O Internacionalista n° 32 / NOTAS INTERNACIONAIS / outubro de 2025


No dia 26 de outubro, acontecerão as eleições legislativas que renovam 127 dos 257 deputados, e 24 dos 72 senadores. O resultado dessas eleições poderá agravar a crise do governo de Milei aberta após sua derrota eleitoral no maior distrito eleitoral: o estado de Buenos Aires (40% do padrão eleitoral da Argentina). No estado, A Liberdade Avança (LA) de Milei foi derrotada esmagadoramente pelo peronismo, inclusive nas prefeituras onde estão enraizadas a agroindústria e os latifundiários, dois de seus principais apoios internos entre a burguesia nacional, além da pequena-burguesia rural e urbana.
Milei perdeu 17% dos apoios desde o começo de seu mandato. Em 2023, nas eleições presidenciais, obteve até 50% dos votos no estado de Buenos Aires, e agora despencou para 33% , perdendo em 6 das 8 seções eleitorais. Nas que ganhou, reduziu muito sua margem de vantagem sobre a oposição peronista. A derrota por mais de 14% superou até os mais pessimistas das análises prévias, indicando uma erosão rápida de seus apoios sociais e políticos. Sequer agora o governo consegue fazer campanhas e comícios sem seus atos estarem praticamente esvaziados e recebendo insultos da população. A queda eleitoral abre, assim, o caminho a uma crise política que afetará sua governabilidade. E isso acontece no quadro de uma série de derrotas no Congresso com projetos de lei orçamentários.
Milei vetou a Lei de Financiamento da Educação Universitária aprovada no Congresso em 2023, retornando ao Parlamento neste ano para seu veto ser jogado fora. No momento da plenária que levaria à derrubada do veto, aconteceu uma greve geral das universidades que exigia a manutenção da lei aprovada (ainda que insuficiente para manter a educação pública no nível de anos anteriores). A Lei atualizará pela inflação os repasses orçamentários e ordena ao executivo reabrir os Convênios Coletivos. Dias antes, tinha sido rejeitado o veto presidencial que congelava os gastos públicos para tratamentos médicos para pessoas com deficiência, além de que era aprovada a Lei de Emergência Pediátrica que impõe ao governo o financiamento do principal e maior hospital pediátrico da América Latina – o Garrahan. Aprovou-se também o repasse imediato de fundos federais para estados e municípios.
Milei já não tem mais como recorrer às manobras orçamentárias dos dois primeiros anos, quando se reduziam os recursos disponíveis para, depois, repassá-los discricionariamente para comprar os votos de deputados e de governadores. Cercados pelo agravamento da crise e as crescentes tendências da luta de classes, os governadores que antes negociavam com Milei para apoiar seus projetos, agora decidiram dar-lhe as costas e se aliaram ao peronismo no Congresso. O ultradireitista que contava com a vantagem inicial desses governadores e deputados, virou seu refém nos fatos.
Recentemente, apresentou-se um pedido de impeachment no Congresso contra o chefe do gabinete dos Ministros, Guillermo Francos, pela de suspender a execução da Lei de Emergência em Deficiência recém aprovada. Como se vê, trata-se de um governo desgastado e enfraquecido, incapaz de conter a crise política em meio ao acirramento dos choques inter-burgueses no seio das instituições. Mais um golpe recebeu Milei quando veio à tona os vínculos de José Luiz Espert, um dos principais candidatos a deputado pela LA, por vínculos comprovados com o narcotráfico.
Também o ultradireitista se acha cercado pelas críticas de importantes setores dos capitalistas que começam a criticar seu programa econômico. Caiu como balde de água fria a crítica do jornal The Economist que disse que a política econômica de Milei está presa a uma “dinâmica insustentável” que ameaça afundar o país na recessão. O aumento do preço do dólar arrastou para o buraco as importações, se refletindo em tendências recessivas logo potenciadas pelo quadro de desindustrialização e a queda dos investimentos produtivos. A venda das reservas acumuladas liquidou em 6 meses o empréstimo do FMI, de abril, por US$20 bilhões devido à intervenção do governo vendendo dólares para abaixar seu preço. O aumento do risco econômico fez chegar nas alturas as taxas dos empréstimos e dos títulos do tesouro (até três vezes mais caros), encarecendo o acesso ao crédito e indicando a insolvência do governo para pagá-los. Foi esse processo que empurrou o governo a solicitar um empréstimo direto à Reserva Federal dos EUA. Enquanto se desenvolvia a 80° Assembleia da ONU, Milei se reuniu com Trump e o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, rogando-lhes que efetivem um empréstimo para a Argentina via o Fundo de Estabilização Cambiária (ESF, em inglês). Em troca, Trump exigirá a instalação de bases norte-americanas no país, a entrega de reservas minerais, preferência em privatizações, novos recortes orçamentários e o pagamento de royalties para medicamentos de origem estadunidense em detrimento dos produzidos no país. Ou seja, aumentará a opressão nacional e o cerco contra os investimentos chineses no lítio e no cobre. Isto é, integrará ainda mais fisiologicamente o governo Milei à guerra comercial e às tendências bélicas traçadas contra a China.
Passados dois anos desde a vitória de Milei, a base social que lhe dera a vitória sofre as consequências do plano econômico fracassado. A massa dos assalariados mais precarizados, a juventude que recém ingressa ao emprego ou está desempregada (e almeja por soluções mágicas que elevem suas condições de vida individuais), bem como a pequena burguesia e um setor da grande burguesia que acreditavam que a violenta redução salarial e precarização seriam uma via para seu enriquecimento, aprendeu pela prática que em meio à desindustrialização e à queda dos ingressos dos assalariados, se estreitam as vendas e retrocede a atividade econômica, afetando seus lucros e negócios. A exportação que hipoteticamente poderia equacionar as quedas nas vendas e comércio no país, esbarrou com a guerra comercial e fechamento de mercados. A decomposição do governo expressa, portanto, a impossibilidade de uma saída capitalista à crise, seja no âmbito nacional, seja no internacional.
Paira sobre a economia a ameaça de uma recessão combinada à depreciação do valor do peso argentino imediatamente após as eleições. A desagregação do governo se combina à ascensão eleitoral do peronismo que melhora suas possibilidades de retomar o governo em 2028, e assombra à burguesia. Sobretudo, quando esse cenário se dá em um momento de fuga maciça de capitais e aumentos dos preços que liquidificam os salários, aumentando exponencialmente a possibilidade de uma explosão da luta de classes. As condições reais e objetivas para o governo ser derrotado pela ação direta dos explorados e demais oprimidos estão colocadas pelo aumento das greves e manifestações de massas. Mas, se interpõem em seu desenvolvimento as manobras do peronismo que contêm e desvia esse instinto de revolta para as instituições e eleições. A principal força de oposição burguesa não pretende desestabilizar o governo Milei, e se dispôs a discutir como “pacificar” a disputa política porque lhes resulta melhor a seus cálculos eleitorais manter ao farsesco personagem como presidente, e o desgastar política e publicamente, melhorando assim as condições de sua vitória eleitoral em 2028.
A crise do governo avança em meio ao aumento das greves e manifestações massivas e nacionais. Operários, assalariados, médicos, enfermeiros, estudantes, professores universitários e aposentados não podem esperar mais dois anos até as eleições. Cada dia que passa se afundam ainda mais na pobreza e na miséria. A única saída favorável a seus interesses é fazer recair o custo da crise gerada pelos capitalistas sobre os próprios capitalistas lutando pela defesa dos direitos conquistados, a imediata recomposição salarial e o emprego a todos com a luta de classes. Eleva-se em meio à crise do governo a bandeira anti-imperialista de anulação do pagamento da dívida e da expropriação do grande capital (sem indemnização) e sua estatização sob controle operário coletivo, visando colocar todos os recursos e forças produtivas em benefício das necessidades da nação e da maioria nacional oprimida.
Esse programa é parte da luta pela autodeterminação nacional e de ruptura com a opressão imperialista, que somente pode ser encarnado pelo proletariado conquistando sua independência de classe e sob a direção de seu partido revolucionário, erguendo a bandeira da derrubada do governo e da expropriação da burguesia. Isso significa organizar os explorados para romper com a colaboração de classes das direções subordinadas à oposição burguesa peronista, e ajudá-las a romper com suas ilusões na democracia burguesa, as aproximando do programa da revolução e ditadura proletárias.