O Internacionalista n° 29 / NOTAS INTERNACIONAIS / julho de 2025


Em 21 de junho, os EUA atacaram a instalação nuclear iraniana de Fordow, onde se encontram, no subsolo, as centrifugadores mais avançadas do Irão – além das instalações de Natanz e Isfahan – com seis bombas destruidoras de bunkers e centenas de mísseis de cruzeiro Tomahawk. Dias antes do ataque, uma frota de aviões-tanque atravessaram o Atlântico, o Mediterrâneo e parte do Oriente Médio para atacar o oeste do Irão, aproveitando a destruição de grande parte da infraestrutura das defesas áreas iranianas por Israel. Enquanto encenava uma manobra diplomática, afirmando dar prazo de duas semanas ao Irã para voltar à mesa de negociações sobre o programa nuclear iraniano, Trump já tinha aprovado a intervenção dos EUA na guerra e planejado junto de Israel o momento do ataque.
Segundo declarou o jornalista norte-americano Seymour Hersh um dia antes do ataque, “O início da evacuação de cidadãos americanos de Israel, coincidindo com a chegada à costa iraniana de dois grupos de ataque de porta-aviões americanos … indica apenas uma coisa: a infraestrutura para um ataque em larga escala ao Irão está pronta”. Durante meses, EUA e Israel, tinham preparado a guerra contra o Irã, e as manobras de distração de Trump, visando dar um golpe decisivo para impor a capitulação do Irã. Não obstante, o Irã (que sabia que haveria um ataque há meses) procedeu a deslocar grande parte das centrífugas enriquecedoras de urânio para três locais construídos recentemente. Estima-se que as capacidades nucleares críticas do país mantêm-se salvas e que em poucos meses conseguirá recuperar o que foi destruído. O governo iraniano declarou que não abandonará o enriquecimento de urânio.
A decisão do Irã de atacar bases aéreas norte-americanas, avisando previamente a Trump e sem utilizar todas suas capacidades, serviu de resposta simbólica e demonstrou que o governo persa estava disposto a um cessar-fogo proposto por Trump. Não se trata de capitulação, e sim de uma manobra tática para reconstruir a infraestrutura danificada e fortalecer suas capacidades de defesa. Por sua vez, os EUA declararam vitória, mas na verdade não podiam seguir as operações sem se afundar em uma guerra que consumiria bilhões e sem perspectivas de obter resultado favorável a longo prazo. Israel estava esgotado em suas capacidades defensivas contra mísseis iranianos e sofria contínuas perdas pela destruição de locais e capacidades estratégicas da economia e estrutura militar. Entrou nos cálculos imperialistas a possibilidade de um levante generalizado das massas árabes oprimidas e sua intervenção na guerra de dominação imperialista contra a nação oprimida. Embora as maiores perdas humanas e materiais estejam do lado do Irã, surpreendeu aos imperialistas as capacidades ofensivas do Irã em meio aos ataques, além da unidade nacional que se criou ao redor de seu governo. Para derrubar o regime, os EUA e Israel estavam obrigados a colocar tropas no terreno iraniano. O que levaria a uma luta encarniçada e um sem-fim de derrotas parciais táticas dos imperialistas e sionistas. O que no contexto de uma revolta geral das massas na região, potencialmente transformaria o Irã em um novo Vietnã. Nesse contexto é que foi confirmado o acordo de “cessar-fogo”. Mas, sabemos que o imperialismo pode a qualquer momento rasgar o acordo unilateralmente (como fez em Gaza e no Líbano), bem como se trata apenas de uma trégua provisória que será utilizada para o rearmamento para a continuidade da guerra.
EUA e Israel deram um primeiro passo para uma guerra total contra o Irã. Seu objetivo é derrocar o regime e impor um governo títere, como foi feito no Iraque Está aí a explicação de porque o Irã ter armas nucleares seria um grande obstáculo para a destruição e rapina do país como planejado há décadas. A guerra foi travada agora porque ainda não desenvolveu toda a tecnologia de miniaturização de artefatos nucleares capazes de serem colocados em mísseis que já detém (dezenas de milhares). Os ataques de Israel e dos EUA no mês de junho constituem elos da estratégia estadunidense de destruir o regime nacionalista dos Aiatolás, converter o Irã em uma nova Síria ou Iraque, e utilizar seu território para avançar ao objetivo estratégico mais importante do imperialismo: destroçar a China e a Rússia.
Os fundamentos do programa nuclear iraniano foram colocados pelos EUA por meio do programa “Átomos para a Paz”, do presidente americano Dwight D. Eisenhower. Em 1957, foi assinado entre o governo do Xá e Eisenhower um acordo de cooperação nuclear, e foi criado o primeiro centro de pesquisa nuclear em Teerã. Os EUA favoreceram a formação de físicos nucleares iranianos no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). O primeiro reator nuclear (5MW) foi entregue ao Irã em 1967. Em 1974, o Xá anunciou a criação da Organização de Energia Atómica do Irão e apresentou um plano para a construção de 23 reatores com uma capacidade total de 23 GW, além de um ciclo fechado de combustível nuclear. Segundo o New York Times, “No mesmo ano, o Irã adquiriu uma participação de 10% numa central francesa de enriquecimento de urânio construída pelo consórcio internacional Eurodif por mil milhões de dólares”, bem como um acordo marco “para construir dois novos reatores de 1.200 MW em Bushehr e assinou contratos para o fornecimento de concentrado de urânio (yellowcake) à África do Sul”. A revolução iraniana de 1979 derrubou o governo pró-imperialista do Xá e constitui a República Islâmica, expressão do nacionalismo burguês, que tomou posse da infraestrutura já constituída. A guerra com o Iraque patrocinada pelos EUA visou à derrocada do regime teocrático surgido da revolução nacionalista, e alertou ao então Aiatolá Khomeini da necessidade de reativar o programa nuclear. O Irã obteve do Paquistão (que já possuía a bomba atômica em seu arsenal de guerra) a tecnologia de centrifugação para enriquecimento de urânio, marcando uma fase do programa nuclear. Na mesma época, Israel já possuía armas nucleares e se negava a ser vistoriado pela Agência Internacional para a Energia Atômica (AIEA), mas se impôs seu controle sobre o Irã.
O desenvolvimento da tecnologia nuclear está intimamente ligado ao controle e exploração das fontes de urânio. Não se trata apenas do desenvolvimento de armas, como também de capacidades energéticas que podem acelerar a ruptura do monopólio imperialista sobre as fontes de matérias-primas e estruturas energéticas. Criar-se-iam fissuras no chamado “domínio de espectro integral” (econômico e militar) que o imperialismo precisa para manter no atraso às nações, e assim subjugá-las. É parte desse objetivo a manipulação e controle da AIEA que permite aos EUA, França e Inglaterra ditar as condições e impor limites ao desenvolvimento de energia e capacidades nucleares dos países que ameacem ou entravem de alguma forma seus interesses. Ao controle político e econômico lhe segue o domínio militar, sem o qual o imperialismo está impedido de agir livremente.
Sob ameaças de Israel, já desde 1990, de destruir o regime iraniano e a destruição da Líbia e Iraque, o Irã procedeu a ampliar suas capacidades da indústria nuclear, considerando-a um fator de “segurança nacional”. O que alertou o imperialismo e o sionismo para se preparar para atacar o Irã que não aceitam que o este possua armas nucleares e adquira uma maior capacidade de autodefesa. Suas exigências de pôr sob seu controle o programa nuclear iraniano não diz respeito à “paz” ou a impedir que movimentos terroristas possam tomar posse de bombas atômicas. O objetivo é impedir que um regime que adquiriu uma limita soberania e entrava o expansionismo imperialista possuam a capacidade de armas de destruição em massa, retirando parcialmente a vantagem estratégica no campo da tecnologia e do armamentismo que detém o imperialismo, que se utiliza dessas vantagens para continuar intervindo militarmente nos países e nações oprimidas. Um Irã armado de bombas nucleares obstaculizaria enormemente o objetivo imperialista de transformar todo o Oriente Médio em estados incapazes de se defender e bases das manobras imperialistas contra Rússia e China. Todas as movimentações imperialistas têm por objetivo estratégico cercar esses países, e preparar as condições para intervir contra eles, destruir a propriedade nacionalizada pelas revoluções, derrocar a burocracia herdeira do estalinismo, restaurar o capitalismo e transformar China e Rússia em estados fragmentados, e desse modo, proceder a reconstruir as forças produtivas sob controle do capital financeiro. Nesse processo, os EUA imporão uma nova divisão do mundo que já está esgotada.
Somente de posse dessa compreensão é possível entender a invasão do Afeganistão em 2001, a Invasão do Iraque em 2003, o bombardeio à Líbia por aviões da OTAN e a deposição de Kaddafi, em 2013, como manobras orientadas a resolver pela guerra o choque entre as fronteiras nacionais e as forças produtivas capitalistas. Seguiram a essas intervenções militares o cerco de sanções econômicas ao Irã em 2015, a guerra civil internacionalizada na Síria e a posterior derrubada do governo de Al-Assad. O genocídio palestino é parte dessa estratégia. Esse é o destino que espera o Irã caso as burocracias russa e chinesa não intervenham mais decididamente para ajudar o Irã, inclusive a desenvolver a bomba atômica e aumentar suas capacidades bélicas. Não desconhecemos que o longo desenvolvimento das capacidades iranianas em mísseis não seria possível sem sua ajuda. Vimos como a burocracia russa negociou junto do imperialismo e sionismo a derrocada de Al-Assad para manter seus interesses na região. Sabemos ainda que o Irã é um país burguês coroado por um regime teocrático autoritário. Por isso é que a única força capaz de ajudar à nação oprimida são as massas exploradas e oprimidas organizadas sob o programa e estratégia da luta de classes, sob direção do partido revolucionário.
A caracterização do Irã como parte do “eixo do mal” (junto da Coréia do Norte) e as constantes denúncias de seu regime como ditatorial e opressor das liberdades políticas democráticas e civis, feitas pelo imperialismo, acobertam as ações militares imperialistas. A esse objetivo serve a imprensa monopolista traçando uma caricatura grotesca dos regimes das nações oprimidas que são alvos da rapina imperialista. E a esse objetivo servem também as esquerdas democratizantes e os ditos socialistas que denunciam, em meio aos ataques do imperialismo, o governo iraniano com os mesmos argumentos dos imperialistas, e convocam a uma luta das massas separada e oposta à unidade frentista imediata em defesa da nação oprimida, ainda seja sob direção das forças políticas religiosas e obscurantistas, em nome de valores democráticos criados nas entranhas decompostas do capitalismo e que nada mais é, em última instância, que negar o direito democrático progressivo à autodeterminação.
O perigo para a humanidade e à luta revolucionária não está na independência e soberania do Irã para construir armas de destruição em massa, nem na estruturação social e política surgida da presença dominante do obscurantismo religioso; e sim na posse do imperialismo e de seu enclave na Palestina ocupada das mesmas armas. Foram os EUA que despejaram as bombas nucleares em Nagasaki e Hiroshima. Os EUA que destroçaram a Líbia, Síria, Iraque e Iugoslávia visando estender seu domínio mundial. A sobrevivência do capitalismo só traz guerras, destruição de nações e povos, e a completa barbárie. Não haverá no capitalismo nem desarmamento e nem paz porque esse regime decomposto aperfeiçoou os instrumentos de destruição visando a opressão de classe e de um povo sobre o outro, destruindo as fronteiras nacionais segundo os interesses do capital financeiro. E sobretudo para abrir caminho à destruição das economias nacionalizadas pelas revoluções e os estados Operários degenerados. A imensa capacidade destrutiva do imperialismo está a serviço dos lucros capitalistas. Eis porque defendemos o direito do Irã a possuir armas nucleares como um meio para a defesa da nação oprimida.
A política revolucionária começa pelo desmascaramento da bandeira imperialista da “paz pela força” e do pacifismo e desnuclearização das nações como contrarrevolucionária, uma declaração cínica do direito do imperialismo e aliados a fazer intervenções militares em qualquer lugar do mundo. Por isso, não deve haver vacilação na defesa da nação oprimida contra seus opressores, nem ditar condições àquela que sirva de instrumento ao imperialismo e ao democratismo pequeno-burguês. Não deve haver vacilação tampouco ao redor da bandeira do direito do Irã a desenvolver a tecnologia nuclear em todos seus processos e conquistar seu desenvolvimento integral sem qualquer imposição do imperialismo.
Cabe ao proletariado e demais oprimidos defenderem intransigentemente o Irã e lutar junto desse para derrotar o imperialismo e sionismo exigindo o armamento geral das massas árabes para derrotarem seus governos serviçais, abrindo assim o caminho a uma luta anti-imperialista. É a hora da unidade frentista na luta pela derrota do imperialismo, e não de ditar as condições políticas e organizativas às nações oprimidas, o que equivale a enfraquecer a frente unitária das massas sob o objetivo da vitória da nação oprimida. Mas, somente a ação internacionalista e desenvolvendo o programa e estratégia proletárias fortalecerá o avanço da luta revolucionária do proletariado que, instaurando sua ditadura e criando as bases sociais políticas para erradicar a opressão nacional, unificará às nações libertadas das cadeias da exploração e da propriedade privada por meio da cooperação e sua integração em um sistema econômico superior, avançando na transição ao socialismo que sentará o terreno firme para a extinção e destruição de todo o arsenal militar de destruição em massa.