O Internacionalista n° 28 / NOTAS INTERNACIONAIS / junho de 2025


Em 18 de maio, foram realizadas eleições em Portugal, Romênia e Polônia. No Portugal, projetou-se a direita nacional-chauvinista de feições fascistizantes. Na Romênia, se impôs o candidato da coalizão de governo que fora derrotada nas eleições em que o candidato anti-OTAN, Calin Georgescu, venceu no primeiro turno, mas logo fora cassado após o intervencionismo da Comissão Europeia (CE) para impedir sua vitória no segundo turno. Na Polônia, venceu Karol Nawrocki, da direita nacionalista, derrotando o candidato da Comissão Europeia (CE), do atual governo do primeiro-ministro Donald Tusk.
As três eleições têm em comum a ascensão eleitoral da direita nacionalista contrária à centralização política da CE dirigida por França e Alemanha, e, fundamentalmente, a direitização da política burguesa em Portugal e Romênia, onde venceram os candidatos da CE – graças ao intervencionismo ou à manipulação eleitoral – liberais, socialistas, socialdemocratas e social-cristãos.


Portugal: retrocesso da esquerda e avanço da direita e ultradireita

As eleições legislativas em Portugal (18/05) destacam-se pelo avanço da política direitista e retrocesso da esquerda burguesa e “socialista”. A Aliança Democrática (AD) do primeiro-ministro Luís Montenegro obteve 32,7% dos votos: 160 mil votos a mais que em 2024, obtendo 89 parlamentares – longe da maioria de 116 necessárias para formar governo próprio. O Partido Socialista obteve 23,3%, perdendo mais de 300 mil votos e reduzindo seus parlamentares de 77 para 58. A legenda ultranacionalista de direita Chega conquistou 22,5% (230 mil eleitores a mais que em 2024), passando de 48 para 58. Iniciativa Liberal passou de 5,1% para 5,5% (8 para 9 parlamentares). O Bloco de Esquerda (BE) caiu de 4,5% (2024) para 2%, desmoronando dos 5 parlamentares para apenas 1. O Partido Comunista Português obteve 3% dos votos (3,3% em 2024) mantendo 3 parlamentares. A legenda Livre, que defende Israel e apoia a guerra na Ucrânia contra Rússia, cresceu de 3,2% (2024) para 4,2%, de 3 para 6 parlamentares.
O crescimento de AD e a ascensão do Chega realiza-se à custa da diminuição dos socialistas e comunistas. A manutenção e ampliação da base de votantes de AD entre eleitores da direita, ocorreu após assumir as posições racistas do Chega. Esse, por sua vez, arrastou setores da “esquerda” burguesa e pequeno-burguesa. Uma pesquisa demonstra ainda que muitos dos que se abstinham de votar apoiaram essa legenda. É um indicador da radicalização de setores da pequena burguesia e dos operários mais atrasados que se sentem ameaçados pela imigração. Trata-se de uma modificação profunda em relação às limitadas conquistas sociais e trabalhistas após 50 anos da Revolução dos Cravos. O fracasso do projeto “socialista democrático” com sua subordinação aos ditames da CE acabou aproximando setores das massas às posições reacionárias visando preservar suas condições de vida em meio à desagregação econômica.
A ultradireita e a direita mais reacionárias capitalizam o fracasso do social-reformismo para tomar as bandeiras (de forma deturpada) do crescimento econômico atacando os gastos “improdutivos” de subsídios com os imigrantes e políticas sociais como a causa do descenso do nível de vida. As eleições mostraram, fundamentalmente, que não há um compartimento estanque entre esses partidos. No atual curso da crise, e sem a presença da direção revolucionária, tudo joga a favor da ultradireita nacionalista. Está aí porque o governo da AD terá de “parasitar” o programa do Chega para manter a governabilidade. O que lhe exigirá avançar à repressão e criminalização dos movimentos e das lutas.


Romênia: intervenção imperialista para impor a vitória do candidato pró-europeu

O primeiro turno das últimas eleições na Romenia deu uma ampla vantagem ao nacionalista de direita George Simion (Aliança para a União dos Romenos, a AUR), mas, no segundo turno, se impôs Nicusor Dan com 53,6% contra 46,4% de Simion. A Comissão Europeia, eufórica, cumprimentou-o pela vitória. Simon, que inicialmente reconheceu a vitória de Dan, passou a solicitar a anulação das eleições.
As eleições aconteceram após cinco meses da anulação do segundo turno eleitoral que deu a vitória a Calin Georgescu no primeiro turno. Com interferência direta da União Europeia e da CE, Georgescu foi cassado e, assim, foi impedido de assumir um governo que defenderia a não intervenção na Ucrânia. A CE visou impedir ainda a aliança da Romênia com Hungria e Eslováquia, que vêm se opondo à ampliação do orçamento militar para a Ucrânia. Ao golpe de meio ano atrás soma-se o novo golpe institucional. Dizemos que é um golpe porque foi denunciado que os serviços de segurança franceses e alemães teriam exigido apagar das redes sociais arquivos e discursos de Simion, além de impulsionar à Justiça romena a intervir para impedir manifestações e comícios que pudessem favorecer o candidato opositor. O fundador do Telegram denunciou que o chefe da inteligência francesa, Lerner, pediu para ele “interferir” nas eleições. À farsa da “interferência russa” nas eleições passadas – que levaram à cassação de Georgescu – seguiu o intervencionismo real dos países imperialistas europeus na Romênia.


Polônia: o candidato nacionalista e de ultradireita se impôs ao candidato da União Europeia

No segundo turno das eleições polonesas, realizadas em 1 de junho, com 50,89% dos votos, Karol Nawrocki (Lei e Justiça-PiS), foi eleito presidente da Polônia, após vencer o candidato pró-europeu do primeiro-ministro Donald Tusk, Rafał Trzaskowski, da Coalizão Cívica, que obteve 49,11%.
A vitória de Nawrocki pode acirrar os choques entre o primeiro-ministro subordinado à União Europeia, e o presidente que tem por objetivo aplicar um rumo mais nacionalista e de ruptura com a centralização dessa. O presidente tem poder de vetar os projetos legislativos e de nomear o primeiro-ministro. Um declarado admirador de Trump, Nawrocki poderá servir aos EUA em seu objetivo de enfraquecer e dissolver os laços políticos e econômicos da Europa. Sua eleição fortalece a Hungria, Eslováquia e outros governos em choque com os ditames da França e Alemanha sobre política econômica, ambiental e direitos humanos e, principalmente, de apoio militar irrestrito para a Ucrânia.
Orbán, presidente da Hungria, Marie Le Pen, de Rally Nacional (da ultradireita francesa), felicitaram Nawrocki como um fortalecimento do espaço nacionalista da Europa contra a burocracia. Sem dúvida, a vitória do nacionalista de direita reforça a ascensão política e eleitoral da ultradireita por toda Europa. O que acabará se refletindo nas eleições em outros países, a exemplo da França, onde Le Pen foi cassada por meio de um golpe jurídico visando lhe impedir de participar das próximas eleições como favorita.


As tendências fascistas surgem ao interior da democracia e se fortalecem com sua destruição

Ocorre que a democracia burguesa da Europa se desagrega refletindo a decomposição da economia e unidade capitalistas continentais. No centro desse processo acha-se a continuação da guerra na Ucrânia, que levou à centralização dos recursos retirados das aposentadorias e salários, da cobertura da saúde e educação, do desenvolvimento industrial e social etc. Para cumprir esse plano a burguesia procedeu a centralizar ditatorialmente às democracias dos países do bloco e ameaçando os governos que ensaiem um uma limitada autonomia para decidir sobre seus próprios assuntos.
A guerra imperialista travada contra Rússia e os ataques contra as condições de vida das massas para sustentá-la não precisa da democracia, e sim do autoritarismo e militarização da Europa. Os ditos de governos democrático-burgueses têm avançado nas medidas reacionárias e chauvinistas nos últimos anos, assumindo grande parte da política fascistizante de seus adversários. Procedendo assim avançaram muito mais a dinamitar a democracia formal, ajudando a abrir uma via à ascensão do fascismo. A guerra comercial com os EUA e a militarização da imigração acelerarão esse processo, do qual se aproveitam os partidos e correntes ultradireitistas e fascistizantes para se apresentar como os verdadeiros defensores da democracia “destruída” pelos liberais, socialdemocratas, social-cristãos e “ecologistas”.


A luta revolucionária das massas é a única via para barrar a barbárie fascistizante

Quanto mais afunda a burguesia européia na destruição de direitos e salários, mais se apoia na militarização das relações entre as classes. E destruindo a formalidade burguesa ajuda a romper com a ilusão de que essas são a via para as massas resolverem seus problemas. O problema que essa contradição, que é irresolúvel pela burguesia e seus partidos, poderia projetar a luta de classes se estivesse presente uma direção revolucionária capaz de mobilizar as massas e as dirigir contra a burguesia, seus governos e instituições, sob a estratégia da revolução e ditadura proletárias.
Está aí a explicação de porquê diante da ausência do proletariado organizado no campo de sua independência de classe, e combatendo o reacionarismo burguês com os métodos da luta de classes, se fortalece a tendência política fascista entre frações da burguesia, apoiada no desespero da pequena burguesia arruinada e setores do proletariado ameaçados de serem afundados na barbárie. Esse processo prepara o deslocamento político e ideológico das frações burguesas que ainda se apoiam na democracia formal para as posições fascistas, quando a revolta da classe operária, camponeses, juventude oprimida e pobres e miseráveis da Europa se espalhe contra os governos, ameaçando os lucros e negócios capitalistas. O que projetará a solução ditatorial e fascistizante para a decadência econômica, descarregando sobre os explorados e oprimidos a mais ampla barbárie.
Como assinalamos na nota “O imperialismo europeu se movimenta para manter a guerra na Ucrânia contra a oposição de governos”, publicada em OI n° 24, de fevereiro deste ano, “a tarefa mais imediata da atual conjuntura é abrir um caminho à luta de classes e construir as direções revolucionárias sob o programa e estratégia proletárias, elevando a luta instintiva e reivindicatória das massas à luta política pela derrota do militarismo e a derrubada da burguesia”. E à ação unificada da burguesia imperialista por cima das fronteiras nacionais se deve opor a “unificação da luta da classe operária europeia, sob um programa unitário pela derrota da burguesia européia em seu conjunto, esmagando suas tendências fascistizantes e desenvolvendo a estratégia dos Estados Unidos Socialistas da Europa, bandeira que se ergue perante o fracasso da unidade capitalista da Europa”. Com a decomposição da democracia e das instituições burguesas mais se faz necessário transformar as guerras e crises em revoluções proletárias.