
O Internacionalista n° 33 / NOTAS INTERNACIONAIS / novembro de 2025
Argentina
As massas devem combater o governo, abandonar suas ilusões democráticas e avançar a seus métodos próprios de luta
Após uma esmagadora derrota na eleição à assembleia legislativa do maior distrito eleitoral, o estado de Buenos Aires (40% do padrão eleitoral da Argentina), caindo de 50% dos votos para 33% em dois anos, A Liberdade Avança (LA) do presidente ultradireitista Milei venceu as eleições legislativas obtendo a maioria dos votos: 40,84%. O peronismo da União pela Pátria (UP) teve 34,8%. O ensaio “independente” de partidos provinciais (“Províncias unidas”) da UCR e do PRO (partido de Mauricio Macri) obteve apenas 5,12%. A centrista Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FET), 3,71%, – com três deputados. A abstenção foi de 34%, a mais elevado desde a redemocratização em 1983
A vitória surpreendeu porque o governo vinha de uma queda em queda brusca não apenas na eleições estadual de Buenos Aires, como de escândalos de corrupção comprovados (ANDISA – Agência de Deficiência – e a corrupção da bitcoin $LIBRA) e de que parte de seus candidatos foram ligados à burguesia narcotraficante, levando à saída de José Luis Espert, principal candidato de ALA, por sua ligação com um “chefe narco” que foi extraditado aos EUA. Vinha inclusive de uma derrota no Congresso que rejeitou seus vetos e de enfrentar os estragos da crise e a explosão dos conflitos sociais e sindicais.
Que foi, então, que permitiu ao governo em crise repontar e ganhar? Do ponto de vista político, a vitória expressa o “retorno” ao covil libertário de deputados, senadores e governadores do partido de Mauricio Macri, o PRO, hoje dissolvido, que os deixou procurando benesses (orçamentárias) para seus estados e municípios que garantissem seus interesses particulares junto de Milei. A vitória não oculta, porém, a queda da popularidade de Milei. Perdeu 15% de votantes que o elevaram à presidente há dois anos, e que se somam aos que já não votam por não confiar nem na situação e nem na oposição. Assim, o fator decisivo político da vitória é a desagregação dos partidos burgueses tradicionais denunciados pelas massas de responsáveis de as afundar na pobreza e miséria generalizada por várias décadas
Os resultados eleitorais demonstram ainda que os estados e municípios de maiores ingressos salariais foram muito disputados pela UP e ALA. Quanto aos distritos com assalariados e setores de menores ingressos, se dividiram entre ambos os partidos. Ocorre que a crise de 2000/2001 erodiu gravemente a capacidade do peronismo e radicalismo (UCR), anteriormente os maiores partidos da ordem burguesa, de arrastar eleitoralmente os mais pobres e miseráveis. O fato de um grande setor dos assalariados abraçarem as promessas de Milei decorre dessa rejeição das massas aos partidos que responsabilizam por sua situação econômica e social em queda. Sem dúvida pesou também as contínuas traições das burocracias sindicais, quase todas elas peronistas, contra as lutas dos trabalhadores. A perda de qualquer referência classista na luta das massas e o contínuo abandono das direções sindicais dos setores não sindicalizados e mais empobrecidos dos trabalhadores, criaram um caldo de cultivo para que os anseios de elevação na escala social e a rejeição dos partidos e sindicatos servissem, conjunturalmente, ao fortalecimento da ultradireita que repete todas chagas e corrupção dos governos anteriores, mas que lhes promete melhorar suas condições de vida rebaixando a de todos os assalariados.
Enquanto o regime burguês nega qualquer solução coletiva aos problemas sociais e econômicos, e está ausente uma direção marxista capaz de elevar a consciência dos explorados, setores desses são arrastados pela demagogia ultradireitista e as promessas de soluções mágicas e pessoais. Está aí manifestado o conteúdo fascitizante do governo ultradireitista de Milei, enquanto seu verdadeiro inimigo de classe – a burguesia – enriquece atacando a todos os assalariados, sem distinção. Sabemos que a ideologia e as promessas não dão de comer e nem garantem condições dignas de vida, embora possam servir conjunturalmente para ludibriar as massas. entretanto, será o rumo econômico imposto pelo imperialismo que criará também as condições de explosões e revolta operárias e populares. Importa assinalar, aliás, que as massas não se direitizaram e sim que a ultradireita foi caminho ao encontro de seu desespero lhes provendo soluções mágicas que ainda conseguem as arrastar.
Sem dúvida, o fator decisivo para a vitória de Milei foi o terror espalhado pelos EUA que emprestou dinheiro e ameaçou não o fazer, caso aquele fosse derrotado. A ameaça de um panorama social mais sombrio para as condições de vida das massas levou a favorecimento a Milei que se apresentou como depositário dessa confiança dos EUA. Os mais de US$ 40 bilhões de dólares emprestados pelo Tesouro dos EUA e empresas e bancos privados aparecem como tábua de salvação para milhões de pessoas que acreditam que seria a única forma de manter a economia com respirador artificial. Apesar do bilionário “resgate” servir para que vencesse as eleições, não lhe servirá mais quando a crise voltar a se manifestar e o dinheiro emprestado “esfumar” sem qualquer melhoria na vida das massas e da nação oprimida. Soube-se que o empréstimo está condicionado à entrega de todos os recursos minerais para a exploração pelos EUA e da exigência de privatizações em benefício dos bancos e monopólios que puseram o dinheiro para o empréstimo. Passada a euforia eleitoral, as massas se verão em uma situação piorada pelo fato de o Congresso apoiar a contrarreforma trabalhista, previdenciária, fiscal e orçamentária de Milei que, longe de apagar os conflitos e a luta de classes, irão os projetar.
É importante que os marxistas avaliem – objetiva e concretamente – essa situação contraditória. Se bem houve um elevado abstencionismo, isso não significa o fim das ilusões das massas na democracia e regime burgueses. Ausente a política revolucionária, e estando ainda as massas sob controle das burocracias sindicais burguesas, significa tão somente desconfiança passiva e despolitizada. A decomposição do regime, das instituições e da democracia formal burguesas, sem se lhe contrapor a estratégia e métodos revolucionários, irá favorecer ainda mais a ultradireita, e não ao reformismo e nacionalismo-burguês, que decompõem junto do capitalismo que defendem.
Se bem não tivemos com prever a vitória de Milei, desconhecendo na prática a importância para as massas da “estabilidade econômica” prometida pelo bilionário empréstimo dos EUA, temos sim como manter nosso prognóstico de que o curso traçado por Milei levará a sua repulsa pelos mesmos que o votaram. Como afirmamos no jornal anterior (OI n° 32, de outubro, “O governo ultradireitista de Milei se desagrega sob os impactos das crises econômica e política”), não há outro caminho que organizar as massas no campo de sua independência de classe e as organizar para derrotar os ataques que virão. Destacarão as bandeiras anti-imperialistas e a defesa das reivindicações mais elementares das massas no momento em que os EUA colonizam as decisões políticas e medidas econômicas do governo Milei.
Porém, continua ausente a direção revolucionária que ajude às massas a se elevarem a essa compreensão histórica e avançar pelo caminho da revolução e ditadura proletárias. Não se pode obscurecer o fato que a ultradireita e as saídas ditatoriais podem sair fortalecidas em detrimento do reformismo e da democracia burguesa. É com essa perspectiva que deve trabalhar a vanguarda preparando a luta pela derrubada do governo, expropriação da burguesia entreguista e a expulsão do imperialismo. O caminho da emancipação ideológica dos explorados, portanto, passa pelo combate à ultradireita com seus próprios métodos e também contra o nacionalismo-burguês que se direitizou.
