O Internacionalista n° 30 / NOTAS INTERNACIONAIS / agosto de 2025


Este texto apresenta os aspectos históricos, econômicos, sociais e políticos mais relevantes que deram seu conteúdo nacional ao processo revolucionário no Irã. Conhecer essa realidade e suas contradições é decisivo a hora de elaborar a linha da defesa da nação oprimida. Somente assim é possível desenvolver uma tática marxista desprovida de todo preconceito democratizante burguês, não desprezando e sim compreendendo dialeticamente as particularidades da cultura e das relações sociais que não cabem no receituário de intelectuais educados nos preconceitos democrático-burgueses.
Não pretendemos esgotar o estudo e análise desse processo. Novos artigos deverão desenvolver as especificidades e particularidades. Entretanto, pretendemos neste texto apresentar aqueles aspectos que nos aproximam do conhecimento geral desse processo visando fundamentar a crítica às correntes que se reclamam do marxismo, que publicamos em anexo a esta nota na página 31 deste jornal.


A CIA organiza um golpe em 1953 contra o governo de Mossadegh e impôs a Reza Pahlavi como Xá

O Irã tem 92 milhões de habitantes – a maior população do Oriente Médio, está localizado no centro de rotas estratégicas e possui um litoral marítimo por onde passa um quinto dos navios de transporte de petróleo e gás. Possui ainda 10% das reservas mundiais de petróleo (a terceira maior), 15 % das reservas de gás (a segunda maior) e grandes recursos minerais e terras aráveis. Circunstâncias que fazem do país um território cobiçado pelo imperialismo para controlar as matérias-primas, rotas comerciais e a região. Após a Primeira Guerra Mundial, o Irã foi subjugado pela Inglaterra que controlava a produção petrolífera por intermédio da Anglo-Iranian Oil Company (mais tarde BP). Após a Segunda Guerra Mundial, seriam os EUA que passariam a submeter e controlar o petróleo iraniano e ao país.
A Anglo-Iranian Oil Company perdeu seu controle monopolista sobre os recursos petrolíferos quando o Parlamento iraniano votou, em 1951, pela nacionalização da indústria petrolífera. O principal defensor dessa medida, Mohammed Mossadegh, foi eleito primeiro-ministro do país um ano depois. À época, os EUA começaram a deslocar a Inglaterra do Oriente Médio. Em 1953, se organizaria por intermédio da CIA um golpe de estado que derrubaria Mossadegh e colocaria Reza Pahlavi no poder, restaurando a monarquia. Uma das primeiras medidas do governo preposto foi anular a nacionalização da indústria do petróleo e gás. Segundo o New York Times (06/08/1954), os países “subdesenvolvidos com ricos recursos agora têm uma lição objetiva sobre o alto custo que deve ser pago por um deles que se descontrola com o nacionalismo fanático. Talvez seja esperar demais que a experiência do Irã impeça a ascensão de Mossadeghs em outros países, mas essa experiência pode pelo menos fortalecer a posição de líderes mais razoáveis ​​e com maior visão de futuro”. Uma declaração cínica do que aguardava aos governos que intentassem exercer a soberania sobre recursos e terras cobiçadas pelo imperialismo.


O Xá torna-se em um serviçal das manobras dos EUA e do sionismo

Israel se constituirá em um importante aliado do Xá constituindo o que, segundo documentos desclassificados de 1966, era uma “aliança secreta não escrita que confere a Israel uma série de vantagens nas áreas de economia, segurança, Oriente Médio e anti-Nasserismo”. O regime monárquico, sobretudo, garantia acesso a Israel (via os EUA) de petróleo barato, que uma vez cobertas suas necessidades era depois revendido a outros países a preços mais elevados. Entre 1968 e 1972, o Irã comprou US$ 63 milhões em armas de Israel. Israel também ajudava na organização e treinamento da SAVAK (polícia política) junto da CIA. A monarquia do Xá transformaria o país em uma base de manobras dos EUA, mas também de Israel e Arabia Saudita, para garantir seu controle sobre toda a “Ásia ocidental” e contra a URSS. A esse objetivo servia a chamada “Doutrina Nixon” que reconstruiu o exército iraniano para servir de polícia dos EUA no Golfo Pérsico. Quando o sultão de Omã, Qabus bin Said Al Said, achava-se cercado pela revolta de um movimento de feições marxistas inspirado na revolução iemenita (ver no OI n° de fevereiro de 2024, a nota Passado e presente das lutas anti-imperialistas no Iêmen) na província de Dhofar, em 1970, quando as tropas britânica foram insuficientes para vencer foram deslocadas para Omã as tropas iranianas. Na guerra de junho deste ano, o filho do Xá deposto em 1978, apresentava-se em meios aos ataques sionistas como alternativa democrática ao regime dos Aiatolás. Como o pai, o “herdeiro ao trono” se mostrava um títere ao serviço dos opressores do povo iraniano.


A monarquia entrega o país aos EUA e afoga as massas na pobreza e na repressão

Em 1963, foi implementada a chamada “Revolução Branca” do Xá que, basicamente, consistia em um programa econômico orquestrado para os EUA tomar posse definitiva das riquezas naturais do país. Criou-se para isso um consórcio de empresas norte-americanas que controlava a produção e exportação petrolíferas. 40% dos lucros eram apropriados pelos EUA, e uma porcentagem menor se repartia entre empresas francesas e inglesas. Ao estado lhe era garantido metade das rendas pelas exportações de petróleo e gás para que se comprasse armas dos EUA, e se espalhasse as migalhas sobrantes para setores da burguesia nacional que deviam constituir um firme apoio social ao governo preposto.
Enquanto os EUA, a monarquia e setores da burguesia enriqueciam, 70% da população iraniana era pobre e 55% vivia praticamente na mais absoluta miséria. Os camponeses eram incapazes de sobreviver e migraram em massa para as cidades onde se juntavam às fileiras dos desempregados. A acelerada urbanização criou escassez de moradias e agravou as já péssimas condições de vida. Para impedir a revolta das massas, foi criada a SAVAK pela CIA e Israel. Produto da brutal repressão, a Frente Nacional, o partido de Mossadegh, e o Partido Comunista Tudah (Massas) se viram dizimados. Dezenas de milhares de iranianos foram presos, centenas assassinados ou condenados à prisão perpétua. Os sindicatos estavam proibidos de se organizar pelas suas reivindicações. A livre expressão era inexistente e as reuniões e assembleias eram objetivos da violenta repressão e censura. As lideranças religiosas xiitas eram vigiadas e submetidas a brutais condições de censura e perseguição política.


Projeção das divisões inter-burguesas e dos antagonismos de classe

A monarquia pró-imperialista se propôs implementar a “ocidentalização” forçada da cultura e da vida nacional, criando assim um conflito violento com a cultura e religião islâmica que permeiam todas as relações políticas, sociais e civis por séculos no país. Esse processo levaria os clérigos xiitas e intelectuais a combater a “ocidentalização” à que denunciavam como uma política de estrangerização e opressão.
É nesse quadro que o surgimento de uma burguesia nacional seria imediatamente marcada pela divisão e choques inter-burgueses. Frações apoiavam o regime do Xá e a violenta repressão porque seus lucros e negócios estavam diretamente associados ao controle imperialista da economia. Outras frações passaram a considerar à nacionalização uma via para conquistar uma maior autonomia e expandir seus negócios. Essas frações procuraram se aliar aos clérigos e setores da burocracia estatal que se orientavam a cumprir esse objetivo, passando a usar o xiismo como cobertura ideológica para seus interesses de classe. Essas frações constituem hoje a principal base do regime nacionalista teocrático.
A industrialização e investimentos estrangeiros criaram um concentrado e numeroso destacamento operário na indústria petrolífera, metalúrgica, têxtil etc. Portanto, as condições para que a luta grevista pelo melhoramento das condições de vida e trabalho ganhasse uma projeção nacional. Junto da burguesia raquítica e dependente do estado surgia um proletariado numeroso, concentrado e marcado pela exploração imperialista. Por sua vez, a liquidação das relações de propriedade feudais não libertou aos camponeses pobres da miséria e colocou aos camponeses que tinham terras para produzir excedentes sob controle e exploração dos grandes comércios e bancos associados ao imperialismo.


A classe operária iraniana antes da revolução

Nos começos do século XX, os imigrantes iranianos na Rússia representavam 5% dos trabalhadores no Cáucaso e 50% dos petroleiros em Baku. Eram ativos na formação de sindicatos social-democratas. Em 1918, deflagram as primeiras greves econômicas e políticas (liberdade de organização sindical e de manifestação). Em 1920, havia no país mais de 20 mil operários sindicalizados. O regime do Reza Xá (pai de Reza Pahlavi) proibiu as manifestações e os sindicatos. Os operários começaram a recorrer à luta e organização clandestinas, o que projetou sua radicalização política. Eis porque já em começos de 1930, o Partido Comunista iraniano recém-formado ganhou grande projeção e, junto de outras organizações (anarquistas e islâmicas), realizou a primeira greve geral da indústria petrolífera contra o saque dos recursos pelos monopólios imperialistas. Em 1935, o movimento operário arrefeceu tanto pela atitude criminosa do PC que freava as lutas que ameaçassem a convivência pacífica da URSS com o imperialismo, como pelas consequências da crise econômica que dispersava e enfraquecia o operariado.
Em 1943, foi criado o Conselho central unitário dos sindicatos reunindo entre 300 mil e 400 mil filiados. Fortalecida, a classe operária iraniana arrancou com greves e manifestações do governo algumas leis e direitos trabalhistas. Lutas unitárias se espalharam pelo país reivindicando aumento de salários, jornada de 8 horas, ferias pagas, aposentadorias, licencia maternidade, livre sindicalização e proibição do trabalho infantil. Exigiam ainda o fim do controle dos EUA sobre os assuntos internos do país. Rapidamente, o governo “republicano” que sucedera à monarquia de Reza Xá começou reprimir brutalmente as greves. Mas, não conseguiu apagar as tendências de luta e nem romper a unidade cada vez mais ampla com os movimentos e minorias nacionais que somavam-se à luta contra o imperialismo.
Assim, logo após a Segunda Guerra Mundial, as greves voltam à cena e confluem com a luta de estudantes e intelectuais por direitos e combinam-se as crescentes reivindicações das minorias nacionais por autonomia, o que finalmente levariam à conquista de leis trabalhistas e do voto feminino. Porém, com o golpe de 1953 e a constituição do regime monárquico fantoche dos EUA, mais uma vez declaram-se ilegais as “agrupações de ideologia coletivistas” e as atividades sindicais e manifestações foram submetidas aos tribunais militares. Restabelecia-se a lei 1931 do Rezha Xá que fora revogada pelos governos “republicanos” nacionalistas. Mas, já não havia como apagar do cenário nacional a crescente unidade nacional e o papel da classe operária na luta contra a opressão nacional.


As greves operárias e a luta armada se combinam para abrir caminho à revolução

Para fins da década de 1970, estavam plenamente desenvolvidas as condições de uma luta anti-imperialista unificada da maioria nacional contra a monarquia e o imperialismo. Entretanto, com os partidos comunista e nacionalistas praticamente desarmados, surgiram organizações que recorriam à roupagem religiosa do xiismo para canalizar o ódio de classe e nacional das massas contra seus opressores. Surgiram protestos e greves, mobilizações eram organizadas, milícias jihadistas combatiam o exército e os estudantes iranianos nos EUA gritavam “O Xá é um fantoche dos EUA, abaixo o Xá!”.
A crise petrolífera da década de 1970 deu novo impulso às lutas operárias no Irã (greves no setor petrolífero, têxtil, metalúrgico, alimentos etc.), as que viriam se combinaram ao avanço das milícias islâmicas no campo contra o regime, e, sobretudo, ao crescimento da influência dos clérigos xiitas entre a população. O fortalecimento da luta operária combinar-se-ia com a expansão da influência religiosa como “cobertura nacional” da luta das massas nacionais contra a dominação estrangeira.
Um movimento nacional reunindo clérigos, estudantes, operários, intelectuais, comerciantes, minorias étnicas e organizações marxistas e jihadistas constituíram as bases de uma frente única para a destruição do regime imposto pelos EUA. A decomposição stalinista do PC, a impotência dos nacionalistas “republicanos” e a ausência de uma direção revolucionária mundial capaz de desenvolver o programa e estratégia proletárias no país, convergiram para colocar na liderança do levante operário e popular ao aiatolá Ruhollah Khomeini, que destacava por seus chamamentos a derrubar a monarquia e expulsar o imperialismo. 90.000 mesquitas reproduziam seus chamamentos por todo o Irã, o que junto a profunda relação histórica do xiismo com as massas oprimidas iranianas, acabaria fazendo dos clérigos a direção ideológica da revolução nacionalista que se projetava.


Khomeini assume o poder no Irã

Em 1979, a revolução triunfa e o Xá foge. Se nacionalizou mais uma vez a indústria petrolífera e as empresas estrangeiras foram expulsas. Os EUA saíram derrotados pelas massas insurretas. 12 anos depois do imperialismo conseguir uma “mudança do regime”, a revolução colocava no poder do estado um outro regime mais radicalizado em suas medidas e que acabaria unificando toda a nação.
Mergulhadas na pobreza, proibidas de realizar manifestações e combatendo contra a “ocidentalização” forçada instituída pelo Xá, o xiismo comparece como um instrumento do qual se valeram as massas na luta contra a dominação estrangeira, sobretudo, por seu forte enraizamento na cultura e na vida civil. Com o PC sendo denunciado pelos clérigos como expressão da “ocidentalização” e inimigo dos ensinamentos religiosos, e não existindo a direção revolucionária capaz de expressar a revolta das massas sob o programa e estratégia da revolução e ditadura proletárias, o xiismo se impôs como cobertura ideológica acessível às massas para lutar contra a monarquia pró-imperialista. E assim, em 11 de fevereiro de 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini assume como líder da Revolução Islâmica.
O New York Times, em uma nota de 11 de março de 1979, mais uma vez demonstra quanto os EUA estavam alheios aos processos da luta de classes do país, e desconhecia as profundas relações entre religião e as massas sendo incapaz ainda de prever ou entender a causa de sua derrota. Eis: “Como pôde o Irã, com seu petróleo e sua situação estratégica entre a União Soviética e o Golfo Pérsico, entre a Europa e o Oriente Médio, cair sob a influência de um homem santo vindo das brumas do século XIII? Como pôde o xá, um monarca que comandava mais tanques que o Exército Britânico, mais helicópteros que a Primeira Cavalaria dos Estados Unidos no Vietnã, ser tão habilmente forçado a deixar o poder?”


Permanência da luta de classes sob o regime teocrático dos Aiatolá

Constituída a República Islâmica, a ala direita do clero xiita dirigida pelos ímãs, e em cuja cabeça estava Khomeini, se alia à burguesia e setores da burocracia estatal do regime deposto para tomar as alavancas do comando do estado. As estatizações e a entrega das terras aos camponeses pobres e sem-terra se colocaram como necessidade ao clero, à alta patente militar e à burguesia, para garantir seu domínio sobre o conjunto da nação. Porém, após a “revolução”, como toda religião ligada ao estado burguês, o xiismo se tornou em um instrumento da opressão sobre as minorias e da exploração de classe em proveito da burguesia, clérigos e altas patentes militares. Eis porque o regime dos aiatolás se mantém em pé por meio da repressão interna contra a luta das massas por suas reivindicações e, sobretudo, pela sua subordinação à burocracia russa e chinesa que lhe garantem recursos e tecnologia militar para permitir uma limitada soberania nacional perante a ofensiva imperialista, e cria as condições da dependência do país do apoio russo e chinês que utilizem o país para suas manobras.
Mas, está claro que a consolidação do regime teocrático não apagou a luta de classes. Está colocada historicamente a luta do operariado pela estratégia da revolução e ditadura proletárias. Entretanto, e apesar do “ódio que possam ter contra o regime, as massas nunca devem favorecer o intervencionismo imperialista, ou que se imponham os interesses do capital financeiro internacional”. Essa distinção delimita a posição dos revolucionários de todos aqueles que se dizendo marxistas agem e defendem posições que favorecem as movimentações imperialistas contra a nação oprimida. Se bem sabemos perfeitamente que a revolução proletária é que libertará definitivamente o país da opressão nacional e da exploração de classe elevando o proletariado ao poder aliado dos camponeses, colocando ainda a religião como assunto da vida privada dos indivíduos, como marxistas também sabemos que não é possível desenvolver essa estratégia desconhecendo as contradições e particularidades do processo histórico iraniano, sem qual não há como elaborar uma posição clara em defesa da nação oprimida.
Está aí porque os marxistas devem apoiar incondicionalmente à luta da nação oprimida e, nesse estrito sentido, estar conjunturalmente ao lado do regime sem compactuar com sua política, programa e medidas. É derrotando do imperialismo e defendendo o direito da população iraniana a decidir por si mesmos sobre seu país e seu governo que um partido verdadeiramente revolucionário criará as condições para a estratégia proletária ganhar a confiança das massas, e seu direito de conquistar sua direção na luta contra a burguesia nacional e os clérigos xiitas que as oprimem e empobrecem.