O Internacionalista n° 29 / julho de 2025

Editorial Internacional

As tendências bélicas aprofundam-se: é urgente erguer o programa revolucionário do proletariado para acabar com o capitalismo e abrir caminho ao socialismo


Cumprem-se seis meses desde que Trump assumiu seu segundo mandato à frente da maior potência imperialista. Ainda ressoavam os efeitos da guerra comercial, quando Trump decidiu dar um passo militar que agravou as tendências bélicas em um patamar muito perigoso para as nações e as massas oprimidas e, sobretudo, para os Estados Operários degenerados. A concorrência entre Europa e EUA pelos mercados e as matérias-primas foi conjunturalmente deixada de lado com a imposição autoritária dos EUA às burguesias europeias de um aumento exponencial de seus gastos militares.
Os Estados Unidos aproveitam-se da decadência e fraqueza europeias para ditar o rumo de sua política comercial e, especialmente, obrigar o imperialismo europeu a assumir os maiores custos econômicos, sociais e políticos da guerra travada pela OTAN contra Rússia. As negociações de Trump com a China para equacionar os conflitos comerciais não modificam o percurso do crescente militarismo norte-americano orientado contra esse país. Mas, são usados para chantagear e forçar à Europa a aceitar condições leoninas nos intercâmbios comerciais. Trump ameaçou a Europa com a elevação de até 100% no aumento das tarifas para importação desde o continente para os Estados Unidos apenas visando impor à Europa que carregue com o maior peso no financiamento da guerra na Ucrânia. Enquanto os EUA se reservam o papel de provedor de armas e munições e o comando estratégico das operações por meio da OTAN.
Trata-se de uma espécie de “divisão técnica” na ofensiva travada pelo imperialismo contra o estado operário degenerado russo: 1) A Europa precisa de recursos industriais e militares que não têm como garantir para enfrentar uma potência industrial e tecnológica como se demonstrou a Rússia; 2) Os investimentos imediatos com aumento dos orçamentos de guerra na Europa fluirão para as indústrias norte-americanas, garantindo a elevação da produção e os lucros monopolistas nos EUA à custa do empobrecimento e da contínua desindustrialização da Europa; 3) Para alavancar esse aumento nos gastos de defesa, a Europa terá que reduzir as condições de vida dos assalariados, esvaziar seus bancos, atacar as aposentadorias, restringir os investimentos e serviços etc. Dessa forma, os EUA se garantem: 4) Um fluxo permanente de capitais da Europa para suas indústrias, garantindo a seus monopólios o aumento da margem de lucros em detrimento da burguesia europeia; 5) mantém um nível mínimo de encomendas militares que lhe permitem manter sua economia por meio da transferência de riquezas e valores da Europa para os EUA, no momento em que esse retrocede perante o poderoso avanço industrial, tecnológico e financeiro chinês; e dessa forma 6) condiciona a política externa de seus rivais imperialistas e as utiliza como grupo de choque na guerra contra Rússia enquanto o governo republicano possa de pacificador e negociador. Esse foi o real conteúdo e o resultado da reunião da OTAN na qual os países imperialistas europeus se ajoelharam perante Trump, aceitando todas suas condições.
A divisão do mundo que seguiu à pós-Segunda Guerra Mundial está esgotada. Se bem foi equacionada parcialmente com a unificação europeia, e com o monopólio norte-americano nas transações comerciais e, quando insuficiente para impor sua vontade, com seu poderio militar, essas relações estão sendo dinamitadas com a poderosa ascensão industrial e comercial da China e o expansionismo das capacidades industriais e comerciais da Rússia, enquanto os países capitalistas estão em uma curva descendente acelerada e desintegradora. A produtividade e capacidades das forças produtivas erguidas sobre a base das propriedades nacionalizadas pelas revoluções estão se chocando cada vez mais violentamente com as forças produtivas (em retrocesso e desagregação) erguidas sobre a propriedade privada monopolista. Se a China é o rival mais imediato dos EUA, a Rússia vem avançando à custa de impor à Europa uma restrição de seus mercados e privando-a de recursos energéticos, riquezas naturais e matérias-primas essenciais anexando no leste ucraniano, assim como avançando sua influência na África.
Essa convulsiva mudança nas relações empurra os países imperialistas a resolverem seu impasse ampliando a ofensiva bélica. O imperialismo de feições nacionalistas dos EUA é o carro-chefe dessas tendências pelo maior desenvolvimento histórico das forças produtivas monopolistas e, portanto, precisa equacionar sua crise estrutural ampliando o saque sobre as nações oprimidas e travando uma permanente e brutal guerra comercial contra seus concorrentes. A Europa capitalista segue o mesmo rumo, mas não conta com o poderio militar de seu rival transatlântico para se impor. Protecionismo e restrição de mercados pela força, restrições à livre circulação de capitais e mercadorias, a violência exercida sobre a lei do valor por meio de medidas extra-econômicas são os sintomas de uma preparação para a guerra. A crise de superprodução nas potências imperialistas atingiu níveis tão críticos que não mais é possível aos monopólios e o capital financeiro alavancar a reprodução ampliada de valores (capital) nas mesmas condições econômicas anteriores, alavancando o militarismo imperialista.
As tendências bélicas expressam os violentos choques entre as forças produtivas e técnicas encarceradas sob a propriedade privada monopolista com as fronteiras nacionais resultantes do esgotamento da partilha do mundo pós-Guerra. A destruição de forças produtivas são sua consequência, assim como as são o fechamento de fábricas, o desemprego crônico, o subemprego, a destruição de direitos sociais e aposentadorias etc. A destruição de forças produtivas desenvolvidas sobre a base das propriedades nacionalizadas pelas revoluções na Rússia e China, e as reconstruindo sob controle imperialista e restaurando o estado e propriedade burguesa, são a única via histórica capaz de dar uma sobrevida ao capitalismo em decomposição. Isso não apaga os profundos choques inter-imperialistas na disputa por mercados e fontes de matérias-primas. Mas, os equacionam conjunturalmente ao reunir suas frações ao redor de um objetivo comum que atrasa transitoriamente o agravamento desses choques. Isso explica porque as burguesias imperialistas realizam uma ofensiva acelerada para tentar militarizar as fronteiras da Rússia e China. Golpes de Estado (Ucrânia em 2014), guerras civis internacionalizadas (Síria, Líbia, Ucrânia), intervenções militares para derrubar governos (Líbia, Iraque, Irã) e acordos econômicos e colonização econômica (Lituânia, Estônia, Letônia, Armênia, Azerbaijão) são medidas que devem criar as condições para cercar e impor a destruição da propriedade nacionalizada, derrubar as burocracias, destruir os Estados Operários degenerados e os transformar em semicolônias. Essa previsão de Trotsky vem se manifestando de forma clara na atual conjuntura.
Nesse sentido, a presença e influência econômica e militar da burocracia herdeira do stalinismo no Oriente Médio e Ásia ergue-se em um obstáculo a esse objetivo. Seu desmantelamento é decisivo para retirar da Rússia e China seu controle sobre fontes de matérias-primas, rotas comerciais e vias seguras para o abastecimento de suas economias. O crescente armamentismo mundial são os sintomas claros dessa tendência. A palavra de ordem “América Primeiro” e a política exterior belicista norte-americana significa, em última instância, que os EUA objetivam abrir caminho a seus interesses passando por cima das relações mundiais estabelecidas, e abrindo as fronteiras nacionais a seus monopólios à força.
Como já assinalamos em nota publicada no jornal, o cessar-fogo entre EUA-Israel e Irã é apenas uma pausa na guerra que tem por alvo estender o cerco sobre a Rússia e a China. A destruição da Síria, transformar Ucrânia em bucha de canhão e submeter Irã ao controle imperialista visa não apenas destruir os pontos de apoio dos estados operários degenerados na Ásia, como “utilizar seu território para avançar ao objetivo estratégico mais importante do imperialismo: destroçar à China e a Rússia”. Baste ver a geografia nas quais se apresentam os conflitos entre nações e os estados operários degenerados para que fique absolutamente claro que “Todas as movimentações imperialistas tem por objetivo estratégico cercar esses países, e preparar as condições para intervir contra eles, destruir a propriedade nacionalizada pelas revoluções, derrocar a burocracia herdeira do estalinismo, restaurar o capitalismo e transformar China e Rússia em estados fragmentados, e desse modo proceder a reconstruir as forças produtivas sob controle do capital financeiro. Nesse processo, os EUA imporão uma nova divisão do mundo que já está esgotada”. A subordinação da Armênia e do Azerbaijão ao imperialismo e seus vassalos é o mais recente sintoma dessa situação. Trata-se de dois ex-estados operários que fizeram parte da URSS que, com a dissolução da URSS, passaram a ser alvo das manobras do imperialismo como já aconteceu com os países bálticos, Geórgia, Ucrânia etc. Com os acordos entre EUA e Armênia, e entre Turquia e o Azerbaijão, esses países servem agora de peões no tabuleiro das movimentações imperialistas contra Rússia e China. Como assinalamos em nota publicada na seção internacional de o OI 29, “É isso que condiciona o curso das crises internas aos países que conformam o “cinturão” de nações que rodeiam as fronteiras ao sul de ambos os estados, assim como as viragens políticas adotadas pelos governos ao sul do Cáucaso.” É o preço que pagam as nações que restauraram o capitalismo pela destruição da direção revolucionária do proletariado pelo stalinismo, o que as impossibilitam de frear seu retorno ao capitalismo reconstruindo a ditadura proletária por meio da revolução política.
O quadro mais geral da crise e das tendências bélicas que ameaçam levar a humanidade e as massas mundiais à beira da barbárie em larga escala, obrigam os revolucionários a fazer uma clara delimitação do conteúdo dos choques fundamentais presentes na situação convulsiva mundial, e que condicionam o processo acelerado de crises, guerras e contrarrevoluções. O genocídio em Gaza, as intervenções militares contra o Irã, a guerra na Ucrânia, a destruição de diretos conquistados com sangue pelo proletariado mundial, assim como suas conquistas revolucionárias em luta pelo fim da opressão nacional e de classe, são claro sintomas de que o capitalismo está completamente apodrecido. E essa compreensão deve ajudar à vanguarda com consciência de classe a entender a importância e urgência do trabalho de reconstruir a direção revolucionária mundial do proletariado, e construir os partidos proletários em cada país, sobre os princípios, fundamentos, a teoria e métodos da luta de classes.
Será com o programa da revolução e ditadura proletárias, com a defesa incondicional da resistência conta a opressão nacional, desenvolvendo a guerra civil contra as burguesias, que o proletariado retomará sua tarefa histórica de iniciar a transição ao socialismo, hoje mais urgente do que nunca.