
O Internacionalista n° 33 / novembro de 2025
Editorial Internacional
EUA está no centro das tendências desagregadoras do capitalismo marcado pelas crescentes tendências bélicas
Não haverá saída à barbárie de uma nova guerra em escala mundial sem que as massas combatam seus governos, avancem à luta de classes e confluam com seu partido revolucionário
Tivemos como foco principal de nossos editoriais internacionais os EUA e as tendências que emanam de sua desagregação capitalista, reconhecendo, assim, que suas medidas e políticas internas e externas refletem o grau mais alto das condições objetivas para uma guerra em escala mundial ser escalada visando, particularmente, à destruição dos estados operários degenerados da Rússia e China.
Se a explicação materialista da crise capitalista reside no choque objetivo entre as forças produtivas sociais, altamente desenvolvidas, com a propriedade privada monopolista comprimidas pelas fronteiras nacionais, se necessita ainda explicar que as relações mundiais surgidas de pós-Primeira Guerra Mundial e, sobretudo, com o surgimento revoluções proletárias, esse choque tem por base objetiva a luta a morte entre Rússia e China, de um lado, e os estados imperialistas chefiados pelos EUA, de outro. Esse fenômeno histórico é facilmente observável, o que tem levado os revisionistas do marxismo a acreditar que isso deverá bastar, junto à existência de relações capitalistas nesses países, para caracterizar que se trata de uma disputa inter-imperialista. E assim, é necessário “combater ambos os imperialismos”, assumindo uma posição derrotista igualmente aplicada a cada situação política mundial que encontra esses estados por trás dos conflitos econômicos, dos genocídios ou das guerras civis internacionalizadas.
Não pretendemos neste breve espaço do que dispomos demonstrar a falsificação e erros impressionistas da caracterização da Rússia ou China como imperialistas. A base teórica da qual se parte para essa caracterização é incapaz de explicar as bases econômicas e de classe dos estados, além de recorrer ao impressionismo e aos recursos literários de interpretação retórica dos clássicos. Nossa caracterização, quase única entre as esquerdas que se reivindicam do marxismo, é que Rússia e China são estados operários, ainda que profundamente degenerados. De forma que a manifestação entre o choque acima citado se materializa, objetiva e historicamente, pelo que Lênin assumiu seria o choque fundamental iniciado após a Revolução de 1917: a luta a morte entre as economias capitalistas em decomposição e as economias estatizadas pelo proletariado revolucionário.
O curso do último século tem demonstrado o acerto desse prognóstico histórico de Lênin. Certo é que a desagregação capitalista é conjunturalmente contornada com a destruição periódica de forças produtivas e contrarreformas, somado ao processo de restauração capitalista do leste europeu, além das guerras e agravamento da opressão nacional sobre as semi-colonias. Mas, esse curso contrarrevolucionário da fase imperialista do capitalismo foi inicialmente bloqueado pelas revoluções proletárias, abrindo passagem ao longo e contraditório período histórico de choques e confrontos entre os estados operários e os estados capitalistas que expressam a fase do imperialismo mais desenvolvido. Curso esse que também sofreu (e sofre) permanentes golpes e recuos sob efeitos da contrarrevolução ao interior dos estados operários. Essa dialética histórica foi confirmada por Trotsky em seu combate à burocratização, caracterizando que enquanto permanecer em pé a propriedade estatizada pela revolução, a situação política mundial seguiria o rumo previsto de forma geral por Lênin.
Nos permitimos esta explicação inicial para melhor demonstrar o porquê de os choques mundiais enfrentarem à Rússia e China em todo o mundo contra toda a órbita dos países capitalistas, especialmente, os imperialistas. Durante inúmeras editorias e folhetos temos tentado demonstrar esse ponto de partida de nossa análise e, por isso, não iremos aqui repetir as explicações, análises e formulações. Apenas trazemos essa exposição para explicar o fundamento de serem os EUA o maior impulsionador e motor dos conflitos mundiais, expressão objetiva de sua desagregação capitalista.
Os EUA se tornaram a potência imperialista dominante desde meados do século passado, após a divisão do mundo resultante da Segunda Guerra Mundial inter-imperialista. Mas, não se deve obscurecer que essa guerra teve como campo histórico de fundo o enfrentamento de dois sistemas econômicos antagônicos: as economias capitalistas monopolistas já plenamente desenvolvidas e em curso de decomposição, e as economias nacionalizadas pelas revoluções proletárias que criaram uma nova e portentosa realidade econômica e política que, apesar das deformações, é antagônica à existência do capitalismo. Esse para sobreviver precisa destruir a economia nacionalizada destruindo os Estados Operários projetando as intervenções militares, promovendo as guerras civis ao interior dos estados que expropriaram a burguesia e utilizando um setor da burocracia como palanque para a burocracia reconstituir à burguesia como classe dominante da economia e do estado. Esse processo que culmina a restauração capitalista, transformando esses países em semi-colônia, a única via histórica que Trotsky afirmava servir de guia à restauração capitalista completa, na Rússia e na China.
Para o capitalismo sobreviver não precisa apenas dividir o mundo mais uma vez, ou levar até a exaustão à força de trabalho; mas também destruir as forças produtivas desenvolvidas sobre a base da propriedade nacionalizada pelas revoluções. Destruí-las para reconstruí-las parcialmente sob seu direito controle, acessando ainda a recursos que lhe permitam conjunturalmente fugir da desagregadora lei tendencial à queda da taxa dos lucros monopolistas que é o motor que impulsiona a desagregação capitalista nos próprios Estados Unidos. A guerra comercial travada pelos EUA contra praticamente todas as nações decorre desse curso histórico. A guerra tarifária trouxe para os EUA um grande volume de valores criados em outros países, sem que tenha se refletido no aumento de suas forças produtivas internas. Em sua decomposição, o imperialismo norte-americano recorreu a “roubar” parte da mais-valia mundial que logo alimenta sua indústria militar e às empresas tecnológicas “supervalorizadas”, sem que a indústria que garante as condições para a reprodução ampliada de valores. Dito em outras palavras: o roubo alimenta setores muito lucrativos, mas que não modificam (e sim aprofundam) o retrocesso das forças produtivas. A política trumpista se caracteriza pelo exacerbado peso do parasitismo como o fundamento do conjuntural crescimento econômico, o que agrava a crise estrutural dos EUA.
Trump e Xi-Jinping acordaram uma “trégua” na guerra comercial na reunião do ASEAN realizada na Coreia do Sul. Basta ver o conteúdo do acordo para observar que houve um recuo dos EUA imposto pela necessidade de “ganhar tempo” para preparar as condições mais favoráveis ao imperialismo em seu objetivo de “derrota estratégica” da China. O mesmo conteúdo teve o retrocesso do “processo de paz” que Trump acreditava imporia à Rússia recorrendo a ameaças. O fato é que a China continua crescendo e se desenvolvendo, enquanto a Ucrânia se encaminha para uma derrota inevitável e não pela falta de recursos jogados pelo imperialismo contra Rússia e China, e sim pelo poder industrial, técnico e, portanto, econômico desses países – enquanto os EUA retrocedem. Eis porquê os “acordos” terão um fôlego curto e logo virão novas ameaças, tarifas e cercos militares.
A incapacidade dos EUA (além de Europa) de impor à China e Rússia seus ditames reforçam a tendência objetiva da criação das condições de uma guerra em escala mundial. Mas, tampouco é seguro para o imperialismo afundar por esse caminho que exige contar com reservas de recursos naturais, matérias-primas, capacidades produtivas, força de trabalho especializada e domínio das áreas sensíveis da produção de tecnologia (assim como de suas cadeias de insumos essenciais), capital disponível e fontes de recursos fiscais, além de uma direção política e estatal centralizada e coesa para maximizar os esforços humanos e os recursos materiais. Grande parte dessas condições estão ausentes nos EUA e na Europa, enquanto China e Rússia criaram as condições objetivas mínimas e necessárias para isso.
Não há saída para a crise dos EUA a não ser pela guerra, pelo agravamento da opressão nacional, a destruição de forças produtivas em escala planetária e sem rebaixar as condições de vida da força de trabalho ao mínimo tolerável. E é com essa compreensão que se deve elaborar a linha, táticas e métodos da luta de classes. O principal inimigo dos explorados e oprimidos é o imperialismo. Sua derrota sempre favorecerá à luta de classes e à preservação das conquistas revolucionárias do proletariado: as propriedades nacionalizadas. A derrubada da burocracia reacionária por meio da Revolução Política seria decisiva não apenas para fazer essa defensa nas melhores condições como, fundamentalmente para a derrota imperialista mobilizando todos os recurso e forças dos estados operário regenerados pelo controle do proletariado e massas oprimidas da economia e do estado, apoiar com recursos, bens, equipamentos e todo o necessário às lutas contra o imperialismo e seus vassalos.
Em todas partes do mundo explodem e projetam revoltas e lutas defensivas do proletariado e das massas populares contra os ataques às condições de vida, em defesa das nações oprimidas e contra a burguesia e seus governos. Organizar, coordenar e unificar essas lutas sob um programa comum sob a direção da vanguarda proletária organizada em partido revolucionário, é uma tarefa histórica insubstituível e urgente. O avanço à luta de classes na Europa, por exemplo, enfraqueceria a burguesia imperialista e poderia impulsionar a derrota da OTAN na Ucrânia. A derrota do sionismo e o avanço das massas árabes ao objetivo da destruição do Estado de Israel teria como resultado uma maior fraqueza dos EUA e fortaleceria a luta de classes contra os governos serviçais sob o programa revolucionário. Entretanto, será no coração dos EUA que se irá cravar uma estaca mortal à burguesia imperialista se sua classe operária conquistar sua independência e se projeta em luta contra sua burguesia e estado.
Dar passos nessa tarefa objetiva colocada pela história já desde 1917, porém, não poderá sequer ser dados sem que se reconstrua a direção mundial do proletariado e se forjem partidos que se guiem pelo marxismo-leninismo-trotskismo em cada país, como suas seções nacionais. Quanto mais urgente torna-se libertar à humanidade das crises, das guerras e contrarrevoluções, mais urgente se verifica a necessidade de criar essas condições subjetivas e políticas para abrir caminho às revoluções.
