O Internacionalista n° 29 / NOTAS INTERNACIONAIS / julho de 2025


As manobras imperialistas contra os Estados Operários degenerados russo e chinês são contínuas. É isso que condiciona o curso das crises internas aos países que conformam o “cinturão” de nações que rodeiam as fronteiras ao sul de ambos os estados, assim como as viragens políticas adotadas pelos governos ao sul do Cáucaso. O caso mais emblemático atualmente é o da Armênia.
No ano passado, a Armênia assinou com os EUA uma “carta de intenção” visando uma “associação estratégica” entre ambos os países. Segundo informado à imprensa à época, a Carta seria “um marco para ampliar a cooperação bilateral” em questões econômicas, políticas, segurança e defesa para uma futura integração da Armênia às nações de apoio da OTAN, do mesmo modo que se tentou com a Geórgia. A “integração” deverá ser garantida pela aplicação de contrarreformas econômicas, livre investimentos de capitais dos EUA e parceiros, reformas institucionais etc. Em outras palavras: transformar a Armênia em uma nova base de manobras contra Rússia, China e Irã.
Oferece-se ao país o que lhe foi oferecido à Ucrânia (2008) e a Geórgia (2009) que assinaram acordos semelhantes e que, no caso da Ucrânia, acabaram no golpe de estado pró-imperialista de 2014, na guerra civil contra as nacionalidades russas do país e levou a Ucrânia a servir de base de manobras na guerra travada pelo imperialismo contra Rússia. No caso da Geórgia, o acordo veio após sua derrota para a Rússia pelo controle da região autonômica georgiana da Ossétia do Sul (2008) e que, após a derrota eleitoral do governo pró-imperialista e da conquista do poder do Estado pela oposição pró-russa do partido Sonho Georgiano, acabou fracassando. Para evitar uma nova derrota, o governo armênio está realizando (sob ditame imperialista) uma feroz ofensiva autoritária e centralizadora contra a oposição e contra a Igreja Ortodoxa que têm profundas raízes políticas, econômicas, históricas e culturais com a Rússia. Derrotada em seu objetivo de usar a Geórgia contra Rússia, agora é a vez da Armênia ser transformada em peão do imperialismo em sua luta pela derrota e destruição da Rússia.
À parceria EUA-Armênia segue agora a parceria entre esse país e a Turquia. Se de um lado, Armênia pode jogar um papel como substituto da Geórgia como um pivô no cerco sobre Rússia – em troca de apoio e financiamento estadunidense para tentar equacionar a profunda crise econômica; de outro, sua aproximação da Turquia pode acelerar sua integração ao quadro militar da OTAN – ainda que servindo aos interesses da burguesia turca em seu objetivo de ampliar sua influência na região. Um fator que acelerou esse processo foi, sem dúvida, o resultado da guerra entre Armênia e Azerbaijão pelo controle da autodenominada República de Nagorno-Karabakh, uma província do país azeri de população étnica armênia que, após a guerra de 1988-1994, passou para o controle dos armênios. A inicial vitória da Armênia, em 1994 com apoio russo, e que levou à criação da “República de Nagorno-Karabakh”, reverteu-se em 2025 quando as forças armadas armênias dessa região foram atacadas e derrotadas pelo Azerbaijão. O que acelerou a viragem pró-imperialista do governo de Nikol Pashinya amplamente rejeitado pela população, e que passou a criar as condições de sua subordinação aos EUA e à Turquia para sobreviver à crise de governabilidade. Sua ofensiva sobre a oposição e a Igreja Ortodoxa russa repete o roteiro do regime pro-imperialista da Ucrânia, mas também da Letônia, Lituânia, Romênia, Moldávia e outros países europeus que visam impedir os setores da oposição contrários à guerra contra Rússia ganharem força apoiado nas massas que não querem ver seus salários e direitos destruídos em benefício dos monopólios da indústria bélica e do capital financeiro. Está aí a razão de o governo do primeiro-ministro Pashinya impulsionar as perseguições e prisões das principais figuras da oposição e de bispos ortodoxos. E para isso recorre à cartilha imperialista de “desarmar” a “influência e propaganda russa”, a mesma ditada à Ucrânia, aos países bálticos etc. Como se pode ver, a centralização autoritária, a perseguição política e religiosa, a restrição das liberdades democráticas etc. correspondem ao intervencionismo imperialista visando a garantir a subordinação das semicolonias a seus objetivos.
Sob o capitalismo, Armênia jamais será uma nação que se poderá autodeterminar e decidir por si mesma sobre todos seus assuntos internos. A única vez na história que conquistou esse direito foi após a revolução proletária de 1917. Sob direção dos bolcheviques, o estado operário constituiu-se em uma referência para a luta das nações oprimidas do Cáucaso que, por séculos, combateram contra os impérios Czarista, Otomano, Francês, Inglês etc. A Armênia se integraria à URSS na forma de república soviética, assim como faria também o Azerbaijão. No Congresso de Baku, em 1920, os delegados de ambas as repúblicas soviéticas decidiram de comum acordo que Nagorno-Karabakh – por séculos uma província de Azerbaijão – se integrasse à República Socialista azeri, mas essa lhe garantiria sua autodeterminação em inúmeros aspectos políticos, econômicos, culturais e administrativos. A contrarrevolução termidoriana da casta burocrática stalinista colocou a Armênia (como a Ucrânia) na condição de vassala. À livre associação de repúblicas socialistas em uma federação de países lhe veio a suceder a centralização administrativa e militar sob o chicote dos interesses da burocracia russa.
Dissolvida URSS, a negativa da Armênia a se integrar na Federação Russa enfraqueceu o poder centralizador da burocracia herdeira do estalinismo, e o país passou a ficar sob pressão das forças monopolistas e imperialistas. Como a Geórgia, a importância da Armênia para o imperialismo reside em suas riquezas e, sobretudo, na sua localização geográfica , especialmente, na estreita faixa de terra na região de Syunik (o chamado Corredor de Zangezur) que conecta a Arménia e Azerbaijão com a Turquia, que separa fisicamente a Rússia do Irã e, sobretudo, é o eixo central da rota que passa pelo Mar Cáspio para Ásia Central (Rota de Transporte Internacional Trans-Cáspio). É essa condição geográfica e os acordos entre Arménia e Azerbaijão com a Turquia, que permitiram a Israel utilizar o espaço aéreo do Azerbaijão para atacar o Irã pelo norte. E agora será utilizado para cercar a Rússia e isolar o Irã.
Mas, seu servilismo não a salvará a Armênia de sua possível fragmentação em regiões étnicas sob controle das diferentes forças burguesas que agem por cima de suas fronteiras nacionais quando seja travada a disputa por seus recursos naturais (cobre, ferro, molibdênio, chumbo, zinco, ouro, prata, antimônio e alumínio). Isso explica, todavia, porque a Armênia e o Azerbaijão, que passaram décadas em disputa militar, agora, se aproximam de um acordo de cessar-fogo permanente patrocinado pelos EUA e Turquia, e que beneficiará claramente esses países.
Note-se que a Armênia passou à condição de peão no tabuleiro das movimentações imperialistas, como já acontecera com a Ucrânia e tentou-se com a Geórgia. Sua subordinação aos EUA e à Turquia a colocam no percurso das tendências bélicas mundiais, e um território aberto a futuros conflitos bélicos internos. Esse pode ser o preço a pagar pela Armênia por servir ao objetivo imperialista da destruição da propriedade nacionalizada pela revolução proletária na Rússia e da derrubada da burocracia destruindo o Estado Operário e, assim, completar a restauração capitalista que almeja há muito o imperialismo. A tendência histórica ao choque entre as forças produtivas e as relações de produção baseadas na propriedade nacionalizada pelas revoluções, portanto, dos Estados Operários com as forças produtivas capitalistas monopolistas, ou seja, os Estados imperialistas, fará da Armênia um campo dos confrontos.
O proletariado, os camponeses e oprimidos armênios não podem prestar qualquer apoio ao governo vendilhão. Devem-se se colocar pela defesa dos direitos políticos e religiosos dos perseguidos uma vez que se trata da defesa das condições políticas para sua atuação e organização independente. A autonomia nacional e o direito à autodeterminação foram conquistados com a luta de classes, sob a estratégia da ditadura e revolução proletárias, e mais uma vez esse programa será que romperá com a subordinação ao imperialismo e reabrirá, mais uma vez, a via da retomada da transição ao socialismo.
A revolução proletária na Armênia – reconstituindo a ditadura proletária – servirá à defesa da propriedade nacionalizada da Rússia ameaçada pelo imperialismo (sem nunca apoiar e nem se subordinar aos interesses da fração burocrática russa surgida da entranha das forças de segurança estalinistas) e, ao mesmo tempo, retomará a luta do proletariado russo pela revolução política retomando o controle sobre a economia e o Estado. A defesa incondicional do Irã ajudará a avançar a esse objetivo. A derrota de Israel e enfraquecimento dos EUA fortalecerá ainda a luta revolucionária das massas no Oriente Médio, assim como nos países imperialistas pela sua emancipação nacional e social. Para ajudar nessa tarefa, os operários e demais oprimidos armênios devem impor ao governo de Pashinya a expulsão do imperialismo, do sionismo e da Turquia do país. Mas, nada disso será possível sem que se retomem as tradições e decisões do Congresso de Baku e se construa o partido proletário revolucionário, sem o qual se verão arrastados pelas forças que agem por cima de suas fronteiras e lhe impõem o servilismo, o saque de suas riquezas e o aprofundamento das massas na barbárie.