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O Internacionalista n° 30 / MOVIMENTOS / agosto de 2025


Após a aprovação do dia 12 de abril como o Dia da Amizade Brasil-Israel, caiu no colo de Lula o projeto de lei. A decisão no Senado foi unânime, ou seja, contou com o apoio de toda a bancada petista. Apesar dos choramingos e ilusões de setores da base petista, Lula não vetou. Assim, coube a David Alcolumbre (União Brasil-AP), de origem judaica e fortes laços com entidades sionistas do país, promulgá-la. Agora passará a constar no calendário oficial do Estado e as comemorações serão promovidas. Tanto a aprovação unânime no Senado (com apoio dos petistas), como a indisposição de Lula a vetar a lei, indicaram de forma clara a cumplicidade de Lula e do PT como partido com o genocídio palestino.
Lula declarou por inúmeras vezes que o que acontecia na Palestina era genocídio. Mas, suas atitudes e sua política de estado são antagônicas às suas declarações. Assim como são suas declarações e bravatas em defesa do meio-ambiente e da soberania nacional ao leiloar a exploração de petróleo na Foz da Amazonas (passando por cima dos povos originários), apoia o Congresso que passa leis que destrói a natureza e implementa o Novo Arcabouço Fiscal (Lei Complementar 200/2023) que repassa recursos da saúde e educação para o parasitismo financeiro, enquanto impulsiona a precarização e terceirização no funcionalismo (Reforma Administrativa) com o mesmo objetivo.
O presidente da Federação Árabe-Palestina do Brasil (Fepal), mostrou-se decepcionado, sobretudo, pelo Brasil considerar manter relações com um estado acusado de crimes de guerra e genocídio pela Corte Internacional de Justiça (CIJ). Breno Altman, que tem se destacado por sua irredutível posição antissionista, disse estar decepcionado. Pelas Vozes Judaicas por Libertação, Shajar Goldwaser, afirmou que a inação de Lula é uma “catástrofe para o povo palestino”. O Núcleo Palestina do PT, o grupo Boicote Desinvestimento e Sanções (BDS) e o MST não se manifestaram condenando Lula pela situação. Não obstante, se fazem de desentendidos por Lula discursar e prometer de tudo, para depois fazer o contrário do prometido, ludibriando suas bases eleitorais com o espantalho do fascismo. Ou que possa inclusive rasgar a obrigatoriedade do estado brasileiro de se subordinar às leis internacionais ao continuar estabelecendo relações de todo tipo com um estado genocida.
E isso se passa no momento em que se conhece o relatório de Francesa Albanese (relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para os territórios palestinos ocupados por Israel) em que se detalha a participação da Petrobrás na denominada “economia do genocídio”, na qual empresas lucram bilhões com as anexações, crimes de apartheid, a limpeza étnica e deslocamento forçado dos palestinos. Um exemplo dessa “economia do genocídio” é a parceria entre Alphabet Inc (Google) e a Amazon para armazenamento de dados em nuvem pelo Ministério da Defesa de Israel, com investimentos de US$ 1,2 bilhão, visando o controle populacional e identificação de “potenciais” alvos de ataques. O Brasil exportou 51% a mais de petróleo para Israel em 2024, nada indica que este ano seja diferente.
Segundo a Petrobrás, não há qualquer responsabilidade da empresa na venda de petróleo, que são de “responsabilidade” da britânica BP e da norte-americana Chevron. O que é desmentido pela Nota 59 do relatório no qual se assinala a Petrobrás como responsável da exportação de combustível militar para jatos israelenses (que bombardeiam e massacram palestinos às centenas todas as semanas). Por outro lado, não é possível ocultar que a Petrobrás é operadora e parceira na exploração dos poços dos quais se provém de petróleo a BP e a Chevron. Tampouco se pode ocultar que o estado brasileiro recebe ingressos bilionários pelas exportações – além de parte dos lucros pela extração. Por isso, pouco importa se a Petrobrás exporta ou não: o petróleo e derivados passam pelos portos para Israel. Não poderia Lula como presidente, bloquear esses envios por decreto cumprindo com a legislação internacional? Parece que importa mais os bilhões de dólares que entram por exportações, que depois vão às mãos dos parasitas da dívida e da agroindústria, que as vidas palestinas e sua responsabilidade com o direito internacional. A Federação Única dos Petroleiros (FUP), dirigida pelo PT e filiada à CUT, enviaram uma carta na qual cobram “embargo energético a Israel contra o genocídio em Gaza” e a “paralisação imediata de projetos com empresas de energia israelenses”. A Carta não muda absolutamente nada, mas serve à direção petroleira para se escusar de convocar ela mesma a greves e bloqueios para impedir os envios de petróleo e derivados. Se apoiam no mesmo jogo retórico de Lula de denunciar o genocídio, mas nada fazem em concreto para obrigar ao governo a passar da retorica para as ações concretas.
Dias depois do relatório de Albanese, no dia 13 de julho, o governo brasileiro decidiu se juntar “formalmente” ao processo contra Israel no CIJ. O objetivo é desviar o foco das responsabilidades do governo Lula no genocídio como apresentados no relatório, e participar de um processo de uma CIJ impotente para tomar qualquer medida prática, mas que serve de vitrine aos petistas para possar de “humanitaristas” visando as próximas eleições e desviar as críticas de cumplicidade do governo Lula.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, assim como fez Celso Amorim, afirmaram publicamente que não há como romper relações diplomáticas com Israel, embora há como fazer um “estudo rigoroso” de produtos importados desde as colônias sionistas em terras palestinas ocupadas (depois de 1968) impedindo a entrada no país desses produtos “ilegais”. Quanto às exportações de petróleo, Amorim disse que “acreditava” que foram menores neste ano – mas não se colocou contra o envio. Essas declarações, assim como as de Lula, demonstram que é política do governo manter relações com o Estado genocida de Israel, se justificando pelas “dificuldades” políticas e a “ameaça” da direita.
Essas manobras cínicas são uma resposta oportunista à crescente revolta das massas contra o genocídio e inação e cumplicidade dos governos. Baste ver a intervenção de Boulos no ato de 15 de junho em SP, radicalizando “o tom de sua fala no ato, enquanto calou a boca como candidato a prefeito para tentar ganhar votos de setores da direita” A declaração de Vieira e de Boulos são igualmente oportunistas. E refletem as manobras para “desviar a forte tendência de apoio aos palestinos para as campanhas eleitorais de 2026”.
O genocídio palestino é um elemento determinante na política interna dos países, porque opõe em choque aos governos as massas que maioritariamente exigem o fim daquele. Está aí o porquê as bases eleitorais do governismo se verão em dificuldades para explicar por que votar em Lula que trocou vidas palestinas por sua sobrevivência na presidência, além dos parlamentares que aprovaram o “Dia da Amizade Brasil-Israel”. Será que as correntes petistas que denunciam o genocídio e participam ativamente dos atos em defesa dos palestinos vão continuar “servindo de apoio ao governo que apoia e financia o genocídio”? Como conviver pacificamente com essa contradição? A vanguarda com consciência de classe tem o dever de combater e denunciar a “dupla moral” eleitoral dos governistas, que cega a consciência das massas e as arrasta como peões na disputa eleitoral inter-burguesa.
O genocídio palestino exige das correntes e partidos uma posição ideológica e política firme e decidida. Exige ainda a formação de frações revolucionárias nos sindicatos para os arrancar das direções sindicais governistas, os colocando ao serviço da luta de classes por suas reivindicações e pelo fim do genocídio, atacando as empresas e interesses do sionismo. Somente assim faremos das ações isoladas dos operários portuários da França e Grécia que recentemente impediram o carregamento de armas e mercadorias com destino para Israel, uma prática e solidariedade internacionalistas. A expulsão dos burocratas sindicais é questão de vida ou morte para os palestinos, assim como é para a classe operária e demais oprimidos em nosso país para avançar a sua estratégia e métodos próprios de luta.
A tarefa estratégica da classe operária é impor o monopólio do comércio exterior e avançar à expropriação das empresas imperialistas e sionistas, e sua nacionalização sem indenização, sob controle operário, para impedir que nosso país sirva de peão aos interesses dos genocidas e opressores do mundo. Mas, essa será a obra do governo operário e camponês, da revolução proletária, e não das eleições burguesas e nem de qualquer que seja o governo burguês de plantão no estado.