
O Internacionalista n° 30 / agosto de 2025
Editorial Nacional
Lula recorre à retórica da defesa da soberania nacional para ocultar sua política pró-imperialista e de submissão ao capital financeiro internacional
As direções sindicais e populares utilizam da farsa da defesa da soberania nacional da burguesia para começar as campanhas eleitorais, abortando e traindo as lutas e greves dos assalariados e favorecendo os ataques dos patrões.
Os últimos acontecimentos em torno da guerra comercial entre os EUA e a China, com implicações diretas ao Brasil por meio do “tarifaço” de Trump, serviu, dentre outras questões, para demonstrar que toda e qualquer análise marxista séria partiria da evidência histórica de que nenhum governo burguês/pró-imperialista ousaria defender de fato a soberania nacional contra as ofensivas imperialistas, mas sim buscaria trilhar o caminho das negociações interburguesas, na tentativa de minimizar os impactos mais imediatos das medidas, para a própria burguesia, sem desconsiderar a possibilidade de entregar riquezas nacionais, recursos ou abrir vias para a negociação de aspectos de interesse do imperialismo que ainda podem ser exploradas e, se necessário, repassar a conta aos trabalhadores com mais desemprego e subemprego, garantindo os interesses gerais das frações burguesas.
Apesar dessa evidência concreta, bastou o governo Lula levantar a farsa da bandeira de defesa da soberania nacional e ensaiar algumas bravatas de possíveis retaliações a Trump, para toda a esquerda reformista e centrista sair correndo para impulsionar essa farsa e, por consequência, acabar alavancando, direta ou indiretamente, a campanha eleitoral de Lula para 2026. Um exemplo concreto foi demonstrado na reunião do conselho geral do SINPEEM (nota na pág. 14), em que a burocracia Pcdobista e demais correntes ditas de oposição (PT e PSOL) transformaram uma instância deliberativa da classe em comitê organizativo para o ato governista que ocorreria na mesma semana. As correntes centristas (PSTU/POR) não ficaram de fora do guarda-chuva da defesa da soberania nacional, apenas usaram o “verniz revolucionário” de se incorporar a essa luta impulsionando os métodos da luta de classes.
O que essas correntes reformistas e centristas ocultaram em seus discursos, é que as imposições tarifárias de Trump não representava nenhum ataque direto à soberania nacional, representa mais uma das inúmeras medidas em torno da guerra comercial dos EUA contra China e Rússia. E que a utilização de Bolsonaro não passou de chantagem de Trump, dentro do campo eleitoral, pois sabia que esse era um terreno fértil para alcançar o que realmente almejava. Basta verificar que Haddad já abriu uma janela às negociações sobre minerais e terras raras que favorecem o imperialismo.
Assim, Trump de fato conseguiu preparar o terreno para avançar no seu objetivo real, as terras raras do Brasil, que como já afirmamos acima o governo pró-imperialista não colocará empecilhos para mais essa entrega, o que comprova justamente o contrário dos seus discursos eleitoreiros, já que o governo de frente ampla caminha a passos largos na contramão da defesa da soberania nacional, conforme demonstrado por outras tantas medidas de ataque a economia nacional, a exemplo do “PL da devastação” (nota pág. 6), que entregará de bandeja as multinacionais ligadas ao agronegócio à exploração desmedida das reservas naturais, ampliando demasiadamente a devastação da floresta Amazônica e colocando em risco a sobrevivências das comunidades tradicionais (indígenas, ribeirinhos, quilombolas e camponeses). Outras medidas comprovam que Lula está na contramão da defesa da soberania nacional, conforme demonstramos nas demais notas do OI nº30.
Contudo, as inúmeras medidas de ataque do governo contam com a colaboração direta das direções das centrais sindicais (CUT/CTB/Força) e dos grandes sindicatos do funcionalismo, a exemplo da APEOESP, SINPEEM, SINPRO-DF e outros. Reivindicações imediatas das massas assalariadas contra a exploração capitalista, como o fim da escala 6×1, também foram retiradas da luta nas ruas e nos locais de trabalho para impor o fim dessa jornada estafante por meio da luta de classes, para ser colocada na forma de plebiscito que servirá às manobras parlamentares do governismo. Isso enquanto se acoberta o entreguismo de Lula em leiloar dezenas de jazidas para a exploração de petróleo pelas multinacionais, atingindo e negando as condições de vida e interesses dos povos originários. A continuidade da política fiscal de retirar recursos e orçamentos dos serviços públicos e de salários e aposentadorias do funcionalismo, para entregar ao parasitismo financeiro imperialista sobre o país, por meio do Arcabouço Fiscal, é a imagem mais nítida do servilismo do governo Lula ao capital imperialista. A isso serve ainda a Reforma Administrativa impulsionada pelo governo, como mostramos na nota na sequência.
Como mostramos, o governo de frente ampla burguesa é incapaz de defender a soberania nacional. Se utiliza dessa retórica como manobra para lançar e projetar sua campanha eleitoral para 2026. Se de um lado as medidas tarifárias atingem menos do 1% do PIB nacional, mostrando que é possível contornar essas medidas auxiliando os capitalistas por meio de ataques às massas (lay-off, banco de horas, demissões, férias coletivas); de outro, se utiliza da disputa comercial como base para preparar a disputa interburguesa. Após a prisão domiciliar de Bolsonaro, a ultradireita e seus aliados da direita ocuparam o plenário da Câmara de Deputados para exigir que se votasse a lei da anistia, que visa garantir a candidatura de Bolsonaro. A subordinação do bolsonarismo às medidas de Trump demonstram sua subordinação a um governo estrangeiro, capitulação traidora que também serve à disputa eleitoral. Nada se discute de interesse imediato dos explorados e nenhuma medida aprovada pelo governo, com apoio dos partidos direitistas no Congresso, são sempre do interesse dos capitalistas, embora se manifeste no campo da disputa eleitoral como divisão de suas frações. É a esse jogo interburguês que se subordinam as direções sindicais e políticas, que inclusive abortam e traem greves que acabam impondo os interesses da burguesia contra os assalariados. Qualquer acomodação à retórica do governo serve à disputa eleitoral, onde nenhum interesse dos explorados será resolvido.
Não há saída em favor dos assalariados por meio da democracia burguesa, e nem se subordinando à retórica farsesca de defesa da soberania colocada pelo governo burguês de Lula. Pelo contrário, a tendência é de maior ataque às conquistas trabalhistas, a exemplo da reforma administrativa que tramita no congresso bem como do não cumprimento de suas promessas de campanha em relação aos assentamentos reivindicados pelo MST (nota pág. X). Se Lula fosse realmente pela soberania nacional, para decidir sobre seus recursos e comercialização, cortaria todo envio de petróleo para o genocídio sionista, financiando Israel que não passa de enclave do imperialismo para seus lucros no Oriente Médio, ajudando ainda a frear o holocausto contra os palestinos.
A vanguarda que se reclama do marxismo e da luta de classes deve dar as costas à farsa da defesa da soberania nacional que serve, precisamente, para reforçar as cadeias de submissão do país ao imperialismo e que irá desgraçar ainda mais as massas. A cada ameaça imperialista se deve responder com uma medida real em defesa da soberania. A defesa da independência de classe passa, assim, por defender nos movimentos e nos sindicatos a política proletária que exige a organização da luta coletiva pelas reivindicações, impondo-as por meio da luta de classes, contra o parasitismo e os lucros dos capitalistas. Passa ainda pela defesa da estatização (sem indenização) das empresas norte-americanas e sua estatização, sob controle operário coletivo, e pelo controle e monopólio do estado sobre o comércio exterior.
Somente o governo operário e camponês, surgido da revolução proletária, aplicará medidas efetivas em defesa da soberania nacional, que somente pode ser consumada expulsando e expropriando o imperialismo. Apoiar o governo burguês e se subordinar a suas campanhas eleitorais, é se colocar na contramão dos interesses nacionais.
