERQUI defendeu a bandeira de “Fora tropas russas da Ucrânia” do início da guerra, em fevereiro de 2022, até aproximadamente fevereiro de 2024. Depois, sem dar explicações (como é típico do centrismo), escondeu esta consigna, embora tenha continuado a defender “por uma paz sem anexações”.
O POR argentino diz que “A Rússia deve ser defendida contra a ofensiva explícita dos EUA e da Otan”, mas não faz o mais importante, fundamentar a posição. A Rússia deve ser defendida porque é um estado operário ou porque é um país semicolonial? Não há nenhuma resposta.
A defesa das anexações pelo Estado operário em Leon Trotsky e Guillermo Lora
Nas condições criadas pela guerra, que é de choque entre o imperialismo e a Rússia (entre as forças produtivas monopolistas desenvolvidas sobre a base da propriedade privada capitalista, de um lado, contra as forças produtivas desenvolvidas sobre a base da propriedade nacionalizada pelo proletariado por meio da revolução social, de outro) não há “espaço” para uma posição “independente”, isto é, para uma “terceira via”. É o conteúdo social das forças econômicas em choque que determinam, em última instância, a posição sobre a autodeterminação e integridade territorial da Ucrânia.
Trotsky afirmou que ainda para um estado operário “completamente são e revolucionário” as anexações eram possíveis (e necessárias) de serem defendidas, em defesa das conquistas do proletariado ameaçadas de destruição. Esse princípio guiou sua posição para a sovietização forçada da Geórgia, em 1921, medida que, disse, fecharia o “caminho aberto para o assalto imperialista no Cáucaso”. Ainda que a autodeterminação nacional fosse violada, “do ponto de vista da autodefesa do Estado operário rodeado de inimigos, a sovietização forçada estava justificada”. O mesmo “princípio” foi defendido por Guillermo Lora, quando o estado operário já estava profundamente degenerado. Na revista Internacionalismo n° 1 (junho de 1980, da Tendência Quarta Internacionalista/TQI), no texto “Os trotskistas perante a invasão do Afeganistão”, Lora defendeu a anexação desse país à URSS para defender o Estado Operário degenerado perante as ameaças imperialistas. Fez isso sem nunca conciliar com os interesses e métodos da burocracia estalinista. Assim como a Georgia para Trotsky, para Lora, a anexação do Afeganistão à URSS fecharia o caminho ao cerco do imperialismo sobre a URSS, e integraria o atrasado país a uma “formação econômica” superior e “historicamente progressiva”. É necessário ainda observar que as anexações do Leste ucraniano garantem a autodeterminação das nacionalidades russas esmagadas pelas forças pró-imperialistas do Oeste ucraniano a serviço da burguesia imperialista.
Defender a teoria marxista contra o revisionismo é orientar o proletariado de forma correta
No capitalismo, a “paz” é uma trégua entre guerras, porque não haverá paz sem destruir o capitalismo e avançar na transição ao socialismo. Os marxistas apoiam essa “trégua entre guerras” quando se trata de fortalecer e preservar as conquistas revolucionárias do proletariado, ou ainda quando se trata de reorganizar as forças e os movimentos que combatem pela sua libertação e autodeterminação, a exemplo do “cessar-fogo” em Gaza. Quanto à “paz” imposta pela Rússia, a defendemos na medida em que garante (conjunturalmente) o direito à autodeterminação do Leste ucraniano e preserva (conjunturalmente) a propriedade nacionalizada de sua destruição pelo imperialismo. Na guerra entre países capitalistas e estados operários, é dever dos marxistas e revolucionários, do proletariado como classe, defender suas conquistas históricas, portanto, estar ao lado do estado operário degenerado, sem apoiar a burocracia contrarrevolucionária. Em uma guerra entre potências imperialistas e países oprimidos, é dever do proletariado estar ao lado do país oprimido contra o imperialismo, porque a derrota desse favorece a luta de classe mundial. Em uma guerra inter-imperialista, a política revolucionária é a de transformá-la em guerra civil contra a própria burguesia.
A “particularidade” da guerra na Ucrânia reside em que é um produto do golpe pró-imperialista de 2014, se “desenvolveu” na guerra civil contra as nacionalidades oprimidas russas do Leste ucraniano e, finalmente, “evoluiu” para uma guerra internacionalizada dirigida pela OTAN contra a Rússia, objetivando destruir a propriedade nacionalizada, derrubar a burocracia russa e transformar o país em semicolônia do imperialismo. Nos primeiros meses da guerra, se poderia justificar o fato de especular com base em impressões superficiais. Mas, os fatos históricos dos últimos anos exigem uma análise científica e objetiva, marxista, do conteúdo do
