
O Internacionalista n° 32 / outubro de 2025
Editorial Internacional
O imperialismo caminha para um confronto contra as nações oprimidas e os estados operários degenerados
A tarefa colocada ao proletariado é transformar seu instinto em consciência revolucionária, fundindo suas lutas imediatas ao programa e estratégia da revolução e ditadura proletárias
Restando três meses para que se cumpra um ano de mandato de Donald Trump à frente da maior potência imperialista, já ficou claro que sua presidência inaugurou uma fase do imperialismo de crises contínuas – e cada vez mais violentas – na esfera da economia e da política mundial. De intervencionismo e ataques contra as nações que não se submetem a suas ordens e, sobretudo, de criação das condições objetivas para uma implosão de uma guerra que tem por principal alvo os estados operários degenerados. Trump é a expressão mais brutal e cínica dessa fase de completa barbárie capitalista.
Uma das manifestações desse percurso de crises, guerras e contrarrevoluções é a fusão nos EUA dos interesses da indústria militar aos dos gigantes da tecnologia de processamento de dados e da IA, revelados dois dos setores mais lucrativos ao capital financeiro no momento em que a lei tendencial à queda da taxa dos lucros monopolistas no marco do avançado processo de desindustrialização nos EUA e de acirramento da disputa com a China pelos mercados, obriga os capitalistas explorarem a guerra e a militarização das relações econômicas e políticas para fazer negócios lucrativos.
No quadro da destruição de forças produtivas dentro dos EUA, e de acirramento da concorrência contra a China – que domina parte desse mercado o inundando com produtos de alta qualidade e mais baratos, uma “taxa de retorno” de lucros muito demorada é insustentável para a fração da burguesia monopolista que atualmente determina a política do estado norte-americano. As Big-Techs (Meta, Amazon, Microsoft, Google e Tesla) investiram US$ 560 bilhões e recolheram dividendos de US$ 35 bilhões. A indústria tecnológica achou na técnica militar um campo para aplicar os avanços tecnológicos e, por meio de guerras e intervenções militares, realizar lucros mais rapidamente do que se poderiam conseguir na aplicação da IA à produção de meios de produção e meios de subsistência.
É nesse marco que se insere a guerra comercial contra China pelas controle de elementos químicos (minerais) com aplicação no desenvolvimento de tecnologias digitais, de produtos e visores de plasma, com aplicação civil (carros elétricos, por exemplo) e militar, chips e semicondutores, realidade virtual aumentada etc. e que condiciona a fusão dos monopólios ao estado e suas políticas. Isso explica porque o maior inversor de capital é o próprio estado, seja comprando ações das empresas da indústria militar e da IA, seja dispensando somas bilionárias em subsídios. E explica também porque os executivos da Meta, OpenAI e Palantir prestaram juramento ao Ministério de Guerra se incorporando no Departamento 201 (unidade de “inovação tecnológica” do exército) com patentes de tenentes-coronéis.
A China vem reagindo às ameaças crescentes do imperialismo norte-americano. Trump vinha publicitando estar perto de chegar a um acordo com a China. Acreditou que bastaria ameaçar esse país para impor sues interesses. Caiu como balde de água fria a suas especulações a decisão da China de restringir as exportações de 12 dos 17 elementos químicos chamados de “terras raras” para os EUA. Em resposta, Trump anunciou um aumento de 100% nas importações daquele país. A China está em melhores condições para ditar um futuro acordo econômico, uma vez que controla 70% da mineração mundial desses elementos e 90% de seu processamento industrial. Enquanto a China se fortalece e se projeta economicamente, os EUA retrocedem. O que deixa claro que haverá um agravamento da guerra comercial e das movimentações militares dos EUA na Ásia. O cerco contra China se realiza também nas regiões do mundo onde seus interesses comerciais têm se firmado, a exemplo da Bolívia e da Argentina.
Se aproveitando da crise e desagregação do governo Milei na Argentina, Trump acedeu a emprestar dinheiro para pagar a dívida pública e recompor as reservas fiscais em troca daquele país disponibilizar suas jazidas de terras raras em exclusivo benefício dos EUA e de “expulsar” a China do país. A militarização do Canal de Panamá e o intervencionismo contra a Venezuela é parte do objetivo de controlar as rotas comerciais mundiais e as fontes de recursos naturais indispensáveis para qualquer esforço econômico e de guerra. Soma-se ao agravamento dos choques com a China a decisão de prover de mísseis de longo alcance à Ucrânia para atingir a Rússia. Essa decisão demonstrou que a reunião de Alaska entre Trump e Putin foi apenas uma manobra de distração. A guerra contra a Rússia, que será financiada e custeada pela burguesia da Europa, será lucrativa para os EUA e permitirá cumprir um de seus principais objetivos histórico: “A destruição da propriedade nacionalizada e sua reconstrução parcial sob controle do capital financeiro”, o que somente é possível “com a derrubada da burocracia e desmembrar a China e a Rússia, as reintegrando ao capitalismo como semicolônias”. Esse é o conteúdo histórico e a tendência objetiva que movimenta a burguesia norte-americana na atual fase da crise.
O avanço da burguesia monopolista estadunidense a esses objetivos, não obstante, é permanente torpedeado pela implosão de violentas contradições internas aos EUA. Um dos obstáculos se revelou no momento em que implodiu um feroz choque no Congresso entre democratas e republicanos pela não aprovação do orçamento público federal. Esse impasse da disputa inter-burguesa ainda não foi plenamente resolvido, mas já começou a impactar os milhões de empregados públicos que estão obrigados a continuar trabalhando sem receber seus salários, ou perder seus empregos. O que tem agravado o choque entre oposição e situação levando à militarização de cidades e estados democratas por decisão de Trump. Trump se utiliza das forças armadas da Guarda Nacional para impor suas decisões e esmagar a resistência interna a seu programa e objetivos. E mais ainda: aproveitando do “apagão” federal anunciou a redução entre 20 e 30% do funcionalismo e cortes por US$ 2 bilhões em gastos.
Outro foco de acirramento das disputas inter-burguesas – e que se refletem no agravamento das dissensões internas com o governo – é a guerra tarifária desfreada que tem começado a atingir duramente os negócios da burguesia que realiza seus lucros no mercado interno do país. O aumento dos custos de produção, produto do aumento dos preços das matérias-primas importadas, foram, após uma momentânea absorção dos custos por meio do esgotamento dos stocks, repassados aos consumidores. De fevereiro a agosto, os preços dos monopólios que comercializam com produtos importados, além daqueles que têm as importações como insumo produtivo, subiram 14% para equipamentos eletrônicos, 8% para vestimenta e 5% em ferramentas e máquinas. Comércios de varejo aumentaram os preços de produtos eletrônicos e têxteis, alavancado a alta inflacionária. A isso combina-se a política imigratória que atingiu a indústria de mineração, da construção, do turismo, além do transporte e da logística: perderam-se até 35% dos postos de trabalho. Entretanto, tem se mostrado altamente lucrativa para um setor da burguesia. No caso da produção agrícola, o aumento das tarifas e os efeitos da política migratória levaram a uma queda das exportações e aumento das falências de produtores. A soja, milho, trigo, sorgo e algodão estão entre as culturas mais afetadas, com os EUA perdendo seu lugar de primeiro exportador de produtos e commodities agrícolas. Deixando claro que as políticas migratórias e comerciais de Trump contribuíram para agravar o cenário da crise industrial e comercial nos EUA.
A política imperialista sempre se baseou nas pilhagens, no roubo e no saque das nações por meio de medidas econômicas, dos golpes militares ou institucionais para trocar regimes que entravam o avanço de seus monopólios e do capital financeiro, bem como as guerras e intervenções militares para abrir mercados e dividir o mundo para impor seu controle. Mas, sob o governo Trump essa política se tornou claramente mafiosa. É o que comprova seu “plano de paz” para a Palestina que reinstala o protetorado imperialista sobre o Oriente Médio. Os negócios com a reconstrução de Gaza e os projetos imobiliários já aprovados por um cartel de monopólios (imperialistas, sionistas e árabes) se estendem para projetos energéticos para bloquear a Rota da Seda chinesa e cercar militarmente o Irã. Cada vez fica mais claro que não há separação entre guerra comercial e guerra militar promovida pelos EUA.
O curso da crise mundial, da guerra comercial, a destruição dos alicerces da diplomacia e dos métodos da democracia formal, combinada à militarização das relações econômicas e civis nas potências imperialistas, e à desagregação sectária de países árabes sob alvo do imperialismo e do sionismo, deixam em claro que não haverá paz enquanto existir o capitalismo. O que aguarda às massas e nações oprimidas é o acirramento da violência reacionária e contrarrevolucionária do imperialismo.
Contra a barbárie capitalista e a guerra mundial contra as nações oprimidas e contra os estados operários degenerados que se prepara chefiada pelos EUA, se deve opor a política, a tática e os métodos da luta de classes dos explorados e oprimidos pelo fim do capitalismo e pela vitória do socialismo. À guerra imperialista se deve responder com a guerra total, civil e militar, do proletariado e dos demais oprimidos do mundo todo pela derrota do imperialismo e a derrubada dos governos burgueses com a unidade anti-imperialista e anticapitalista, em cada país e também no mundo todo. É nesse quadro das tarefas colocadas imediatamente ao proletariado para preservar as forças produtivas sociais que o proletariado construiu com seu suor e sangue, e que libertadas das cadeias da propriedade privada burguesa e transformadas em propriedade estatizada acabarão com a fome e miséria, elevando a cultura e condições de vida das massas, está obrigado a reconstruir sua direção mundial revolucionária, e formar os partidos proletários revolucionários e internacionalistas em cada país como suas seções nacionais. É possível avançar nessa reconstrução se a vanguarda com consciência de classe em cada país se apoia firmemente nas lutas operárias e das massas e, por meio de um programa nacional de reivindicações e dos métodos da luta de classes, travam uma verdadeira guerra civil contra a burguesia e seus governos de turno. A palavra de ordem que guia a ação revolucionária da vanguarda e empurra objetiva e institivamente o proletariado à luta de classes continua sendo “socialismo ou barbárie”.
