
O Internacionalista n° 32 / NOTAS INTERNACIONAIS / outubro de 2025
EUA – Governo Trump
A caça aos imigrantes é um negócio lucrativo do setor da burguesia que se integrou ao funcionamento do estado
A ofensiva de Trump contra os imigrantes e o fortalecimento do poder de polícia da Agência de Fronteiras e Alfândegas /ICE (habilitada para invadir escolas, igrejas e hospitais à caça de imigrantes para os aprisionar e deportar sem o devido processo legal), revelou-se um esquema muito lucrativo para o sistema prisional privado dos EUA: quase 90% dos presos sob custódia do ICE estão detidos em instalações administradas por empresas privadas. Desde antes da posse de Trump, cresceram os investimentos de empresas como GEO Group e a CoreCivic associadas a fundos de investimento como BlackRock, Vanguard e Goldman Sachs etc. São US$ 45 bilhões os repassados pela “Big, Beautiful Bill” para esse setor que detém o monopólio da detenção de imigrantes. Outra das beneficiadas pela “lei” foi a Palantir, contratada pela ICE para monitorar e vigiar imigrantes via redes. Palantir cresceu em 53% na sua receita graças aos contratos governamentais e recebeu mais de US$ 255 milhões do Departamento de Segurança Interna para aplicação de tecnologias junto da Meta, Google e outras empresas.
No momento da vitória de Trump, o GEO Group tinha 18 mil leitos prisionais vazios, agora preenchidos pela caça indiscriminada de imigrantes. Isso significou US$ 400 milhões em receita anual adicional comparado ao ano anterior. A CoreCivic somou mais 28 mil leitos para prisões que administra investiu US$ 67 milhões em um novo centro de detenção na Virgínia, pelo qual almeja obter uma receita anual extra de US$ 40 milhões em repasses do governo federal. Foi com o objetivo de garantir os negócios de seus financiadores que o governo reforçou as capacidades repressivas da ICE, que passou receber US$ 170 bilhões (um valor muito superior ao orçamento militar da esmagadora maioria dos exércitos do planeta) triplicando assim seu orçamento em relação ao do ano passado.
Um dos “serviços” que mais tem crescido é o de transporte de migrantes presos. Allied Universal – que gasta em média US$ 800 mil ao ano com lobby no Congresso – por intermédio de subsidiária G4S Secure Solutions, fornece não apenas transporte e leitos em prisões nos Estados Unidos como serviços de “guarda armada” para empresas petrolíferas no Oriente Médio e policiais prisionais para Israel. A Acuity International (proveu “instrutores” para o exército iraquiano) fechou um contrato de US$ 985 milhões para transporte de crianças migrantes. A ISS Action, recebeu mais de US$ 100 milhões em três anos por “serviços de transporte terrestre e guarda” e “detenção emergencial” de imigrantes.
A ICE transformou-se em um instrumento ao serviço de um setor parasitário da burguesia norte-americana criando um “mercado” para seus negócios. Não apenas se encarrega de aumentar o número de detentos de forma ilegal e violenta para assim cobrir a “oferta” de leitos nas prisões privadas, como também garante pedidos constantes de suprimentos (algemas, transportes blindados, armas, serviços de intérpretes e tecnologia da informação) que são providos pelas empresas. Trata-se de um instrumento provido pelo Estado para a “criação” de mercados às empresas de segurança. Para cumprir esse objetivo, se oferece um aumento dos ingressos salariais de seus agentes por meio de um programa de incentivos e bônus para todos aqueles que superarem um número determinado de prisões: US$ 15 mil a mais com maiores “índices de produtividade” e até US$ 7,5 mil se participar de batidas noturnas. Entre bônus e salário, os agentes da ICE podem ganhar até US$ 234 mil ao ano, valor superior ao salário médio de um policial estadual (US$ 50 mil anuais). Essas vantagens têm atraído uma maior concorrência na procura de um posto na ICE, inclusive entre militares e policiais (da ativa e reformados). Entretanto, ainda não foram atingidas a meta de 3 mil detenções diárias exigidas por Trump. As prisões e detenções têm se transformado em um negócio no qual os imigrantes são incorporados aos cálculos contábeis dos negócios de um setor parasitário da burguesia e enriquece um setor da burocracia do estado que, para continuar se favorecendo, passa por cima de qualquer limite legal e jurídico. Os imigrantes são apenas a “matéria-prima” dessa rentável indústria.
Há uma estreita relação entre as empresas do setor com organismos estatais encarregados das detenções. Tom Homan, ex-diretor interino do ICE dos EUA, foi consultor (acionista) no GEO Group. Pam Bondi, ex-procuradora-geral da Flórida, foi lobista para a mesma empresa em 2019. Homan hoje é responsável pelo cuidado das fronteiras e Bondi é procuradora-geral dos EUA. Como assinalamos no jornal O Internacionalista n° 31 (“Como caracterizar o governo Trump”, setembro de 2025), “as tendências centralistas e autoritárias de Trump” permitem extrair de sua função “seus próprios benefícios políticos ou econômicos”, o que ainda se reflete no fato de “Uma parte considerável da burocracia estatal (civil e militar) e dos empresários” do projeto MAGA sejam “os principais beneficiários da política do governo”.
Como assinalamos na nota “Como caracterizar o governo Trump”, de O Internacionalista n° 30 (setembro de 2025), a fusão do estado à estrutura de empresas monopolistas tem se revelado uma tendência inerente ao estado burguês que alcançou o grau mais elevado da concentração monopolista e que, hoje, se enfrenta às contradições dialéticas surgidas do processo de desindustrialização. Se bem os monopólios estadunidenses conservam o controle sobre grande parte dos processos produtivos realizados externamente ao país, o esvaziamento de indústrias e encadeamento de processos produtivos dentro do país têm se mostrado contraproducente na guerra comercial travada contra as forças produtivas em expansão da China. O controle de processos produtivos serve ao enriquecimento dos capitalistas, mas submete a indústria norte-americana a depender das condições sociais, políticas e econômicas de outros países. Essa dialética histórica imposta pela lei da procura de lucros se revelou em toda sua magnitude na Inglaterra, que passou de nação mais industrializada (base sobre a qual constitui seu império) a uma nação que carece de capacidade de concorrer no mercado.
A decomposição econômica dos EUA combina-se ao avanço ao autoritarismo e do terrorismo de estado para criar um campo vasto para os negócios parasitários (e criminosos) de frações da burguesia que sobrevivem se alimentado de recursos públicos. Seus negócios incidem nas estatísticas econômicas, ajudando assim o governo Trump a falsificar os dados do crescimento econômico. Mas, é fato que existe uma queda do PIB, perdem-se empregos, se agrava a baixa qualificação da mão de obra e a queda de investimentos produtivos. Revela-se assim a verdadeira natureza da militarização e da repressão do estado vinculados aos negócios do sistema prisional e de segurança privados. Consome-se uma maior quota parte da mais-valia criada na produção para garantir o parasitismo de um setor da burguesia que consome improdutivamente grande parte das riquezas sem aumentar a base técnica da produção social industrial. O mesmo parasitismo se revela no aumento das tarifas para se apropriar de maior fatia da mais-valia produzida no mundo todo. A política econômica de Trump não se encaminha a revitalizar a indústria e os setores da transformação, ou seja, a ampliar a massa de valor produzida no país, e sim a proceder à distribuição da massa de mais-valia já criada por meio da transferência violenta de ingressos dos explorados para os exploradores. Isto é, uma via artificial de garantir maiores lucros destruindo as condições de vida das massas. A política econômica de Trump é a sistematização de um roubo imposto à força sobre países e as massas para manter os lucros da burguesia parasitária norte-americana.
Esse é o conteúdo objetivo, econômico, das tendências de militarização e projeção das ameaças bélicas que deram um salto à frente no segundo mandato de Trump com a guerra contra Irã, aumentando a produção de armas para a guerra na Ucrânia, com as manobras bélicas sobre as fronteiras chinesas e ameaça intervencionista na Venezuela. O governo Trump, como caracterizamos no Editorial Internacional de OI n° 31, se prepara para impor militarmente a expropriação e roubo a todo o planeta.
A derrocada do governo Trump pelo proletariado norte-americano, constituído em classe independente e tendo a sua cabeça um partido revolucionário, demonstra-se como a única saída colocada ao país para evitar avancem as condições de um governo de feições ditatoriais abertas, um governo bonapartista e fascistizante, além de ser um poderoso freio à uma nova guerra mundial. Por sua vez, a reconstrução da direção mundial da revolução e ditadura proletária no mundo permitiria aos explorados e oprimidos agirem pela derrubada de seus governos e abrir caminho ao socialismo, enfraquecendo o imperialismo norte-americano e favorecendo a luta de classes ao interior dos EUA.
Eis como salta à luz do dia o profundo retrocesso imposto ao proletariado pela destruição de sua direção revolucionária pelo estalinismo e a degenerescência revisionista dos partidos que se reclamam marxistas. Mas, a luta de classes também cria as condições de sua superação. A reconstrução da direção revolucionária mundial passará imediatamente pelo desenvolvimento da luta de classes das massas em defesa de suas condições de vida e pelo apoio incondicional à luta dos povos e nações oprimidas.
