
O Internacionalista n° 31 / setembro de 2025
Editorial Nacional
Centrais sindicais, sindicatos e movimentos sociais arrastam as massas às eleições burguesas em defesa de Lula 2026
Organizar oposições classistas e revolucionárias para recuperar os sindicatos e os reerguer como instrumentos de frente única para a luta de classes, sob o programa e estratégia proletárias.
Desde a ascensão de Bolsonaro ao segundo turno da eleição presidencial em 2018, os partidos centristas, reformistas e estalinistas que dirigem as principais organizações das massas e centrais, intensificaram a adoção de medidas de contenção das lutas para impor a narrativa do combate ao fascismo para derrotar a direita e extrema-direita no campo eleitoral, abandonando e traindo as greves e manifestações por sálario, empregos e direitos. As tendências fascistizantes de Bolsonaro não evoluíram para impor um governo bonapartista ou fascista, em grande parte pela falta de necessidade de combater as centrais, sindicatos e movimentos sociais, já que estes desviaram a disposição de luta dos explorados para o campo institucional, limitando-se a judicialização de algumas reivindicações ou apresentando e apoiando projetos de lei para emendar, no campo do ataque, as contrarreformas.
Bolsonaro aprovou sem grande resistência nas ruas as principais medidas de ataque aos explorados, a exemplo da contrarreforma previdenciária e a privatização da Eletrobrás. Enquanto que os partidos reformistas e seus satélites que se reivindicam da “esquerda”, se utilizaram das medidas impopulares e anti-operárias para desgastar ainda mais a imagem de Bolsonaro eleitoralmente, ao mesmo tempo que defendiam e impulsionaram a candidatura de Lula para 2022 afirmando que, sob seu governo, se retomariam os direitos perdidos e se melhoraria a vida das massas.
O retorno de Lula à presidência foi tido, pelos partidos centristas, reformistas e estalinistas, como a constituição de um governo “seu” e uma derrota dura para a ultradireita que se via ejetada do poder do estado. Não obstante, continuaram utilizando os aparatos que dirigem para continuar bloqueando as lutas, desta vez, em defesa da governabilidade de Lula. Assim, rasgaram e continuam rasgando a independência de classe, e ocultam ou apoiam os ataques de Lula/Alckmin sob o espantalho do cerco do bolsonarismo e aliados contra o governo, para não o enfraquecer. Mais uma vez serviram de garantes aos ataques às massas do governo burguês em benefício dos lucros dos capitalistas como exemplo a substituição da lei de Teto dos Gastos pelo Arcabouço Fiscal, que impõe a retirada de verbas para setores como educação e saúde para garantir o pagamento dos juros da dívida pública, ou bem das privatizações das bacias de petróleo no Amazonas
As contrarreformas aplicadas por Bolsonaro, e denunciadas na campanha eleitoral para projetar Lula sob a promessa de que seriam revistas, não foram revogadas. Ao contrário, diante da situação mundial do capitalismo, em sua fase imperialista e de decomposição, Lula continuou e ampliou os ataques. A reforma trabalhista e previdenciária foram preservadas, e agora soma-se a Reforma Administrativa que destruirá a estabilidade, direitos e carreira do funcionalismo. Lula repete o que é necessário e obrigatório a todo governo burguês: manter os ataques e continuar com as contrarreformas contra as massas.
Governo de frente ampla Lula/Alckmin mantém o ataque às massas para garantir ro pagamento da dívida pública
Ao contrário do que propagandeiam as direções sindicais e dos movimentos sociais, o governo Lula/Alckmin manteve e intensificou os ataques de Bolsonaro aos trabalhadores e demais oprimidos. No INSS, manteve a precarização das condições de trabalho e salários arrochados, reprimiu a greve e impôs uma reforma administrativa por meio de portaria ministerial Na Petrobrás, a terceirização continua a ser o principal vínculo de trabalho, manteve-se o PPI e continuam as privatizações. Nas universidades federais, o acordo da greve de 2024 (que foi duramente reprimida) não foi cumprido e o reajuste de 9% previsto para janeiro foi aplicado somente em maio, além da limitação de 61% do orçamento previsto. Os portuários permanecem sob a ameaça de privatização e perda dos empregos. O governo federal anunciou uma “economia” de R$ 25,9 bilhões em 2025 com processo de revisão de gastos, na prática dificultando acesso para benefícios do INSS e Bolsa Família, sob o lema “Revisar para repriorizar”.
A contenção de despesas, seja não reajustando o salário de servidores, seja retirando verba da saúde, educação e programas sociais, serve para realocação de bilhões de reais com o intuito de honrar o pagamento da dívida pública que hoje está acima dos R$ 7,9 trilhões.
Como se vê na prática, a eleição de governos que se reivindicam da esquerda não está desvinculada das leis gerais do capitalismo, portanto, não é possível aplicar reformas que melhorem as condições de vida das massas. Ao contrário, a tendência geral do capitalismo em sua fase de decomposição é de necessidade de ataque aos explorados para proteger o lucro da burguesia
Direções arrastam os sindicatos para as eleições burguesas e acumulam traições para com os explorados
As direções centristas, reformistas e estalinistas já têm se lançado em defesa de Lula 2026 no interior dos sindicatos e movimentos sociais. Para defenderem Lula, ocultam que este é o algoz de turno dos explorados, camuflando ou escondendo seus ataques e impedindo que as massas se choquem com o governo em defesa de suas condições de vida mais imediatas.
Os sindicatos da educação, por exemplo, não podem combater as políticas de arrocho salarial, escolas cívico-militares, terceirização, ensino integral, avaliações de desempenho etc., aplicado pelos governos de direita nos estados e municípios pois certamente um movimento consequente com essas bandeiras, naturalmente se chocaria com Lula e o PT, que nacionalmente aplicam as mesmas ou políticas similares. Assim, para proteger o governo que entendem como “seu”, são obrigados a trair os explorados, contendo a disposição de luta e canalizando as reivindicações para a disputa eleitoral burguesa ou medidas jurídicas e pressão sobre os parlamentos, criando e fortalecendo a ilusão de que essa disputa no campo da burguesia poderá trazer vitórias quando, como mostra a experiência, essas vias têm sido o cemitério das reivindicações e da luta de classes. Ao blindarem o governo de frente ampla, as esquerdas deixam o caminho livre e pavimentado para a retirada de direitos, novos ataques e mais retrocessos.
Este processo é denunciado nos movimentos e sindicatos em que o PPRI atua. Mas, onde uma tendência de oposição que reivindique dos métodos do proletariado para pôr abaixo os ataques patronais se manifesta, as direções traidoras intensificam o processo de burocratização, ou seja, limitam ainda mais a democracia sindical para que suas posições governistas e a canalização para as disputas burguesas sejam impostas, na tentativa de estancar parte da impopularidade do governo e impulsioná-lo face a pesquisas eleitorais que demonstram-se incertas.
Colaboração de classe e eleitoralismo
O que se viu no Grito dos Excluídos, que ocorre desde 1994, foi a capitulação das direções do movimento de abaixar as bandeiras históricas contra a falta de moradia, de saúde e de educação, a ausência de reforma agrária e urbana, a luta por serviços públicos de qualidade, dentre outras bandeiras, e fortalecer a “defesa da democracia”, “sem anistia aos golpistas!”, “prisão para os golpistas!” e o lema “soberania não se negocia”. Bandeiras que servem à campanha eleitoral. Assim, aprofundou-se a adaptação dos partidos e correntes reformistas e centristas às eleições burguesas, tentando criar condições de desgaste da imagem da direita com o processo no STF e de blindagem ao governo de frente ampla de Lula/Alckmin, que não apenas se mostrou impotente em aplicar reformas progressistas para atender as reivindicações dos oprimidos, como fundamentalmente seguiu a trilha de ataques e contra reformas de Temer e Bolsonaro
As bandeiras impulsionadas pelos centristas, reformistas e estalinistas são alheias aos interesses dos oprimidos, servindo apenas para a disputa interburguesa eleitoral.
Condenação de Bolsonaro ampliará a crise inter-burguesa
Fechamos este jornal quando o STF condenou Bolsonaro, por quatro votos contra um, a 27 anos e 3 meses de prisão por delitos relacionados com a tentativa de golpe de estado e atentado contra as instituições democráticas. Está ainda em aberto se sua detenção será imediata e qual o presídio onde cumprirá a pena. Importa agora assinalar, rapidamente, que essa medida agrava a crise política que vinha se processando ao interior da frente ampla burguesa que levou Lula à presidência em 2022. Setores da direita com cargos de ministérios e secretárias, vem tecendo com o bolsonarismo uma lei da anistia. É possível que em retaliação se veja uma saída de vários funcionários da base aliada da direita do governo, bem como uma ruptura no interior do Congresso, deixando um fim de mandato conturbado para Lula. Ainda que Bolsonaro seja anistiado pelo Congresso, o que abriria uma crise institucional sem precedentes, continua inelegível. De forma que a frente ampla da direita e ultradireita se utilize de sua figura e da anistia apenas como espantalho para uma legenda de unidade nacional para derrotar Lula. Os próximos meses serão, portanto, decisivos.
É necessário romper com o governismo e desenvolver a independência de classe e ação direta das massas
A vanguarda com consciência de classe e as correntes que se reivindicam do marxismo devem romper com o governismo, camuflado de defesa da democracia, para conquistar e desenvolver a completa independência de classes no interior dos sindicatos e movimentos sociais, negando a canalização da disposição de luta das massas aos métodos jurídicos-parlamentares, e impulsionando a ação direta e os métodos próprios do proletariado, sob a organização da democracia operária e de posse do programa e estratégia próprias do proletariado para combater a burguesia e os governos, e abrir caminho à luta revolucionária
A história e a experiência demonstram que somente pela real luta de classes (paralisações, greves, piquetes, etc.) há a possibilidade de se combater os ataques às condições de vida dos explorados, sejam eles desferidos pelo governo de turno da esquerda ou direita. Inevitavelmente, esta política de independência de classe e ação direta irá se chocar com oportunistas e burocratas que traíram e traem o conjunto dos explorados. A tarefa histórica é de libertar os sindicatos de suas direções reacionárias, que há muito abandonaram a ciência marxista e se utilizam de seu aparato para criar um verdadeiro “curral eleitoral”. Para isso será necessário organizar oposições classistas e revolucionárias para recuperar os sindicatos e os reerguer como instrumentos de frente única para a luta de classes.
