
O Internacionalista n° 31 / NACIONAL / setembro de 2025
Governo de frente ampla se desagrega
Crise política agrava a disputa eleitoral inter-burguesa antes mesmo de começar as campanhas para 2026
Em Nota do PPRI n° 76 (“Trump ameaça o Brasil, o governo de Lula quer negociar!”), do dia 18 de julho, assinalamos que “A escolha de defender Bolsonaro demonstrou que Trump procura elevar a presidência em 2026 a um capacho fiel e subserviente a suas ordens diretas”. Seja qual for o resultado do julgamento no STF (fechamos esta nota quando o STF se encaminhava para uma condenação), Bolsonaro continua inelegível por decisão do TSE. Eis porque, dizíamos, “era necessário avaliar como possibilidade que as ameaças visam a ajudar à formação de uma frente da direita e ultradireita contra Lula e aliados reformistas, que, em caso de ser vitoriosa em 2026, contará com seu apoio econômico e político direto para romper (ou diminuir) as trocas e acordos comerciais com a China”. Algumas semanas depois de escrita a Nota política, foram criando-se condições para essa “frente da direita e ultradireita contra Lula e aliados reformistas” tomar forma. Neste artigo, avançamos na análise de como vai se constituindo as bases de uma “frentona” da direita e ultradireita para derrotar Lula em 2026.
Frente ampla se estilhaça e a direita e a ultradireita convergem no armado eleitoral de 2026
Logo quando foi iniciado o julgamento no STF, PP e União Brasil (UB) anunciaram a formação da Federação “União Progressista” e seu objetivo de apoiar a candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Com quatro ministérios, o PP e a UB não pretendem ainda abandoná-los, e sim se aproveitar desses postos para usá-los em favor do armado eleitoral. Tarcísio se mostrou favorável a aprovar uma anistia geral ou reduzir as penas para os processados pelo 08/01/2023 visando atrair o “clã” Bolsonaro a sua candidatura. Ciro Gomes (PDT) se adaptou aos objetivos e interesses do PP, UB e Republicanos para uma legenda de “unidade nacional” para conquistar o governo cearense em 2026 – e mais governações e prefeituras em 2028. Estão em tratativas a integração do PSD, Novo e do MDB à “frentona” de oposição direitista antipetista.
Com a formação da “Federação União Progressista” (PP+UB), a direita garante imediatamente a maior bancada parlamentar que poderá servir a desestabilização (caso o PT ganhe as eleições) ou para a estabilização do próximo eleito (caso o PT seja derrotado). Além de garantir uma maior fatia do orçamento dos fundos partidários e eleitorais, maior tempo de propaganda eleitoral na TV e rádio, etc.
A guerra tarifária aberta por Trump serviu ao centrão e à direita para começar a tecer alianças com a ultradireita bolsonarista. O julgamento do STF contra Bolsonaro e aliados na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 impulsionou a aproximação da ultradireita a esses setores. A convergência ao redor das leis no Congresso procura avaliar a possibilidade de uma anistia aos que participaram da aventura. A maioria da população brasileira se pronunciou favorável ao processo do STF para estabelecer as responsabilidades do ex-presidente na trama golpista, ou seja, em apoio ao “devido processo”. Cresceu a popularidade de Lula (ainda que breve e conjunturalmente) após as manobras do “refugiado” Eduardo Bolsonaro trabalhando abertamente para o governo dos EUA contra o Brasil. Mas, um acordo ao redor das pautas reacionárias e da anistia garantiria o apoio de Bolsonaro (e do grande setor da população que continua na sua base eleitoral) ao candidato escolhido pela frente para derrotar o PT.
Congresso amplia a crise política do PT e aliados
O Congresso tem se tornado o campo preferencial para estabelecer as bases políticas da frente ampla da direita e ultradireita para 2026. Nesse sentido, têm sido aprovadas ou apresentadas diversas medidas e leis que se, de um lado, servem de campo prático para avaliar até onde chegam os acordos da “frente” de oposição, de outro, tem servido para desestabilizar o governo de Lula/Alckmin o obrigando a novas concessões para não perder apoio do Congresso para a aprovação dos projetos de seu interesse.
Foram aprovados ou estão em discussão diversos projetos de Lei: 1) o Senado aprovou por 50 votos contra 24 a alteração da Lei da Ficha Limpa que que reduz o prazo de inelegibilidade para políticos condenados (excetuando por crimes hediondos, lavagem de dinheiro e organização criminosa) a ser contado a partir da condenação, e não mais após o cumprimento da pena; 2) foi apresentado uma “PEC de Anistia” para os condenados pelo 8 de janeiro de 2023 que, incialmente, não incluiria condenados por organização criminosa e aqueles que promoveram atentados contra o “Estado de Direito”; 3) outra que retira do STF o julgamento de “autoridades envolvidas contra a democracia” ou desvio de emendas parlamentares (a chamada “PEC da Blindagem”); 4) se discute uma lei para proibir conteudo de sexualização de crianças em ambiente digital, deixando sem regulamentação a produção de conteúdos das empresas tecnológicas e o uso da IA; 5) está em discussão também a privatização da Caixa Econômica Federal, a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba), a Telebras e os Correios; 6) a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado aprovou (20/08/2025) um novo Código Eleitoral (PLP 112/2021) que: a) reduz as restrições a candidaturas de militares, policiais, juízes e funcionários do MP; b) implementa a impressão do voto electrônico por cada urna em “em local previamente lacrado”, o mesmo projeto rejeitado pelo STF por inconstitucional; c) elimina a padronização da apresentação das contas partidárias, restringindo a ação da Justiça Eleitoral apenas a erros contábeis, excluindo a apuração de superfaturamentos, desvio de fundos etc.
É a esse Congresso em que as relações de forças são claramente desfavoráveis aos “reformistas” que se submetem e subordinam as direções populares e sindicais das massas. Todas as iniciativas surgidas desde as bases em defesa das condições de trabalho (greves e manifestações pelo Fim da escala 6×1), greves impostas contra a vontade das direções em defesa do aumento e salários e contra o recorte dos direitos (Federais, Apeoesp, Sinpeem etc.) foram desmontadas e desviadas ao campo do democratismo burguês do plebiscito que reforça as ilusões democráticas e servem ao reformismo para tecer suas alianças eleitorais. As greves são traídas para impor goela abaixo os ataques e contrarreformas do governo, chamado a confiar nas negociatas parlamentares e nos “deputados de esquerda”. Traições, derrotas e entreguismo objetivam não prejudicar a candidatura de Lula para 2026, ou de quem seja designado pelo caudilho. Há até os ditos marxistas que justificam as traições.
Condições econômicas se apresentam sombrias para as massas em 2026
A situação econômica neste segundo semestre ficou relativamente estabilizada. A inflação não se apresenta como perigo imediato e a conjuntura trouxe ainda um novo fator derivado da guerra tarifária que contribui a sua estabilização: a redução dos preços de frango, café e carne com direto impacto nos salários. O projeto do Orçamento de 2026, da Lei Orçamentária Anual (LOA), foi enviada ao Parlamento com alterações quanto à previsão do crescimento econômico de 2,5 % para 2,44 %, enquanto se prevê a elevação do IPCA de 3,5% para 3,6%, acima da meta, que continua fixada em 3%.
No projeto de Orçamento se estima um salário mínimo de R$ 1.631 (R$ 123 a mais dos atuais R$ 1.518: um aumento de 7,44%.), que a taxa Selic fique em 13,11% em média; se reduza o montante destinado ao Bolsa Família, que ficará em R$ 158,6 bilhões (abaixo da meta fixada); reajuste de 6,4% no Novo PAC ficando em R$ 52,9 bilhões etc. O problema do governo reside em que esses orçamentos estarão dentro de um quadro de tendências de enfraquecimento das atividades econômicas e de ataques tarifários, o que levará o governo a realizar novos cortes orçamentários em serviços públicos, salários e direitos.
São sem dúvida os gastos com juros da dívida (somaram R$ 941,2 bilhões ou 7% do PIB nos últimos 12 meses) é a cadeia mais forte que impede o desenvolvimento econômico do país e a imediata melhoria das condições de vida das massas. Segundo estimativas, a relação entre dívida/PIB ultrapassará 80% no próximo ano. Isto acontece no momento em que o déficit nominal do setor público sobe para R$ 968,5 bilhões – maior nível desde dezembro de 2024. Pende sobre a cabeça do governo o gigantismo da dívida pública que consome grande parte da produção de riquezas e dos ingressos fiscais que são enviados ao exterior para enriquecer um punhado de parasitas, à custa de afundar as massas na miséria.
Agrava-se a tendência de desindustrialização e de gigantismo dos serviços e atividades extrativas, ou seja, a primarização da economia de acordo às imposições da divisão social do trabalho imposta pelos monopólios. Se bem a indústria de transformação cresceu minimamente (0,5%), o fez no quadro de quedas de até 4% nos últimos anos e de estagnação de janeiro a março. Segmentos da indústria decisivos para expansão das forças produtivas retrocedem (eletricidade, gás, água, esgoto e atividades de gestão de resíduos, transformação e construção). A guerra tarifária dos EUA agrava essa tendência e, tanto, os ataques contra os assalariados para manter os lucros dos patrões. O que no quadro de retrocesso dos investimentos produtivos (encarecendo os créditos) e consumo do estado em queda, refletem-se em um retrocesso na formação de capital fixo por parte do estado, mas também dos privados.
O déficit passou de 1,5% do PIB para 3,5%. Se o ano passado parte desse déficit se compensa por investimentos direitos (públicos e privados), aquecendo a economia, desde 2025 se configurou uma tendência contrária com a queda dos investimentos e encarecimento do crédito em nível mundial e, especialmente, pelas flutuações e instabilidade do dólar produto dos conflitos tarifários, que alteram permanente o valor de referência das mercadorias e dos créditos. As tendências de queda das atividades econômicas jogam contra o governo, e favorece à frente ampla da direita e ultradireita em formação.
Se bem os empregos cresceram, trata-se de empregos terceirizados ou diretamente sob a pejotização, o que puxa para baixo o preço dos salários e pressiona à mudança dos direitos trabalhistas em todos os setores assalariados. A aceitação pelo governo da pejotização significa enterrar a lei para a redução da jornada de trabalho antes mesmo de ser discutida, ou pelo menos, restringir a alguns setores de interesse da burocracia. A Reforma Administrativa completa o quadro de traições das direções sindicais e de Lula contra os assalariados.
A crise do governo é ditada pela desagregação do imperialismo norte-americano
A continuidade do apoio estadunidense à guerra na Ucrânia; a guerra comercial dos EUA desintegrando o mercado mundial e agravando os choques entre estados; a continuidade do genocídio palestino contando com a cumplicidade dos governos, incluído o de Lula; as ameaças contra Venezuela, a derrota do MAS na Bolívia e a capitulação da Argentina e do Equador aos EUA, dentre outros fatores, mostram que Trump encabeça uma violenta ofensiva contrarrevolucionária que objetiva impor rápidas mudanças nas relações econômicas e políticas contra os países que entravam seu expansionismo ou ensaiam uma limitada soberania. As imposições tarifárias arbitrárias e a aplicação de leis estrangeiras para punir funcionários do judiciário (Lei Magnitsky), assim como a pressão das empresas tecnológicas norte-americanas para barrar a regulamentação das atividades digitais no país, somam-se às pressões para o Brasil restringir as relações comerciais com a China e os BRICS. O objetivo de Trump é cercar e enfraquecer o governo Lula, criando as condições da vitória de uma frente ampla direitista em 2026.
Lula capitulou perante a guerra tarifária e capitulará também à direita para garantir um último ano sem muitos sobressaltos. As perdas dos exportadores foram parcialmente compensadas com a disposição da China de comprar café e outros produtos que perderam os mercados norte-americanos, etc. Sobretudo, após o governo dispor de R$ 30 bilhões para os exportadores e se orientar a facilitar ataques aos empregos e salários (Lay-Off, PDV’s, banco de horas, pejotização irrestrita etc.). Está garantido o Plano Safra para o ano que vêm que entrega bilhões aos capitalistas. Se mantêm e ampliam os ataques orçamentários do Arcabouço Fiscal para garantir o pagamento dos parasitas da dívida pública. Estão sendo negociadas licitações e entrega de minerais à exploração imperialista, como exigido pelos EUA. Foram leiloadas jazidas de petróleo à costa dos direitos dos povos indígenas. Estão sendo aprovadas leis regressivas para as condições de trabalho. O terceiro governo de Lula trouxe como um de seus resultados o aumento da riqueza dos bilionários brasileiros à costa da pejotização generalizada.
As medidas do governo são favoráveis aos monopólios e ao capital financeiro, e deveriam estar garantindo a governabilidade de Lula. Mas, essas condições relativamente favoráveis são arrasadas pelas tendências mundiais que se impõem pela força sobre o país. Sobre essa base se irá realizar a acomodação oportunista das forças burguesas e se processam os arranjos eleitorais para 2026.
Combater o governo burguês, o eleitoralismo e as traições das direções burocráticas
As greves, manifestações e atos deste último ano demonstraram que é a política das burocracias sindicais e das direções políticas e populares das massas enterrar e trair as greves para tentar garantir a reeleição de Lula em 2026. Os explorados pagarão com rebaixamento de salários, terceirização, privatizações e destruição de direitos para que as direções preservem a governabilidade do governo burguês que os ataca e destrói suas condições de vida. A defesa da democracia burguesa, portanto, da ditadura capitalista, é a palavra de ordem inclusive das correntes e partidos que se dizem do socialismo. Os centristas se arrastam por trás da estratégia burguesa para propagandear a Oposição de Esquerda.
Perante a embriaguez democratizante e a subserviência à democracia burguesa, a vanguarda com consciência de classe que não capitulou deve combater o democratismo e assinalar a via para efetivar a ruptura dos sindicatos e organizações com todos os governos burgueses. A luta pela independência de classe somente pode ser desenvolvida na base de um programa e de métodos revolucionários, que eleve o instinto comunista do proletariado à estratégia da revolução e ditadura proletárias.
