
O Internacionalista n° 31 / NOTAS INTERNACIONAIS / setembro de 2025
Eleições na Bolívia
O MAS é ejetado do comando do estado burguês
O primeiro turno das eleições bolivianas deu a vitória a Rodrigo Paz, com 32,1%, sobre Jorge “Tuto” Quiroga, com 26,8%. Os dois candidatos são representantes políticos da direita e da burguesia branca e racista, que agora voltará a ter um representante de sua classe no estado. Ganhe quem ganhe no segundo turno, é fato que após 20 anos o Movimento ao Socialismo (MAS) foi ejetado do poder. O principal objetivo traçado há décadas pela direita e ultradireita entreguista, foi finalmente cumprido.
O imperialismo, a burguesia e os latifundiários acreditaram ter conquistado esse objetivo com a renúncia de Evo Morales à presidência, em 2019. Perante “as movimentações dos setores fascitizantes e direitistas que cavalgaram sobre a massiva rejeição popular ao golpe eleitoral de Evo Morales”, e não contando com sua “direção revolucionária organizando a revolta operária e popular, a direita conseguiu se impor, graças à renúncia de toda a linha de sucessão do MAS e com o apoio do alto comando militar e policial, para desviar a luta das massas e garantir o governo transitório”. Evo entregou o poder que caiu no colo da direitista Añez. Um ano mais tarde, essa convocava eleições após seu completo fracasso no governo, vencendo o candidato masista Luis Arce. No dia 26/06/2024, aconteceu uma tentativa de golpe militar que “pretendia impedir que, qualquer que fosse o eleito no ano que vem, não fosse ninguém do MAS, mas sim da oposição direitista”, portanto, exigia interferir nas eleições que viriam acontecer um ano depois. Os golpistas exigiam ainda a “libertação do ultradireitista Camacho e da ex-presidente Yanina Añez, que estiveram à frente do governo provisório, após a renúncia de Morales, em 2019” .
Se bem a tentativa de golpe militar de 2024 se desfez três horas depois de começar, seus objetivos foram “conquistados” um ano depois – ainda que por outras vias. A ruptura de um setor das massas com o MAS, estando ausente a direção revolucionária, abriu o caminho à vitória direitista pela via eleitoral. Setores da burocracia estatal correram para se adaptarem aos “novos ventos” políticos. Por ordem do Tribunal Constitucional, foram liberados de prisão preventiva os acusados de “golpe de estado” e responsabilidade na repressão contra os protestos de camponeses e assalariados durante o governo de Áñez (2019 até 2020), e na qual foram assassinados dezenas de manifestantes: Luis Fernando Camacho, ex-governador de Potosí, Antonio Pumari, presidente do Comitê Cívico de Potosí e Jeanine Áñez,
Qualquer seja o vencedor do segundo turno, seus programas são duas variantes do mesmo plano da burguesia: liberalização dos preços e do dólar, “redução” do estado via privatizações e abertura irrestrita à exportação e importações e livre acesso aos monopólios imperialistas na exploração de riquezas naturais. Ou seja, depreciação da moeda, livre circulação de capitais estrangeiros, retirada dos subsídios aos combustíveis (elevação dos preços no mercado interno) etc. Além disso, se aumentará a solicitação de novos “créditos internacionais”, ou seja, agravamento do parasitismo sobre a dívida pública.
Uma das mudanças mais relevantes será a reabertura de um processo de avaliação das concessões à exploração de empresas estatais chinesas na exploração do lítio, favorecendo os interesses do imperialismo norte-americano de empurrar à China para fora da América do Sul. A Bolívia passará a ser utilizada em novo campo de manobras nos choques entre os EUA e a China.
Isso se refletirá em aumento dos preços, agravamento das condições de vida das massas, retirada de direitos e rebaixamento de salários aumentando as margens de lucro de exportadores e importadores. Veremos ainda uma “revanche” social e político da burguesia e pequena burguesia branca ejetada por dois décadas do parasitismo do estado pelos masistas, que avançará na destruição dos ultralimitados direitos culturais, sociais, políticos e econômicos das nações indígenas (a maioria camponesa do país) e demais oprimidos conquistados sob o MAS – o mesmo tentou sob o governo Añez, mas não conseguiu.
Está colocada a tendência de dissolução do MAS e de sua estrutura política firmada sobre sindicatos (camponeses e operários) e as organizações comunais, em cuja cabeça erguia-se o caudilho Evo, que agia como árbitro nas disputas de suas frações internas. A sobrevivência do MAS depende fundamentalmente do parasitismo sobre o aparelho do estado e seus bilionários recursos. Retirado essa fonte de parasitismo, é provável que o MAS se estilhace e suas frações passem a tomar posse das organizações regionais para garantir sua sobrevivência e facilitar as negociações com os governos.
Com a burocratização do aparelho e os ataques de seus governos contra a vida das massas, parte das bases masistas deram as costas a Evo, abandonaram o partido e passaram à oposição contra seus governos do MAS. Quando a pequena burguesia e os assalariados se revoltaram contra Morales em 2019, e o partido se fragmentou, reforçaram-se as possibilidades eleitorais da direita. Antes mesmo da tentativa golpista do ano passado, o MAS já estava fragmentado em dois setores irreconciliáveis. E se bem “As duas frações do MAS … convocaram que se enfrentasse o golpe”, o fizeram com objetivos diferentes: “Morales quer garantir sua eleição e Arce sua reeleição”. Não iria demorar para Morales acusar Arce de ter organizado um “autogolpe” para se preservar no poder. A acusação veio à tona quando Arce foi a favor de manter inabilitado eleitoralmente a Morales Ampliou-se assim o abismo fracional. O “voto nulo” chamado por Morales em “protesto” contra as eleições ilegítimas não ultrapassou os 20%, mostrando a perda de sua influência sobre as massas bolivianas.
Com a separação do aparelho partidário das necessidades das massas; a anulação da democracia seguida pelo centralismo burocrático e a centralização autoritária ao redor da figura de Evo ou Arce; e, sobretudo, com a política pró-burguesa e antioperária de seus governos, anula-se qualquer possibilidade de novas figuras aparecerem e arrastarem às bases. Esse foi o caso de Andrónico, dirigente sindical indígena e presidente da Câmara de Senadores, considerado como “herdeiro” de Morales, que devia nomear seu candidato. Andrónico lançou sua candidatura sem consulta à estrutura partidária, ato que foi entendido como uma tentativa de se independizar do “líder” Evo. Ao chamar ao voto nulo, Morales abandonou Andrónico. A votação ínfima em sua candidatura demonstrou que a estrutura do MAS só pode servir ao caudilho, que deve decidir sobre todo de forma autocrática e autoritária.
O percurso de desagregação do MAS se explica pelo fato dos governos “reformistas ou de tinturas nacionalistas estão hoje todos, sem exceção, agindo para sustentar o parasitismo financeiro e aumentar a superexploração do trabalho, cortando salários, empregos e direitos. A crise econômica os pressiona, por conta da insatisfação crescente das massas e maior divisão inter-burguaesa”. Por outro lado, a “direitização crescente das burguesias nacionais” atinge todos os governos burgueses, incluídos os do MAS4. O resultado desse processo se apresenta hoje mais claramente perante nossos olhos.
Ao respeitar a grande propriedade privada burguesa e demonstrar toda sua impotência para transformar o país por dentro do capitalismo, o “Socialismo do Século XXI” decompõe como uma paródia do nacionalismo burguês já esgotado historicamente. A burguesia imperialista está em uma violenta ofensiva contra as massas e nações oprimidas para manter seus lucros, e transforma os países semicoloniais em peões de suas manobras mundiais. As massas camponesas e operárias bolivianas serão mais uma vez sacrificadas aos interesses do imperialismo e sua burguesia parasitária.
Sem sua direção revolucionária, as massas exploradas não têm como erguer seu programa e, por isso, são arrastadas a votar para decidir qual partido da ordem burguesa será seu próximo verdugo. Mas, são obrigadas a se organizarem imediatamente para enfrentar o novo governo com a luta de classes sob um programa comum de reivindicações. Para isso, devem retomar o caminho revolucionário percorrido pelo POR dos tempos de G. Lora, tornando consciente o instinto revolucionário do proletariado e das massas.
