
O Internacionalista n° 33 / NACIONAL / novembro de 2025
Boulos Ministro
Boulos ministro do governo burguês de frente ampla
O Psol retira sua máscara carnavalesca de independência e mostra seu verdadeiro rosto democratizante e de subserviência ao governo de frente ampla burguesa.
Guilherme Boulos (Psol) assumiu o ministério da Secretaria-Geral da Presidência a pedido de Lula. O ministério não incide sobre as decisões e medidas econômicas, políticas ou administrativas do governo federal. Sua “importância” reside em servir às relações do governo com movimentos e sindicatos visando à reeleição de Lula. Boulos não terá qualquer poder de modificar os rumos dos ataques aos direitos dos povos indígenas, de privatizações dos serviços públicos e de contrarreformas. Mas, deverá assumir a defesa do governo e trabalhar eleitoralmente por Lula no momento em que o governo e o Congresso acirram sua ofensiva contra os empregos, os salários e os direitos dos trabalhadores.
Em troca de servir de cabo eleitoral a Lula, Boulos estaria impossibilitado de se candidatar mais uma vez como deputado. Entretanto, é bem provável que esse tenha calculado bem sua movida pessoal para usar seu posto ministerial para ampliar sua base política e social. Boulos assumiu historicamente uma posição cômoda de aparentar ser independente para, assim, arrastar um setor dos explorados por trás de Lula. Isso favorecia seus interesses de continuar a dirigir um setor das massas e negociar com os governos petistas projetos de moradia e subsídios que garantissem essa ascendência. Seu oportunismo ludibriou muitos honestos militantes populares e sindicais enceguecidos com sua ascendência social.
Lula é o maior beneficiado pelo “acordo”. Não por acaso tornou-se experiente no “toma lá, dá cá” da política burguesa. Precisa de um dirigente social com ampla influência entre um setor dos explorados não organizados pelos sindicatos e que o caudilho não controla diretamente. Seu objetivo é garantir sua popularidade eleitoral entre esses setores para contar com maior possibilidade de vitória, enquanto continua negociando no Congresso as medidas de ataque e as contrarreformas. Ficou bem claro nestes últimos anos que o governo “fatia” ministérios visando estabelecer uma verdadeira feira de compra e venda de apoios políticos e eleitorais. Enquanto os “lotes” de menor valor vão para os “radicais” para que sirvam à agitação de sua base eleitoral, os de “maior” valor (ministérios estratégicos, empresas estatais e órgãos federais de controle ou fiscalização) se entregam aqueles partidos e coalizões que têm mais poder à hora de negociar alianças regionais eleitoralmente, ou projetos de leis no Congresso.
O Psol começou uma campanha para ludibriar suas bases com a suposta significação “progressista” da nomeação de Boulos. Apresentam-na como uma “virada” à esquerda de Lula em direção aos movimentos sociais e as “lutas populares”, além de que irá garantir à esquerda uma maior capacidade de “pressionar” o governo e, assim, dar um “giro” de 180° a suas medidas mais “impopulares”. O contrário é verdadeiro: com a integração de Boulos ao governo burguês, também a direção do Psol (que o escolheu como candidato e defendeu sua decisão de entrar no governo) assumirá mais acirradamente a defesa do governo de frente ampla da burguesia e, nesse sentido, terão de cumprir a função de traidores dos movimentos e greves que ameacem a candidatura de Lula ou sua governabilidade. Isso se verá ainda mais claro com as direções sindicais do funcionalismo sob controle do Psol ou de suas correntes internas. Se de um lado irão se mostrar mais “radicalizadas” no discurso contra o Congresso e convocar mobilizações controladas para servir de tribuna eleitoral à reeleição de Lula, de outro farão de tudo para evitar a generalização das lutas e trairão a luta contra a Reforma Administrativa e o governo de Lula.
Segundo um “marxista” que se passou desavergonhadamente ao campo político burguês (nos referimos a Valério Arcary), a integração de Boulos ao governo não compromete a independência do Psol porque está “licenciado” de seu cargo de direção. Acoberta-se assim o descumprimento das resoluções tomadas pelo partido de que nenhum membro poderia assumir cargos no governo perante o qual eles, supostamente, são “independentes”. A integração de psolistas ao governo burguês foi apoiada pela mesma maioria que permitiu rasgar essa decisão. A formalidade utilizada por Arcary para defender Boulos é um truque tipicamente burguês. O Psol quer parasitar a figura de Boulos para ampliar seu caudal eleitoral. Boulos se utiliza desse partido para posar de “socialista” e agora usará o ministério para ampliar sua base eleitoral e, assim, se mostrar como “sucessor” de Lula. Esse oportunismo desavergonhado poderá desatar uma luta interna virulenta no Psol, ou levar a novas rupturas. Inúmeras são as correntes centristas que parasitam durante anos desse partido e se acobertam por trás de sua máscara “socialista” para lançar candidaturas próprias. Com a nova viragem ficarão mais isoladas, e terão de romper ou se submeter ao governismo de sua direção e correntes majoritárias.
É hipócrita se dizer independente do governo e, ao mesmo tempo, a assumir sua defesa quando seus membros mais destacados assumem ministérios e passam a defender seus ataques contra as massas, embora tentem enganá-las responsabilizando apenas o Congresso. Edmilson Rodrigues se uniu à gestão reacionária da prefeitura de Belém. Marcelo Freixo abandonou todo seu programa “progressista” para tentar ser eleito no Rio de Janeiro. Sônia Guajajara cala a boca perante a ofensiva entreguista do petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, que ameaça destruir os ecossistemas e territórios dos povos indígenas que ela devia defender. Quando candidato a prefeito de São Paulo, Boulos assumiu um programa de segurança reacionário, rejeitou defender as reivindicações do movimento que o ergueu como lider e calou a boca perante o genocídio palestino por temor a seus apoiadores sionistas. Fazer acreditar às massas que Boulos fará diferente sendo ministro de Lula serve à enganação eleitoral.
O Psol se integrou ao governo burguês visando garantir seus interesses eleitorais. Esse caminho é percorrido pelas correntes internas majoritárias do Psol na APEOESP e no SINPEEM. Nesses sindicatos, romperam as oposições ou as arrastaram por trás do PT (como no Sinpeem) e se integraram à burocracia petista e pecedebista (PCdoB) defendendo suas traições e servindo de instrumento de disciplinamento burocrático de um setor da vanguarda que acredita (ingênua ou interessadamente) que o Psol joga um papel progressivo na luta de classes. O certo é que viraram algozes da vanguarda e das categorias ao defender os ataques e acompanhar à burocracia na sua traição às tendências grevistas. Só um falsificador poderia afirmar que os membros do Psol farão diferente sendo ministros de um governo que aprova ataques trás ataques contra as massas.
A nomeação de Boulos e seu objetivo estritamente eleitoral demonstram que a vanguarda com consciência de classe deve dar as costas ao “socialistas” que abandonaram o campo da independência de classe para se subordinar aos objetivos do PT e seu caudilho, visando garantir sua reeleição que (se eleito) erguerá mais um governo de continuidade ao serviço dos interesses do grande capital, e seguirá assentado nas negociatas com as frações burguesas oligárquicas que controlam o Congresso.
Mas, tampouco se deve deixar enganar pelos que denunciando corretamente essa traição do Psol e Boulos, convergem com os reformistas em defender que a saída à crise e destruição das condições de vida das massas reside em votar candidatos “socialistas” da Oposição de Esquerda. Não há saída favorável para as necessidades das massas pela via eleitoral, e sim pela via da luta de classes organizada nacional e unitariamente sobre a base da ação direta de massas. Eis como as massas na prática concreta de defender suas condições de vida e direitos com seus próprios métodos de luta farão a experiência com a impossibilidade de garantir suas necessidades pela via das instituições burguesas.
Nas condições ditadas pela disputa inter-burguesa e decomposição democratizante das esquerdas ditas de socialistas, ressalta a tarefa da defesa do Voto Nulo Programático que tem por conteúdo a defesa da estratégia proletária, e que permite os explorados e oprimidos se aproximarem do programa da revolução social e dos métodos que irão os libertar, finalmente, da opressão social e nacional. Essa tática é imposta pelas condições em que a legislação burguesa restritiva e ditatorial impede ao partido revolucionário apresentar seus candidatos e defender abertamente seu programa. E também se ergue como uma denúncia contra todos os partidos e frentes de esquerda que abandonaram a tática eleitoral leninista, e terminaram se acomodando à democracia formal que preserva a ditadura da burguesia.
