O Internacionalista n° 28 / NOTAS INTERNACIONAIS / junho de 2025


No início de maio, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), organização guerrilheira considerada terrorista pelo Estado turco e pelo imperialismo, anunciou sua dissolução depois de quase cinquenta anos de existência. Seu líder – preso em uma prisão turca desde 1999 – Abdullah Öcalan, argumenta que o partido cumpriu seu “destino histórico” e seu 12° Congresso decidiu pela sua “dissolução da estrutura organizacional” e o “fim do método de luta armada”. O que está por trás dessa notícia?
Os curdos são um povo indo-europeu, isto é, nem árabe e nem turco, habitantes há pelo menos um milênio dos territórios do que hoje são os países Turquia, Síria, Iraque e Irã, no Oriente Médio. É considerada por isso como o maior “nação apátrida” do mundo, com algumas estatísticas dando conta de até 35 milhões de pessoas. A explicação para este fato está no percurso histórico da formação dos estados-nação e na divisão do morimbundo Império Otomano pelo imperialismo após a Primeira Guerra Mundial. Nesse processo, aos curdos foi negado o direito de autodeterminação e passaram a ser minoria étnica nos quatro países já mencionados.
Desde então os curdos lutam por maior autonomia dentre destes quatro Estados – ou até pela criação de um Estado próprio, Curdistão – utilizando-se dos mais variados expedientes e da negociação com as burguesias na intenção de conseguir esses objetivos, expressando diferentes programas e/ou métodos. Muitos grupos, aliás, chegaram a se alinhar várias vezes com o imperialismo (como os curdos no Iraque e na Síria) para derrubar algum governo da região que entravavam o expansionismo imperialista, na ilusão de que este os ajudaria a criar um Estado-nação próprio, ou bem lhes forneceria garantias para ampliar sua autonomia.
Inserido neste contexto, mas diferenciando-se dele em vários aspectos, surgiu o PKK na Turquia da década de 1970. O PKK tem uma especificidade em relação a outros grupos e partidos curdos. Enquanto quase todas as organizações curdas são completamente focadas na identidade nacional e cultural curda, o PKK surgiu adotando um suposto discurso “Marxista-leninista”, já deturpado pelo stalinismo, considerando, por exemplo, que “o socialismo científico a única corrente revolucionária de nosso tempo”, que “a aliança operário-camponesa é uma aliança de importância fundamental e uma condição indispensável para o sucesso da ‘revolução democrática nacional’ (stalinismo)”, além defender o “internacionalismo proletário”.
Com o passar das décadas da atuação de guerrilha do PKK no sudeste da Turquia, principalmente, o partido paulatinamente abandonou suas teses iniciais para adotar aquilo que seu líder, Öcalan, denominará como “confederalismo democrático” (posição defendida por Murray Bookchin, que se auto-intitulava anarquista) onde a destruição do Estado burguês e o internacionalismo foram deixados de lado, e criar-se-iam comunidades autônomas, baseadas na democracia direta, na autogestão e na autodefesa. Com este programa se encontra o PKK às vésperas de sua dissolução. O que significou potenciar as tendências federativistas de cada fração do povo curdo e projetou sua capitulação ao imperialismo e as burguesias nacionais.
O PKK capitulou diante do imperialismo e ao seu Estado vassalo (Turquia) justamente por ter abandonado as teses do socialismo científico. Ainda que deformado pelo stalinismo, o manifesto inicial de 1978 corretamente apontou que a única maneira de alcançar a tão sonhada autodeterminação é através do internacionalismo proletário e da destruição dos Estados burgueses (imperialistas ou semicoloniais), constituindo os governos operários e camponeses. Quando o partido abandonou esse programa, e argumentou ser possível a criação de “comunidades autônomas democráticas” cercadas de Estados-nações, sem destruir o regime capitalista, este partido assumiu um programa pequeno-burguês utópico, destinado ao fracasso político e os submeteria ainda mais à burguesia imperialista. Neste sentido, Öcalan está correto quando diz que o PKK cumpriu seu “destino histórico”, pois o destino histórico de uma organização que adota este tipo de programa, fracassado historicamente , é desaparecer ou adaptar-se à ordem burguesa. E essa adaptação é a que se manifesta na política de subserviência ao imperialismo dos curdos na Síria e Iraque. Assim, mais uma vez a experiência histórica demonstra que apenas com os métodos do internacionalismo proletário, da aliança operário-camponesa e da luta de classes, portanto, construindo um partido leninista de quadros revolucionários e com a estratégia e métodos da luta de classes, que será possível abrir caminho à transição ao socialismo, na qual os curdos de fato conquistarão sua autodeterminação.