
O Internacionalista n° 30 / agosto de 2025
Editorial Internacional
Europa capitulou aos EUA na guerra comercial sob o objetivo imperialista da derrota da Rússia e da China
A guerra comercial precede ao agravamento das tendências bélicas. Com cada abalo da economia capitalista projetam-se o armamentismo e o militarismo imperialista. As nações semicoloniais se vêem arrastadas por esse furacão, sobretudo, as que apoiam e submetem ao imperialismo, de um lado, e as que dependem dos estados operários degenerados russo e chinês, de outro. Também estão aquelas nações semicoloniais que procuram tirar da crise vantagens imediatas desses choques (Índia, Turquia e, em menor grau, Brasil), negociando acordos em separado com uns ou outros adversários e rivais.
O principal destaque da situação política foi a capitulação da Europa aos EUA. A representante da União Europeia (UE), Ursula von der Leyen, acabou aceitando envergonhada as imposições de Trump. As importações europeias terão tarifa única de 15% (a metade dos 30% inicialmente imposto por Trump), embora mantendo 50% para aço e alumínio. Além disso, a UE será obrigada a investir até U$ 600 bilhões de dólares nos EUA em compra de armas, e U$ 750 bilhões em recursos energéticos dos americanos pelos próximos anos. Quanto às importações dos EUA para a Europa, a maioria foi taxada em menos de 1%. Algumas tarifas ficarão em “zero por zero” (sem taxação recíproca), especialmente aeronaves e peças de aeronaves, químicos, medicamentos genéricos etc. Para piorar, serão apagadas inúmeras legislações europeias que restringiam a entrada e comercialização de produtos norte-americanos (a exemplo da legislação para produtos e bens “não-poluentes” e “eco-sustentáveis”). A mais atingida pelo acordo é a Alemanha, que sai enfraquecida em seu choque comercial com os EUA ao ver seus produtos e manufaturas perderem competitividade e seus mercados estreitados. A destruição do Nord Stream II em 2022 por comandos norte-americanos e europeus aliados, que foi realizado para acusar à Rússia de sabotagem à Europa, fechou a torneira de energia barata e acessível vinda da Rússia para Europa. Sua destruição foi claramente um ato de guerra dos EUA contra seus “aliados”.
A Europa passará a encher os cofres estadunidenses à custa de empobrecer sua economia, destruir serviços sociais, anular subsídios ao desenvolvimento econômico e rebaixar ao mínimo as condições de vida das massas. Essas são as que de fato pagarão o “tributo” oferecido à norte-americana. Todavia, o acordo poderá abrir passagem às tendências centrífugas do bloco europeu. Os governos da Hungria, Eslováquia, Sérvia e França denunciaram o acordo como “traição” aos interesses europeus e nacionais. A dissolução da União Europeia é há muito almejada por Trump, que apoiou o Brexit que lhe permitiu impor à Inglaterra sua subordinação aos EUA. Possíveis novas rupturas seriam bem-vindas, porque isso aumentaria o poder de imposição dos EUA contra estados fragmentados e isolados. A Europa não tem coragem de reagir à violência e imposições de seu aliado se a alternativa é o confrontar. A burguesia europeia não tem nem a disposição política e nem forças econômicas para isso. A UE rasgou grande parte das relações comerciais com a China para agradar aos EUA e em troca de armas para a Ucrânia. Agora, pagará o dobro e até três vezes a mais pela energia e recursos que consumia da Rússia. A UE jogou no ralo a estratégia aprovada em 2000 de se transformar na economia “mais competitiva do mundo”.
Confirmou-se nosso prognóstico da Editorial Internacional do jornal anterior (OI n° 29, julho de 2025). Eis: EUA “aproveitam-se da decadência e fraqueza europeias para ditar o rumo de sua política comercial e, especialmente, obrigar o imperialismo europeu a assumir os maiores custos econômicos, sociais e políticos da guerra travada pela OTAN contra Rússia”, no qual “os EUA se reservam o papel de provedor de armas e munições e o comando estratégico das operações por meio da OTAN”. Capitais europeus “fluirão para as indústrias norte-americanas, garantindo a elevação da produção e os lucros monopolistas nos EUA à custa do empobrecimento e da contínua desindustrialização da Europa”.
Esse é o resultado da progressiva perda da soberania europeia para decidir sobre seus recursos, orçamento e decisões econômicas. Continua dependente dos EUA como em 1945 (Acordo de Potsdam). A diferença radica em que não é objetivo dos EUA fortalecer as economias nacionais da Europa – ainda menos da Alemanha – e sim agravar sua desagregação e colocar uma cunha que leve a desintegração da unidade capitalista da Europa. Os EUA impuseram um novo Plano Marshall. Como no passado, eles decidem a quota parte que lhe toca nos mercados, quais os preços de suas mercadorias e como gastar seu orçamento. Como no passado, se recorre ao “perigo” russo – desprovido das tintas vermelhas do comunismo – para alcançar esse objetivo. A Europa paga e pagará um alto preço por puxar debaixo do tapete os conflitos inter-imperialista e se aliar aos EUA no objetivo comum da derrota da Rússia e China.
Outro aspecto destacado é que os construtores do “mercado global baseado em regras” são hoje os que dinamitam seus fundamentos, enquanto a China é sua mais ferrenha defensora. Este país se transformou na principal produtora industrial criadora de novos valores e, cada vez mais, de alto valor agregado nos produtos e bens de alta tecnologia. Conta não apenas com a vantagem de salários mais baixos e sua alta produtividade pela inclusão de maquinaria e robótica na produção (aumento da composição técnica e orgânica do capital), como matérias-primas e recursos energéticos mais baratos que os dos EUA e da Europa graças ao petróleo e gás russo. São essas condições que fazem hoje da China o carro-chefe do desenvolvimento relativo de forças produtivas mundiais. Basta ver que os EUA e a Europa não são mais a principal fonte de criação de patentes e maquinaria, de investimentos maciços em eletrificação etc.; e sim a China, para esse fato ser confirmado. Mas, isso acontece à costa de que as forças produtivas capitalistas sediadas nas potências imperialistas retrocedem e decompõem.
Verifica-se mais uma vez a potencialidade de um estado operário – ainda que degenerado – e dos métodos de racionalização e centralização econômicas – ainda que limitados pelos métodos burocráticos –, quer dizer, das forças produtivas desenvolvidas sobre a base da propriedade nacionalizada pelas revoluções em comparação à atuação cega da lei de valor e da anarquia da produção capitalistas das economias capitalistas e das forças produtivas monopolistas privadas. A destruição da propriedade nacionalizada e sua reconstrução parcial sob controle do capital financeiro exigem a derrubada da burocracia (por meio da guerra civil ou da intervenção externa), desmembrar a China e a Rússia, as reintegrando ao capitalismo como semicolônias. É um elo nessas movimentações imperialistas estrangular as trocas comerciais que favorecem à China, fechando as rotas comerciais que favorecem seu desenvolvimento, como o Canal de Panamá, ou fechar a Ásia como se verifica hoje no corredor Zangezur (ver nota pág. 26). Eis como o capitalismo poderá sobreviver à crise. Não é por acaso que o acordo entre EUA e Europa permite continuar a guerra na Ucrânia. Esse é o fundamento da guerra comercial se projetar em militar com cada novo fracasso do capitalismo em resolver sua crise.
A crise também abre uma via às revoluções proletárias. Daí a importância, a necessidade e a urgência do trabalho de reconstruir a direção revolucionária mundial do proletariado e erguer os partidos proletários revolucionários em cada país, sobre os princípios, fundamentos, a teoria e métodos da luta de classes e do internacionalismo proletário. Contra a guerra promovida pelo imperialismo se deve opor a guerra civil travada pela classe operária contra a burguesia, sob o programa da revolução social. Na guerra promovida pelo imperialismo contra Rússia estamos junto dessa, apesar de seu governo, visando preservar com a derrota do imperialismo a propriedade nacionalizada e abrir caminho à derrubada da burocracia pelo proletariado russo sob o Programa da Revolução Política. A alternativa a esse programa mundial o proletariado leva, inevitavelmente, à abstração teórica ou pior, ao apoio do imperialismo.
