
O Internacionalista n° 31 / setembro de 2025
Editorial Internacional
O imperialismo e aliados se preparam para uma guerra em grande escala
Após a cúpula do Alasca entre Donald Trump e Vladimir Putin, aguardava-se um avanço para o fim da guerra na Ucrânia. Um mês depois desse espisódio, a situação da guerra da OTAN contra Rússia usando a Ucrânia de instrumento militar, continua seu percurso. O que mudou é que os EUA continuam provendo inteligência satelital, logística e material bélico, mas a Europa é que compra as armas enchendo os cofres dos EUA, se empobrecendo e seguindo seu curso de desagregação. Nos fatos, EUA “terceirizou” a guerra contra Rússia à burguesia europeia que, presa entre os dois fronts desfavoráveis a sua economia e necessidades industriais – o militar favorável à Rússia e o econômico favorável aos EUA -, empurrando a Europa para uma crise continental de dimensões históricas que poderá apagar a União Europeia.
A margem de manobra da burguesia europeia na convulsiva situação mundial é muito estreita, sobretudo, quando surgem indicadores de uma crise nas três principais potências: Alemanha, Inglaterra e França – dos que mais gastam na guerra na Ucrânia e mais se preparam para a guerra contra Rússia. A “Coalização dos Dispostos” (denominação do grupo encabeçado por esses três países para ajudar a Ucrânia) enfrenta um cenário sombrio em seus países. Inglaterra entrou em uma crise de dimensões parecidas à sofrida nos anos de 1970 quando requereu um resgate do FMI. O déficit está nas alturas, a inflação descontrolada, o endividamento chegou a 96% do PIB, continua seu retrocesso industrial e destruição dos serviços públicos e condições de vida da população projetam os conflitos sociais. A França viu cair seu primeiro-ministro e eclodir protestos contra o corte orçamentário de U$ 51,3 bilhões, o aumento de impostos e as contrarreformas propostas pelo governo Macron. Seus gastos na Ucrânia excedem a capacidade da economia francesa de gerar recursos para sustentar o parasitismo da indústria e do capital financeiro sobre a economia nacional. E isso acontece quando a dívida chegou a 113,9% do PIB. Por sua vez, a Alemanha enfrenta uma contração de sua economia (-0,3) pelo segundo ano consecutivo. As vendas de empresas alemãs retrocederam -2,1%, e as exportações aos EUA e à China despencaram. A indústria química e metalúrgica vem caindo ano após ano. Foram perdidos neste ano 114 mil empregos, e tomando-se o ano de 2019 (Pandemia) como referência, são 250 mil postos de trabalho destruídos. O motor da Alemanha, a indústria automotriz, reduziu em 7% seus empregos (mais de 51 mil demitidos).
Essas condições fazem da burguesia europeia uma das mais ávidas de prosseguir as guerras e, particularmente, participar dos despojos da Ucrânia em igualdade de condições com os EUA. Porém, a Europa já não tem as capacidades industriais para se aventurar na guerra. A estagnação econômica que perpassa mais de dois anos, a inflação generalizada nos bens de consumo industrial e popular produto do aumento dos custos de energia (consequência de se ajoelhar aos ditames dos EUA de não comprar petróleo russo e sim norte-americano) e a desagregação de suas forças produtivas, impede à Europa se armar por seus próprios meios, o que aprofunda sua subserviência aos EUA.
Uma saída à desastrosa situação seria sair vitoriosa de uma guerra que lhe permita tomar novos mercados e fontes de matérias-primas baratas. Entretanto, mantém a economia com respirador artificial com violentas contrarreformas sobre as massas, reduzindo salários, retirando direitos e destruindo aposentadorias. Para impor essa violenta mudança nas relações entre as classes, a burguesia restringe a democracia, militariza as relações sociais e políticas no continente e intervém sobre os países que não se subordinam. A organização de protestos na Sérvia, a prisão de presidentes de repúblicas autonômicas de Srpska e da Transnistria, a cassação de candidatos opositores etc. demonstram que a burguesia europeia avança na via da centralização autoritária para continuar as guerras e a opressão nacional.
Essa é também a via traçada por Trump para o imperialismo norte-americano. Como assinalamos na nota publicada neste jornal (ver pag. 28), o governo republicano é um governo eleito pela burguesia para fazer a guerra, ampliar o intervencionismo e aumentar a centralização ditatorial das relações políticas e sociais dentro do país. A militarização da Califórnia, Illinois e Massachussets sob a justificativa de combater a imigração ilegal e os crimes complementam-se com o avanço na centralização autoritária das policias metropolitanas de prefeituras e governos democratas, além dos sindicatos do funcionalismo. A “estatização” das indústrias de tecnologia e militar (via compra de ações ou de decretos declarando esses setores de “prioritários” ao estado) preanunciam a centralização desses setores essenciais para travar uma guerra. Para avançar por essa trilha, o governo Trump ainda se apoia ainda nas instituições da democracia formal, mas adoptando medidas centralizadoras, adopta cada vez mais a forma política um regime de governo de características semi-bonapartista. Que poderá evoluir para um governo bonapartista (ditatorial e fascistizante) caso a situação política mundial se agrave. Antes de desagregar, os EUA irão à guerra para sobreviver como a principal potência imperialista. E, para isso, precisará “pacificar” (militarizar) e centralizar rigidamente às disputas inter-burguesas e aos explorados.
O principal rival e inimigo, portanto, objetivo de guerra dos EUA, é a China, que se converteu na primeira potência industrial do planeta e continua em progressão ascendente, alavancando suas capacidades tecnologias e industriais. A via da guerra traçada cada vez mais abertamente pelo imperialismo (com os EUA como seu carro-chefe) é determinada pelo choque histórico entre duas forças econômicas antagônicas: entre as forças produtivas desenvolvidas sob o envoltório da propriedade nacionalizada pelas revoluções, contidas nos Estados Operários – ainda que profundamente degenerados -, em choque com as forças produtivas históricas desenvolvidas sob o envoltório da grande propriedade privada monopolista, sediadas pelos Estados capitalistas imperialistas. O desenvolvimento (ainda que limitado) de uma dessas forças mundiais significa a sentença de morte da outra. E se bem as burocracias herdeiras do estalinismo têm contido e bloqueado de forma ditatorial e criminosa o percurso da revolução mundial, ajudando ao processo da restauração capitalista, sem nunca a completar, na medida em que as conquistas revolucionárias permanecem em pé, impõem empiricamente à casta parasitária defendê-las e se apoiar nelas para se preservar no poder.
A guerra promovida, projetada e impulsionada pelo imperialismo em decomposição visa a mudar pela força esse curso histórico das forças produtivas e técnicas que agem cegamente, embora se manifestem nas políticas das classes e dos estados. A destruição da propriedade nacionalizada e sua reconstrução parcial sob controle do capital financeiro, que exigem a derrubada da burocracia e desmembrar a China e a Rússia, as reintegrando ao capitalismo como semicolônias, é uma imposição objetiva da desagregação do capitalismo. Como afirmamos na nota citada, a bandeira trumpista de “América Primeiro” é “um grito de guerra da burguesia imperialista norte-americana contra os assalariados e estados do mundo inteiro”. O cerco colocado sobre a Venezuela o deixa claro, assim como o apoio de Trump ao expansionismo e genocídio sionista. O ataque de Israel contra a liderança de Hamas no Qatar demonstrou que os EUA e Israel não se importam sequer com seus aliados quando se trata de impor seus interesses. A paz de interesse de Trump é o da submissão pela pressão e pela força das armas de todos seus rivais e das nações semicoloniais que tenham qualquer recurso ou matéria-prima de interesse da burguesia norte-americana, ou se resistam a seus ditames. Mas, a guerra também aceleraria a decomposição do capitalismo e do imperialismo, e abriria caminho às revoluções.
Essas tendências devem ser claramente compreendidas pela vanguarda com consciência de classe para estabelecer a linha e tática que permitam impulsionar a luta de classes e as revoluções proletárias, sem nunca apoiar as burocracias, mas combatendo firme e decididamente ao imperialismo conjunturalmente junto dessas se as conquistas revolucionárias das propriedades estatizadas são ameaçadas de destruição. Qualquer vitória imperialista é mais uma derrota dos explorados e oprimidos. A derrota do imperialismo significará uma vitória parcial das massas e das nações oprimidas.
É com essa compreensão ainda que se poderá reconstruir a direção revolucionária da classe operária, e superar os desvios revisionistas das correntes que são incapazes de avaliar cientificamente as bases econômicas e sociais que estão na base dos choques e conflitos mundiais. A reconstrução da direção revolucionária mundial apoiada nas lutas operárias e das massas seria um grande impulso para sua reconstrução. Via essa que poderá ir se abrindo ainda em meio à luta em defesa de direitos, salários, empregos e o fim da opressão de classe nacional que ganham proporções de movimentos de massas e que, em seu desenvolvimento, favorecem à vanguarda com consciência de classe e cimentada firmemente no marxismo, dar passos à construção do partido da revolução e ditadura proletárias.
