
O Internacionalista n° 26 / NACIONAL / abril de 2025
O governo de frente ampla burguesa de Lula é impotente para combater os ataques do imperialismo à nação oprimida
Trump escancarou o conteúdo do imperialismo de feições nacionalistas na política econômica que impulsiona seu segundo mandato. Um novo salto na guerra comercial iniciada ainda sob o governo de Barack Obama, continuada por Trump e Biden, para tentar retardar a desagregação norte-americana, à custa da deslocar os custos desta para seus concorrentes, foi dado quando Trump elevou as tarifas de aço e alumínio em 25%, o e afetou diretamente o Brasil, bem como o aumento de 25% para importações de bens e mercadorias de Alemanha, Brasil, Canadá, Coréia do Sul, Japão, México, dentre outros.
O Brasil é o segundo maior exportador de aço e alumínio para os EUA, e sua taxação extorsiva terá reflexos na elevação da taxa Selic e na inflação. Quanto a esta, segundo o Conselho Monetário Nacional (CMN), as tarifas podem acabar se refletindo em uma alta dos preços, ao serem modificados os preços de insumos e matérias-primas dessa indústria, que acabariam se estendendo a todo um setor da economia, sobretudo, na metalurgia. Portanto, nos produtos e bens manufaturados que incidem, por exemplo, nos preços de transportes, até modificar os preços de produtos com composição de aço ou alumínio (carros, caminhões, vagões etc.). Está aí porque diversos analistas burgueses coincidem em que as tarifas podem também levar a um aumento da Selic. O que significaria encarecer o crédito interno e, combinado ao encarecimento de produtos derivados de aço e alumínio, incidir para fazer retroceder o PIB. O IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), diferentemente, avalia que não haverá “grandes impactos”. Mas, alerta que os setores mais afetados seriam os provedores de materiais ferrosos, altamente integrados à produção de aço e alumínio. Nesse sentido, estima que poderá haver um aumento de até 9% nos preços de produção, enquanto existe uma tendência à sua redução em preços internacionais.
As tarifas de Trump podem resultar em perdas de até US$ 10 bilhões para o país, até 2026. O problema é que o Brasil não tem meios, nem “força industrial”, para retaliar. O vice-presidente Geraldo Alckmin declarou que o Brasil não retaliaria a taxação, porque “se fizer olho por olho, vai ficar todo mundo prejudicado”, omitindo que o Brasil não importa dos EUA produtos correspondentes, contra os quais possa impor medidas alfandegárias semelhantes, e assim “compensar” parte dos danos à economia nacional. Por outro lado, as importações dos EUA são determinantes para manter funcionando a produção interna. Se por acaso o governo se atrevesse a retaliar, se veria rapidamente afogado também pelos cortes em investimentos de capital e créditos internacionais, o que se refletiria no alargamento do percurso de desindustrialização e na perda de milhares e milhares de empregos. A declaração de Alckmin, sob a forma do “pacifismo”, tenta esconder a impotência e subserviência do governo de frente ampla. Esse é o quadro que mostra a perda da soberania de um país que entregou seus setores chaves da economia ao controle dos monopólios e do capital financeiro imperialista. Por isso é que as ameaças de Lula em recorrer à OCDE não terão qualquer efeito. Os EUA romperam com a OCDE, de forma que qualquer seja a decisão não obriga os EUA em nada, e demoraria anos para ser resolvida.
O mercado norte-americano é um dos principais consumidores de aço e alumínio processado do mundo, e fonte de lucros para inúmeras empresas e monopólios. A burguesia norte-americana é ciente disso, e utiliza as medidas alfandegárias para reunir uma crescente fatia da mais-valia mundial, por meio de medidas tributárias extorsivas, em benefício dos capitalistas nacionais. Trata-se particularmente de elevar artificialmente o valor de mercadorias importadas que nos EUA não se produzem ou, se se produzem, o fazem a valores mais elevados. No primeiro caso, trata-se de forçar a deslocar a produção para os EUA. No segundo caso, trata-se de elevar artificialmente os preços da concorrência, garantindo aos produtores internos “competitividade” internacional, e um mercado interno cativo para seus monopólios. Porém, uma violenta e rápida diminuição dos preços de produção, portanto, de aumento da massa da mais-valia arrancada do proletariado no país, somente seria possível com uma brutal redução do preço da força de trabalho e, portanto, alavancando a luta de classes. Para esse objetivo, o governo fascistizante de Trump se prepara, ao atacar e cortar violentamente as liberdades democráticas de organização e manifestação, como assinalamos em uma nota publicada neste jornal.
É certo também que, no quadro de profunda internacionalização da produção e da divisão mundial do trabalho, os concorrentes dos EUA podem recorrer ao transporte de mercadorias com empresas de bandeiras livres de impostos, a exemplo dos países considerados “paraísos fiscais”. Essa foi a via traçada pela Rússia, para exportar petróleo e gás a países da Europa, utilizando-s de transportes de países terceiros. Por isso, Trump também se orientou a intervir no Panamá, para exaurir mais recursos pelo controle dessa via logística pela qual passam 73% dos transportes de mercadorias e navios de exportação norte-americanos, e que hoje está sob controle chinês. O controle sobre o Canal do Panamá, e outros portos no mundo todo, significa influenciar sobre os preços, prazos e rotas de transporte. E também permite contar com pontos de abastecimento e deslocamento de navios de guerra.
Um outro exemplo dos objetivos estadunidenses fica nítido, quando se ameaçam taxar as exportações mexicanas para os EUA. Há indústrias no México que são de propriedade de capitais norte-americanos, se aproveitando da força de trabalho mais barata para elevar seus lucros. Nesse caso, Trump não imporia tarifas ou, quando houver, se exigiria retornar a produção aos EUA, podendo ser “retiradas” pelo governo. Como condição para retirar as tarifas para o México, Trump exige que o governo mexicano eleve as tarifas das importações e investimentos da China. Mas enquanto a China avança, cooptando mercados, os EUA retrocedem, e estes precisam de medidas para retardar esse processo histórico. Um exemplo disso é o deslocamento em favor da China da construção de navios cargueiros: um setor chave para o controle das cadeias de suprimentos e comércio mundiais. Enquanto os EUA produzem ao redor de 10 navios cargueiros por ano, a China produz 1.000. Isso explica, por exemplo, porque um dos objetivos da guerra de tarifas de Trump é arrecadar fundos para “revitalizar” a indústria da construção de navios cargueiros. Nesse sentido vem a ameaça de Trump de taxar por vários milhões de dólares os navios chineses e, por extensão, os estaleiros chineses. Outra medida é a taxação em 25% para os países que importam petróleo da Venezuela, para pressionar o chavismo a favorecer os EUA.
Recorrer à guerra comercial e medidas tributárias coercitivas contra as exportações de inúmeros países é a forma mais imediata dos EUA para tentar conter o expansionismo chinês. Isso enquanto se criam as condições para um choque bélico – se as “medidas econômicas” fracassarem. A solução para o conflito deve levar os EUA a destruir forças produtivas, e reconstruí-las sob seu controle. Disso trata o objetivo de destruir a propriedade nacionalizada pela revolução na Rússia e na China. Fica assim também explicitado o acerto de nosso prognóstico de que todos os países se veriam arrastados, de uma forma ou outra, por trás do choque entre as potências imperialistas e os Estados Operários degenerados.
As tributações extorsivas podem conjunturalmente reduzir o déficit nos EUA, repassando parte do custo aos países semicoloniais e à China. Disso tratam as tarifas extorsivas aplicadas contra o Brasil. A impotência do Brasil para enfrentar os EUA no campo da guerra comercial demonstra que o país carece de meios econômicos para enfrentá-la no terreno estabelecido por Trump. Diferentemente da China, o Brasil não conta com uma base industrial ampla e integrada, de elevada tecnificação e produtividade. Enquanto a China pode retaliar e, até vencer os EUA, o Brasil se submete.
Mas, não está nos planos do governo burguês de frente ampla pró-imperialista romper com os EUA. E por isso, mais uma vez, as massas exploradas e oprimidas pagarão pela subserviência do governo Lula àquele país. As massas pagarão com mais fome e miséria, pelo aumento dos preços dos produtos e serviços, e a força de trabalho será rebaixada, para manter “boas relações” com os EUA; ou seja, para manter o parasitismo do imperialismo sobre a nação oprimida. Daí então que a defesa da soberania e economia nacionais não pode ser assumida pela frente ampla burguesa, nem por nenhum outro governo burguês. Tampouco existe qualquer fração da burguesia nacional determinada a enfrentar o imperialismo e a assumir uma política soberana na esfera econômica ou militar.
A autodeterminação e soberania nacionais somente podem ser assumidas pelo proletariado aliado ao campesinato pobre e sem-terra, por meio da revolução social, expulsando o imperialismo e anulando todos os acordos com ele, desconhecendo a dívida pública e estatizando sem indenização a grande propriedade privada monopolista, transformando-a em propriedade nacionalizada sob controle operário coletivo. Na base da propriedade estatizada pela revolução proletária, sob seu planejamento nacional e racional, e impondo o monopólio do comércio exterior, irão desenvolver-se as forças produtivas, na transição do capitalismo ao socialismo, em benefício da nação e do nível de vida e cultura das massas.
