O Internacionalista n° 28 / NOTAS INTERNACIONAIS / junho de 2025


Continuamos com esta publicação uma série de artigos que começamos em O Internacionalista n° 21 (novembro 2024) sobre os movimentos e governos que combatem o genocídio ou o financiam e apoiam. Na primeira nota publicada nesse Jornal (“A burguesia imperialista é a responsável, e as burocracias estalinistas favorecem o genocídio palestino”) mostramos que enquanto o imperialismo apoiava o genocídio visando estender os negócios monopolistas e controlar os países do Oriente Médio, as burocracias dos estados operários degenerados (Rússia e China) deixavam-no acontecer visando preservar sua influência sobre países árabes cúmplices do genocídio. No OI n° 22 (dezembro de 2024) mostramos quais as bases e interesses dos países árabes cúmplices do holocausto palestino (“Países árabes denunciam Israel, mas mantêm relações – econômicas, políticas e diplomáticas – que permitem continuar com o holocausto palestino e libanês, e atacar a Síria e o Irã, que apoiam a resistência em Gaza e no Líbano”). Já no OI n° 24 (fevereiro de 2025), destacavamos o papel dos houthis no combate a Israel e o imperialismo (“A decisão dos houthis de combater o imperialismo e o sionismo, ao lado da resistência palestina, representa um ponto alto na luta contra o holocausto palestino”). Retomamos agora mostrando porque a Índia é um apoio principal de Israel entre os países asiáticos de maioria não-muçulmana.


Do passado anticolonialista e pró-palestino, ao presente pró-sionista do nacionalismo hindu

Desde que conquistou sua independência formal, em 1947, e pelo menos até meados de 1990, a Índia apoiou política e diplomaticamente a luta dos palestinos pela sua libertação. A opressão e colonização da Palestina espelhava sua própria história de genocídio e terrorismo colonialista inglês. A Índia reconheceu a OLP, fundada em 1964, como legítima representação da Palestina, já em 1970, e outorgou “status diplomático” a seus representantes em 1980. Somente quando foram assinados os acordos de Camp David, em 1992, a Índia restabeleceu laços diplomáticos com Israel. Gandhi, que nunca se destacou por sua radicalização política, disse que a ocupação e expulsão de palestinos era um “crime contra a humanidade”.. Eis: “eles erraram gravemente ao tentar se impor à Palestina com a ajuda dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, e agora com a ajuda do terrorismo descarado”.
Mas, foram as massas assalariadas e camponesas que mais contribuíram com suas ações para apoiar os palestinos. Sua luta pela libertação representava uma luta anticolonial análoga à que elas protagonizaram contra o brutal e assassino imperialismo britânico. A mesma solidariedade as massas indianas puseram em prática com os boicotes e paralizações que fizeram às exportações e importações da África do Sul enquanto o Apartheid esteve vigente, ou quando apoiaram a luta dos oprimidos vietnamitas contra a opressão francesa e norte-americana. Nas mobilizações de rua se cantavam a viva voz as palavras de ordem “Meu nome e seu nome, Vietnã, Vietnã”. Em 1968, quando da visita de Robert S. McNamara, presidente do FMI, deflagraram protestos que impediram sua chegada na cidade de Calcutá, acusando o FMI de envolvimento na morte de vietnamitas e financiamento de armas biológicas.
A solidariedade internacionalista dos explorados indianos com a luta palestina ganhou expressão institucional quando da vitória do Partido Comunista da Índia-Marxista nas eleições para a prefeitura de Calcutá, que organizou as mobilizações que receberam com honras a Yasser Arafat, em 1990. As massas mobilizadas entoavam a viva-voz “Palestina livre” e “Viva a revolução!”. A mesma atitude mantiveram as massas quando visitou o país o recém-empossado presidente da África do Sul, Nelson Mandela.
No entanto, após a dissolução da URSS, os partidos comunistas do mundo todo abandonaram definitivamente a retórica comunista e anticolonial para afundar na política burguesa. O avanço à restauração capitalista acelerou o percurso de degeneração do stalinismo, que se alastrava por décadas. O que viria a se refletir nos partidos comunistas nas semicolônias. Em meados de 1990, inclusive os governos ditos “comunistas” de Calcutá, junto dos governos federais, se orientavam a aplicar as contrarreformas exigidas pelo FMI. Abria-se caminho ao controle do capital financeiro sobre a economia nacional, o que passaria a se refletir também na mudança na política exterior na defesa dos interesses gerais do imperialismo.
Em 2014, o Bharatiya Janata Party/BJP (nacionalismo hindu) ganha as eleições apoiado por partidos direitistas. O país assume na ONU uma posição pró-sionista e de “neutralidade” perante a colonização da Palestina, além da retórica belicista contra o “terrorismo islâmico” desenvolvida pelos EUA para justificar o intervencionismo militar na Líbia, Iraque etc. Em 2017, Modi (BJP) ganha as eleições presidenciais e aprofunda o curso nacionalista e antimuçulmano da política burguesa indiana. Será o primeiro presidente do país a visitar Israel, visita retribuída por Netanyahu meses depois. Modi foi ainda um dos primeiros presidentes a se solidarizar com Israel pelos ataques do Hamas de 07/10/2023, e orientou seus diplomatas a se abster na votação da Resolução 27/10 da ONU visando um cessar-fogo em Gaza.


Militarismo sionista e hindu se complementam e se desenvolvem mutuamente

A Índia é um dos países que mais compram armamento e tecnologia militar israelense. Em 2000, a Índia assinou um contrato com a Israel Aircraft Industries para a compra dos Sistemas de Mísseis Barak 1. Em 2010, consolidam-se os laços econômicos ao redor das exportações e importações de equipamentos bélicos. Israel é hoje o terceiro maior exportador de armas para a Índia, depois da Rússia e França. A burguesia indiana também ampliou seus negócios com Israel em áreas de transporte (Adani, o bilionário indiano, e próximo de Modi, pagou US$ 1,2 bilhão para adquirir o porto de Haifa) e energéticas, aumentando as exportações de petróleo e seus derivados em 3,5 vezes, de US$ 1,6 bilhão para US$ 5,5 bilhões. Nessa época, o crescimento das exportações da Índia para Israel passou de 35% para 77%.
Entre 2014 e 2024, a Índia importou U$ 2,9 bilhões em armas desde Israel (42% de todas as exportações militares israelitas tiveram como destino a Índia). As armas e tecnologias utilizados no genocídio dos palestinianos foram e são usados contra a população muçulmana da Caxemira. Na guerra com o Paquistão de abril/maio deste ano, drones suicidas Harop israelenses (da Israeli Aerospace Industries) foram lançados contra aquele país. São ainda os mesmos drones usados pelo Azerbaijão nas últimas três guerras em Nagorno-Karabakh visando colonizar o território de maioria nacional armênia. Também foram usados pela milícia HTS contra as Forças Armadas Sírias na derrubada de Al-Assad.
Note-se que a indústria bélica israelense tem por principais compradores a governos e movimentos que não apenas praticam limpeza étnica contra populações e povos nativos, mas são ainda aqueles que, de uma forma ou outra, servem de base de manobras ao imperialismo e ao sionismo na Ásia.


Nacionalismo hindu e sionismo compartilham a ideologia supremacista racial e religiosa

A eleição do direitista, racista e nacionalista Modi refletiu as tendências mundiais de direitização e fascistização da política burguesa, expressão e resultado da decomposição da economia capitalista. Nessas condições, a burguesia indiana recupera os preconceitos da ideologia “Hindutva” estendida entre as classes e castas dominantes nativas durante a época colonial, que se serviam dela para justificar seu colaboracionismo com o opressor inglês e a separação da população em “castas”. Hoje, servem-se dessa ideologia reacionária para impor a predominância da religião e nacionalidade hindus sobre as minorias nacionais (muçulmanos, cristãos, etc.). Sobre a base desse reacionarismo ergueu-se um estado Policial para esmagar os movimentos autonomistas, a revolta camponesa e das classes oprimidas, as greves operárias etc.
Entre os principais expoentes da “Hindutva” achava-se M. S. Golwarkar que, assim como Weizman (“pai do sionismo”), era um admirador do orgulho racial e nacional dos fascistas da Europa. E assim como o objetivo sionista é construir a “Grande Israel” na base da colonização e expulsão de povos nativos, assim também Golwarkar defendia o projeto da “Índia Indivisa” assumida hoje por Modi, e que devia ser construida expulsando populações e etnias nativas de territórios considerados indianos por direito.
A “diáspora hindu” desempenha um papel importante nessa propagada nacionalista. Em 2003, o Comitê Judaico-Americano (AJC), o Comitê de Ação Política Americano-Israelense (AIPAC) e o Comitê de Ação Política Indiano-Americano (USINAPAC) realizaram uma plenária conjunta nos EUA visando estabelecer uma “agenda” de interesses comuns. No mesmo ano, o Conselheiro de Segurança Nacional da Índia, Brajesh Mishra, disse que existia “uma aliança inabalável de democracias” entre os EUA, Israel e Índia “para combater o terrorismo”. Em 2014, Alpesh Shah, acionista de fundos de investimentos indianos, exigiu a Modi aplicasse a Lei de Emenda à Cidadania (2019) que oferece cidadania indiana a não muçulmanos em países de maioria muçulmana, espelhando a aplicação da Lei do Retorno de Israel que oferece cidadania israelense a judeus. A política de Modi visa alterar as proporções demográficas contra os muçulmanos assim como o sionismo fez na Palestina. Na mais recente visita de Netanyahu à Índia, Modi organizou manifestações que gritaram “Vida Longa a Israel” e “Vitória ao Hindustão”.
Para os regimes sionista e hindu existe um direito histórico, racial e religioso de povos e nacionalidades consideradas superiores de posar de territórios e deslocar povos “inferiores”. Por isso é que a escalada contra o Paquistão pretende justificar a colonização do território autônomo da Caxemira, de maioria muçulmana. Segundo a tese da “Índia indivisível”, suas terras foram roubadas e “profanadas” por “muçulmanos invasores”. Daí a tendência do governo nacional-chauvinista de Modi de procurar “replicar” os métodos usados pelos sionistas contra os palestinos (ver a Declaração publicada na página 23).


Índia “exporta” mão de obra a Israel

Após 07/10/2023, agravou-se a expulsão e massacres da força de trabalho palestina explorada pela burguesia sionista. O que obrigou a procurar no “mercado de trabalho” outra oferta de mão de obra barata e superexplorada como a dos palestinos. A Índia recorreu então a “exportar” trabalhadores de seu país para trabalhar nos setores de serviços, construção civil, trabalho doméstico etc. no lugar dos palestinos. A Associação de Construtores de Israel (com negócios bilionários na construção de colônias sionistas em territórios palestinos que foram roubados) agradeceu por diversas vezes a Modi por garantir a Israel 100 mil trabalhadores indianos para continuar seus negócios. Mais recentemente, foi assinado o “Acordo-Marco para Facilitar o Emprego Temporário de Trabalhadores em Setores Específicos do Mercado de Trabalho em Israel” que permite a Israel “importar” a redor de 34 mil trabalhadores para somar-se ao setor da construção civil, e mais 8 mil para funções de “cuidadores”. A “mão de obra” indiana tem ainda como “valor agregado” ter sua origem entre as “castas” segregadas racialmente, o que facilita sua semiescravidão em Israel. Favorece também à burguesia sionista a reforma trabalhista provada por Modi que extinguiu quase todos os direitos trabalhistas entre os operários indianos.
Cada vez mais os sindicatos da Índia se orientam a combater essas medidas do governo fascistizante de Modi. A Federação dos Trabalhadores da Construção Civil da Índia (CITU), por exemplo, aprovou uma resolução em 2023 em que se opõe “frontalmente a qualquer iniciativa desse tipo para enviar trabalhadores indianos para Israel neste momento crucial”. Mas, também avançam com medidas de ação direta contra os interesses econômicos e militares das burguesias sionista e indiana.
Em 2024, houve o bloqueio às exportações de peças para drones israelenses pelos trabalhadores portuários indianos, que emitiram uma declaração conjunta com quatros sindicatos palestinos, afirmando não seriam “cúmplices” do genocídio em curso. Segundo o secretário-geral da Federação dos Trabalhadores dos Transportes Aquáticos (WTWF), T. Naraendra Rao, “Se qualquer navio transporta armas ou munições ou carga de armas para Israel, decidimos boicotar.” A Federação Mundial de Sindicatos (FSM) realizou um protesto na capital, em Delhi, em 14/10/2024, condenando a “ocupação mais bárbara e desumana” e expressando “solidariedade inabalável ao povo da Palestina em geral e ao povo de Gaza em particular”. A WTWF, a CITU e FSM decidiram agir após o chamado de quatro sindicatos palestinos aos sindicatos e centrais do mundo todo pedindo por ações práticas para frear o genocídio.


A luta de classes na Índia pode ajudar à vitória dos palestinos e dos oprimidos da Caxemira

Em dezembro de 2006, no estado de Kerala (então governado por membros do partido comunista indiano) se realizou uma paralisação de 3 horas contra a execução de Saddam Hussein e em protesto contra o intervencionismo imperialista no Iraque. Há um mês atrás, dezenas de milhares de manifestantes protestaram neste mesmo estado em apoio aos palestinos. Estudantes e membros da Federação de Estudantes da Índia foram detidos por protestarem na embaixada israelense em Delhi.
São profundas as raízes históricas do movimento operário internacionalista em luta contra o colonialismo e a opressão nacional. “Entre 1948 e 1994, marinheiros e estivadores de vários países se uniram para boicotar e isolar o regime de apartheid da África do Sul. Os Sindicatos Marítimos Contra o Apartheid (MUAA) foram formados como seções no interior dos sindicatos da Dinamarca, Grã-Bretanha e Austrália”. O proletariado indiano teve um papel chave nesse movimento. Mas, antes disso, já “em 1939, quando a Índia era ainda uma colônia inglesa, deflagraram uma greve, para impedir a navegação dos países colonialistas na Ásia, em defesa dos movimentos anticolonialistas. Em 1945, boicotaram por nove meses os navios da Holanda, em apoio à luta pela independência da Indonésia (ex-colônia da Holanda)”. Agora, o proletariado indiano tem por principal tarefa “atacar as fontes econômicas do sionismo em seu país, paralisando as fábricas que vendem drones para Israel (Adani Defense and Aeroespace, que trabalha em parceria com a israelense Elbit Systems)” e impor ao governo Modi a ruptura dos acordos com Israel, bem como combatê-lo sob a bandeira da autodeterminação da Caxemira.
Porém, o proletariado indiano (assim como o proletariado mundial) está atrasado em sua consciência política porque não conta com sua direção revolucionária capaz de expressar seu instinto em programa socialista, unindo sua ação internacionalista em defesa dos palestinos e os povos oprimidos ao programa revolucionário pela derrota militar do sionismo e da burguesia imperialista com a estratégia e métodos da luta de classes. Ainda assim, o proletariado indiano pode ocupar um lugar de destaque na luta pelo boicote, paralisações e greves contra a burguesia sionista. Romper com a ideologia nacionalista hindu e se unir ao proletariado paquistanês pela derrubada dos governos dos dois lados das fronteiras permitirá à vanguarda marxista-leninista-trotskista fundir a luta pela libertação e autodetemrinação da Palestina à da Caxemira contra a opressão nacional. A derrota da burguesia e militarismo indianos sem dúvida firmará a luta do proletariado indiano pela sua emancipação de classe e, sobretudo, criará uma fortaleza para os explorados e oprimidos de toda a Ásia avançar à revolução social e colocar a tarefa da unidade das nações e povos sob uma federação de repúblicas socialistas.