O Internacionalista n° 28 / junho de 2025

Editorial Internacional

Imperialismo bloqueia acordo de cessar-fogo na Ucrânia

O regime econômico e a democracia burguesas só trazem crises, guerras e contrarrevoluções. É necessária a revolução proletária para libertar a humanidade e as forças produtivas da decomposição e da barbárie absolutas


A reunião de 15/05, na Turquia, entre a delegação russa e ucraniana culminou como esperado: não há qualquer ponto de coincidência entre os interesses do imperialismo (representados pela Ucrânia) e a Rússia para um acordo de “paz”. O chefe da delegação russa apresentou as seguintes condições: 1) Ucrânia não será parte da OTAN e adotará a neutralidade, sem tropas estrangeiras ou armas de destruição em massa em seus territórios; 2) renúncia mútua a qualquer exigência de reparações de guerra; 3) reconhecimento dos territórios anexados como russos; 4) direitos garantidos às minorias russas e desnazificação da Ucrânia (ou seja, desmonte do governo nazifascista estruturado pelo imperialismo); 5) retirada das tropas ucranianas das regiões do leste da Federação Russa (Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk, Zaporozhye e Kherson). A Ucrânia rejeitou todos esses pontos e disse que está disposta a levar a guerra ao território russo. Exigiu ainda a retirada das tropas russas do leste ucraniano e um marco para negociações sobre a Criméia sob intermediação do imperialismo. O imperialismo também foi incapaz de ludibriar novamente a Rússia, que aprendeu a dura lição dos Acordos de Minsk (2014), que foram implementados para armar a Ucrânia e incorporá-la à OTAN. A delegação russa disse que não acreditará em promessas porque comprovou que a OTAN continua sua expansão sobre as fronteiras russas. Sua rejeição à nova armadilha se deve à consolidação das vitórias russas nos combates, a projeção das capacidades industriais e tecnológicas de sua indústria militar enquanto se enfrenta com o esgotamento das capacidades bélicas imperialistas, além do crescente descontentamento da população europeia com as gastanças da guerra realizadas à custa da destruição de suas condições de vida.
Encorajados pela assinatura de novos acordos de apoio militar da Alemanha, França, Inglaterra e Polônia, os ucranianos não foram negociar, mas sim declarar a continuidade da guerra. Acreditavam que o fato da OTAN retirar todas as restrições para uso de mísseis contra a Rússia serviria de moeda de troca nas negociações. Porém, a Rússia alertou do envolvimento da Alemanha (e qualquer outro país) nas ações ofensivas contra a Rússia, que seria considerada uma declaração formal de guerra, autorizando a Rússia a recorrer a seu direito estabelecido pela Carta da ONU e responder à agressão atacando alvos na Alemanha. O fracasso das negociações de 15/05 e as movimentações posteriores demonstraram que não haverá “trégua” nos termos ditados pelo imperialismo, e esse tampouco aceitará as condições da Rússia, abrindo-se uma via para a preparação da deflagração de uma guerra em escala continental.
Nas atuais condições, as protelações jogam a favor da Rússia. Apoiada na propriedade nacionalizada pela revolução, avança militarmente e impulsiona sua economia elevando as condições de vida de sua população. Assim, a possibilidade de uma “pressão militar” capaz de impulsionar um levante da população russa contra seu governo caiu por terra. Deixando ao imperialismo europeu a via da rendição da Ucrânia, aceitando os termos russos, ou continuar sua escalada militar, se arriscando a uma guerra para a qual não está nem condições econômicas e nem militares para embarcar. A segunda opção foi tomada pela burguesia europeia, aproximando-a da guerra contra o estado operário degenerado russo. É nessas condições que as tendências de uma possível Terceira Guerra Mundial se agravaram, sobretudo, devido à decomposição das economias imperialistas, que somente poderão retomar seu crescimento por meio da destruição da propriedade nacionalizada na Rússia e, sobretudo, na China. Essa é a força motriz objetiva que está por trás do fracasso do “cessar-fogo” e da continuidade da guerra.
Cada dia que se passa na guerra prepara a derrota militar e a capitulação da Ucrânia. Sua breve existência como “nação independente” chegará a seu fim seja a guerra vencida pela Rússia, seja essa vencida pelo imperialismo. Como afirmamos no OI n° 25, “(…) a possibilidade de um desmembramento da Ucrânia está agora objetivamente colocada. O pano histórico de fundo sobre o qual se desenrolam os fatos é a retomada da disputa entre as potências pelos mercados, e em particular pelas matérias-primas ucranianas. Daí vem a defesa da Europa de continuidade da guerra”. As exigências imperialistas da entrega de sua soberania, além de parte de seus territórios que são cobiçados pela Hungria e Polônia, significa que ainda vencendo o imperialismo, o estado ucraniano será apenas uma ficção. Manter sua integralidade pela derrota da Rússia significará fortalecer o imperialismo em seu objetivo de destruir a economia nacionalizada pela revolução. Nisso, nada há de progressivo para as massas mundiais.
Não há como os países e governos semicoloniais ficarem à margem dos conflitos e das guerras impulsionadas pelo imperialismo contra os estados operários degenerados. Como assinalamos no editorial internacional de O I n°25, “os países burgueses semicoloniais são obrigados a se apoiar” no imperialismo ou nos estados operários degenerados “para sobreviver”. O acordo trilionário de Trump com os Emirados Árabes Unidos (EAU) e Arábia Saudita tem por pano de fundo essa contradição. Se de um lado visa a injetar bilhões de dólares na economia norte-americana visando equacionar seu déficit e financiar a produção de armas; de outro, visa também bloquear o avanço da China que está próximo de se converter na maior parceira comercial de grande parte dos países árabes. A derrubada de governos e as guerras civis promovidas pelo imperialismo são outros meios táticos para cumprir esse objetivo.
É nesse quadro que deve ser compreendido o acordo entre o governo miliciano da Síria (HTS) e os EUA para a retomada do financiamento do país. Trump se encontrou com Ahmed al-Sharaa (líder da Hayat Tahrir al-Sham) graças à intermediação do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, e também do governo da Turquia. Em troca do reatamento de financiamento, o HTS deve garantir livre ação dos EUA na Síria para ataques a “terroristas” e usar seu espaço aéreo (para atacar o Irã no futuro), a deportação de palestinos e normalizar as relações com Israel (via “Acordos de Abraão” do qual são parte os EAU, Arábia Saudita, Qatar e Marrocos, dentre outros). Pela Síria passaria ainda o “corredor energético” que, unindo Irã e Iraque, levaria petróleo iraniano para Europa e criaria as condições para instalar o “Cinturão e Rota da China”. A cumplicidade dos países árabes na derrubada de Al-Assad, visando destruir as bases da resistência ao imperialismo/sionismo, verifica-se na declaração do Ministro de Negócios Estrangeiros da Arábaia Saudita que afirmou que foi destruída sua rota de abastecimento. A derrocada de Al-Assad (festejada como uma “revolução” por muitas correntes ditas de marxistas) pôs de relevo o prognóstico do PPRI (“Revisionismo teórico e reacionarismo político caracterizam a posição da LIT-QI sobre a Síria”, nota publicada no OI n° 23) de que Al-Assad foi derrubado para fazer da Síria um campo das manobras imperialistas e sionistas contra o Irã. Não agora como ocultar esse fato!
Como assinalamos na Declaração PPRI de 13/05 (“A guerra indo-paquistanesa é mais um elo na luta à morte entre o imperialismo e os estados operários degenerados”, publicada neste jornal na página 23), a guerra entre Índia e Paquistão é parte dessas manobras. Isto porque é “graças ao Paquistão que a China tem acesso ao Oceano Índico, além de que sua fronteira com Irã cria uma “zona tampão” contra o avanço imperialista para cercar a China pela Ásia, e isola a Índia geograficamente”. Não é por acaso que “Trump assinou com o governo indiano um acordo para utilizar a Índia como território de um “corredor energético” de transporte de petróleo através de Israel e Itália, cuja viabilidade econômica e logística depende da China nunca concluir seu próprio projeto”. Ficou claro então “que a queda de Al-Assad (Síria) … os contínuos ataques de Israel ao Hezbollah no Líbano e as tentativas de desestabilização do governo iraquiano dizem respeito ao mesmo objetivo: tomar sob seu controle os países árabes realizando golpes ou preparando guerras para destruir governo e países que se opunham a seus ditames se apoiando na China ou Rússia”, afirmamos. As tendências bélicas crescem sob impulso do intervencionismo e das guerras internacionalizadas que correspondem aos interesses estratégicos do imperialismo, e transformam-se em elos do choque militar que se prepara entre os estados operários degenerados e aliados, de um lado, com os países imperialistas e seus vassalos, de outro.
Essa tendência mais geral é que vem impulsionando a destruição dos alicerces das democracias formais burguesas na Europa, como demonstramos na nota publicada neste jornal (página 25). A destruição da formalidade democrática burguesa tem por objetivo disciplinar as nações e centralizar seus recursos para as guerras imperialistas. Ao mesmo tempo em que servem ao objetivo de tentar abortar as tendências de radicalização da luta de classes. A militarização das relações econômicas e políticas ao interior das nações imperialistas é uma ação imposta à burguesia para continuar as guerras europeias realocando maiores quantias de recursos orçamentários e erguer um estado-policial para esmagar a resistência e luta das massas contra a guerra e a destruição de suas condições de vida.
O que deve ficar claro à vanguarda é que o choque de morte entre dois sistemas econômicos antagônicos não será bloqueado indefinidamente com medidas econômicas e diplomáticas; mais cedo ou mais tarde, terá de ser resolvido no campo militar. É isso que explica a instabilidade nas relações políticas mundiais e arrasta como um furacão aos países semicoloniais e oprimidos.
Nosso programa recém-aprovado afirma que vivemos a época em que se acirrou a contradição “entre as fronteiras e Estados baseados em forças produtivas capitalistas com as economias e Estados onde dominam a propriedade nacionalizada pelas revoluções socialistas, ainda que hoje os Estados Operários estejam profundamente degenerados…”. E é por isso que “Não há como o capitalismo dar uma breve sobrevida ao regime burguês em decomposição sem a destruição da economia nacionalizada, regredindo as conquistas proletárias, e sem destruir o Estado Operário derrubando a burocracia…”. Na defesa de suas conquistas históricas em luta contra a burguesia mundial, a classe operária está obrigada a se apoiar na luta de classes e conquistar sua independência de classe, transformando as crises e as guerras em guerra civil contra a burguesias (revolução social) e as burocracias contrarrevolucionárias (revolução política). Ensina o marxismo que a guerra é continuidade da política por outros meios, portanto, os explorados e oprimidos devem travar a guerra civil contra a burguesia e seus governos para abrir caminho a seu programa e estratégia socialistas, única via que livrará a humanidade da barbárie social.