
O Internacionalista n° 31 / NOTAS INTERNACIONAIS / setembro de 2025
EUA – Governo Trump
Como caracterizar o governo Trump
Foi assinada por Trump uma Ordem Executiva (11/08/2025) que pôs sob seu comando à Polícia Metropolitana da capital, Washington DC, afirmando que é “uma cidade sem lei”. Imediatamente, foram colocadas nas ruas da cidade centenas de soldados da Guarda Nacional com poder para exercer funções de polícia (detenções, prisões etc.). A prefeita democrata de Washington, Muriel Bowser, foi tomada de surpresa pela medida. Aprovada por 30 dias, a intervenção federal poderá ser estendida por decisão unilateral de Trump e, inclusive, ser aplicada em outros estados e prefeituras democratas. Foi noticiada pela imprensa a decisão de Trump de tomar a mesma medida em Chicago, que denunciou estar “dominada pelo crime”. Assim como Washington DC, Chicago é governada por um prefeito democrata.
As medidas trouxeram à superfície as tendências à militarização da sociedade e das relações políticas entre o governo federal e os governos estaduais e municipais democratas. Essa lógica intervencionista foi observada com a intervenção da Guarda Nacional por ordem de Trump na cidade de Los Angeles, na Califórnia, para reprimir a revolta dos imigrantes contra o ICE (Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro) que perseguiu e prendeu imigrantes para expulsá-los sumariamente. O governador democrata da Califórnia contestou judicialmente a medida, afirmando não ter sido consultado.
Crescem também as tendências autoritárias a realizar uma completa revisão das condições trabalhistas e dos direitos do funcionalismo. Em 27 de março, foi publicado uma Ordem Executiva que anulou os Acordos de Negociação Coletiva (ANC) de 400 mil funcionários da Administração de Veteranos (VA), da Agência Federal de Gestão de Emergências e dos Serviços de Cidadania e Imigração – quatro quintos do total do funcionalismo federal. Por decisão de Trump, também se encerraram as contribuições sindicais e se demitiram 50 mil funcionários da Administração de Segurança dos Transportes (TSA). Estão ainda sob ameaça de demissão 145 mil funcionários federais de dezenas de organismos sob a justificativa da “redução dos gastos federais” e de “limpar” a administração de “elementos socialistas” ou que boicotam as medidas aprovadas pelo governo federal. Estão sendo também avaliadas pelo governo impor por decreto mudanças nos critérios e no tempo das licenças médicas, a alteração das férias coletivas e modificação das horas extras, demissões e suspensões, assim como medidas disciplinares e mudanças unilaterais no local ou condições de trabalho.
Os dois maiores sindicatos do funcionalismo, a Federação Americana de Funcionários Públicos (AFGE) e o Sindicato Nacional do Tesouro, recorreram na Justiça contra o Decreto. Mas, sem resistência e uma luta organizada nacionalmente contra o intervencionismo em defesa dos sindicatos, não haverá como frear a ofensiva de Trump. A burocratização e integração dos sindicatos nos aparelhos partidários burgueses, combinada à despolitização e atraso político dos trabalhadores, permitem a Trump dar passos firmes na criação das condições para uma maior centralização autoritária dos sindicatos.
As medidas centralistas e ditatoriais tanto das relações políticas entre estados e governo federal, como das relações trabalhistas, são passos necessários para a futura estatização autoritária das relações sociais e políticas do país visando garantir a concentração da tomada de poder e das decisões em um núcleo reduzido de funcionários e burocratas (civis e militares). Está na agenda de Trump restringir as capacidades do Banco Central (FED) de fixar as taxas de juros. Todas essas são medidas típicas de um Estado burguês que se encaminha a concentrar os recursos da nação e a centralizar os instrumentos de poder, objetivando a impor uma mudança rápida e violenta das relações econômicas em favor do grande capital e de seus objetivos e interesses, tanto em política interna (pela repressão da luta de classes e controle sob a oposição) quanto externa (para preparar as condições de novas medidas de guerra econômica e do intervencionismo). Não é por acaso que Trump avançou a colocar sob controle do Estado empresas como a Intel, que pretende expandir para empresas do complexo industrial militar.
Está aí expressa a fusão do estado com os monopólios e o grande capital financeiro. As instituições legislativas e executivas estão sob controle do núcleo de funcionários e burocratas que maneja o poder executivo e militar (Pentágono) que representam os interesses de poderosos grupos monopolistas da indústria militar e da tecnologia. O Congresso está se constituindo em uma caixa de ressonância das decisões fixadas desde a Casa Branca ao “preço” de participar de uma maior fatia do orçamento, dos lucros das empresas ou do genocídio palestino. Se bem são cumpridos os ritos eleitorais de troca de um governo por outro, essa mudança nunca altera o manejo dos grandes capitalistas imperialistas da maquinaria do estado. Trump é o retrato mais fiel da ditadura dessa classe e, sobretudo, do grande capital financeiro, industrial-militar e da tecnologia que precisa parasitar do estado para lucrar e que agora se encaminha a centralizar sob seus interesses às diversas frações da burguesia nacional.
A política tarifária e comercial tem agravado as divisões inter-burguesas, que se vêm acirrando como resultado da desindustrialização do país e da perda de mercados perante o poderoso avanço da China. O que acaba favorecendo as tendências centralistas e autoritárias de Trump e lhe permitem extrair de função de “árbitro” dos choques inter-burgueses seus próprios benefícios políticos ou econômicos. Uma parte considerável da burocracia estatal (civil e militar) e dos empresários que financiam o projeto MAGA, são a base social mais firme e os principais beneficiários da política do governo. Mas, Trump deve ainda combinar a centralização com concessões às diversas frações burguesas. Pretende fazer isso garantindo uma apropriação maior do lucro extraído à classe operária mundial pela via das tarifas ou das guerras, e dos cortes de benefícios sociais e dos impostos às grandes fortunas para compensar as perdas dos lucros. Entretanto, as intervenções militares e o saque brutal das semicoloniais unificam toda a burguesia do país. O principal objetivo que as une é destruir a propriedade nacionalizada produto das revoluções proletárias sediadas dentro das fronteiras nacionais dos estados operários degenerados. A destruição de propriedade nacionalizada e a reconstrução de forças produtivas sob controle monopolista daria uma sobrevida conjuntural à moribunda economia dos EUA.
Para ampliar o intervencionismo e projetar as guerras, a burguesia precisa de “ordem” e de “pacificação social” em sua própria casa. Ou seja, conter, centralizar e esmagar (se for preciso) os sindicatos, os movimentos e as lutas grevistas. Por esse caminho é que se orienta o intervencionismo nos sindicatos do funcionalismo, que poderá ser estendido aos da indústria militar, de bens ou dos serviços. O slogan “América Primeiro” demonstra ser um grito de guerra da burguesia imperialista norte-americana contra os assalariados e estados do mundo inteiro. O ataque contra o Irã e as manobras militares contra Venezuela não deixam margem de dúvida. Está outra vez aberta a retomada de ações de guerra contra o Irã (sua destruição faz parte do cerco militar sobre os estados operários degenerados). As falações sobre a “paz” de Trump precedem aos ataques contra as nações alvos dos EUA e seus monopólios. A paz de interesse de Trump na Ucrânia é a de uma Rússia “neutralizada” e afastada da China – alvo principal dos EUA. Mas, a Rússia está fortalecida, a China se prepara também para a guerra. Recentemente, ambos os países estreitaram mais ainda seus laços militares e econômicos. O problema é que não há como os EUA se aventurarem em uma guerra com resultado incerto para seu futuro.
Pelo dito acima, é possível traçar um paralelo – guardando as devidas proporções históricas e diferenças do processo histórico – entre os métodos do governo norte-americano e os do governo de Hitler, em 1933: a) predominância de uma política tendente à centralização do estado na base de uma ideologia nacional-chauvinista; b) política externa expansionista e marcada pelo militarismo agressivo; c) progressiva destruição dos métodos legais e diplomáticos para a solução das relações entre as classes, partidos e estados; d) perseguição, prisões e deportações dos considerados “indesejáveis” ou ameaças para o país; e) revitalização da ideologia da supremacia racial como fator ideológico da construção de uma “identidade nacional”; f) campanhas ideológicas para favorecer a retirada de direitos civis de mulheres, imigrantes e minorias; g) crescente controle autoritário sobre as universidades e marcado desprezo pela produção científica; h) proibição de livros considerados “socialistas” ou “ameaças à segurança nacional”; i) avanço na militarização da sociedade civil e na centralização dos sindicatos; j) destruição de serviços sociais voltados para pobres e miseráveis, minorias etc.
A ditadura bonapartista e os métodos fascistas dos nazis visaram destruir os sindicatos e, sobretudo, seus setores revolucionários, para assim centralizá-los sob direção do capital financeiro e concentrar todas as forças produtivas e recursos nacionais para o objetivo da guerra para impor uma nova divisão de mercados e colônias. Trump não enfrenta ainda o perigo da luta de classe, não existe um poderoso movimento proletário orientado sob a política marxista e revolucionária e a burguesia norte-americana ainda conta com reservas econômicas e métodos políticos para manter entre as massas as ilusões democráticas. Portanto, a principal diferença (e é abismal!) entre Hitler e Trump, e entre seus métodos, reside nas reservas de capitais e riquezas acumuladas pelos EUA que permitem sua burguesia operar dentro das instituições democráticas (ainda que brutalmente deformadas). Sobretudo, reside no profundo retrocesso político do proletariado e a brutal crise de direção revolucionária.
Eis porque é possível caracterizar o governo Trump como semi-bonapartista com tendências bonapartistas e fascistizantes, mas não como um governo bonapartista e fascista. Seu desenvolvimento político se ajusta ao que em nosso programa definimos como a tendência mais geral da etapa de decomposição capitalista quando está ainda ausente a direção revolucionária dirigindo o proletariado. Eis: “Fascismo e parlamentarismo são dois regimes de governo burgueses. Não há contradição quanto a seu conteúdo de classe, mas sim quanto às combinações de classe em que se apoiam e aos métodos para conter a luta de classes. O fascismo surge do parlamentarismo e da democracia burguesa, mas prescinde desses quando a luta de classes ameaça a dominação da burguesia. Quando as massas estão profundamente atrasadas em sua consciência de classe, e continua vigorando a crise de direção revolucionária, a transição entre esses dois diferentes regimes de governo da burguesia pode se arrastar por um longo período e assumir formas combinadas de um e outro. Essa é a lei mais geral da substituição de um regime burguês por outro na época de decomposição capitalista em todos os países”.
De posse de seu programa e sob direção de sua direção revolucionária constituída em partido marxista-leninista-trotskista, é que o operariado norte-americano romperá com a burguesia e traçará a via da guerra civil pela sua derrubada. Mas, estamos ainda muito longe disso. É na crise de direção revolucionária mundial que se acha o fundamento histórico desse abismo entre as tarefas colocadas à classe operária e sua não intervenção na crise dos EUA com sua própria política. A reconstrução da direção revolucionária mundial apoiada nas lutas operárias seria um grande impulso para abrir uma via à revolução nos EUA. Via essa que poderá ir se abrindo ainda em meio à luta em defesa de direitos, salários, empregos e liberdade de organização sindical, visando unificar e nacionalizar os movimentos grevistas e manifestações de massas que inevitavelmente surgirão, permitindo assim a vanguarda com consciência de classe dar passos à construção do partido da revolução e ditadura proletárias.
Quanto mais demora o proletariado norte-americano e mundial em cumprir essa tarefa, quanto mais suas direções políticas se afundem no espelhismo da democracia, mais a decomposição do capitalismo levará a crises econômicas mais profundas, a guerras mais devastadoras e uma ofensiva contrarrevolucionária da burguesia mundial que afundará a humanidade na mais absoluta barbárie.
