


O Internacionalista n° 33 / NOTAS INTERNACIONAIS / novembro de 2025
Bolívia – Segundo turno eleitoral
Vitória de Paz Pereira no segundo turno indica uma virada política no país favorável ao imperialismo
Em 8 de novembro, assumirá a presidência de Bolívia Rodrigo Paz Pereira do PDC (Partido Democrata Cristão), que após perder no primeiro turno, se impôs no segundo com 54,62% dos votos, vencendo a José “Tuto” Quiroga da Aliança Livre, que obteve 45,39%. Um total de 86% dos habilitados compareceu na votação, sendo que os votos brancos foram 48.674 (0,75%) e os nulos 305.121 (4,69%). 20 anos depois de exercer o poder político, o Movimento ao Socialismo (MAS) retorna ao campo da oposição burguesa.
Pereira venceu esmagadoramente nos departamentos de maioria indígena (ocidente), enquanto Quiroga venceu nas regiões e capitais onde domina politicamente a direita fascistizante branca aliada a setores da pequena e média burguesia (oriente). As seções eleitorais que foram decisivas para as vitórias de Evo Morales (2005 a 2014) e Arce (2020), apoiaram Paz Pereira. Evo Morales teve um papel importante nessa situação ao afirmar que “Quiroga não pode vencer” porque disse que iria acabar com o Estado Plurinacional e varrer a presença dos indígenas nas instituições do estado.
Entretanto, não tardará para que se desate o inferno para a maioria nacional boliviana indígena e operária. Paz Pereira definiu seu plano de governo como “capitalismo para todos”, e cujas medidas mais importantes serão: 1) liberalização dos preços e do dólar, 2) a “descentralização” da saúde e educação públicas, 3) recortes do gasto público, 4) novos pacotes de reformas e 5) “normalizar” as relações como FMI e impulsionar o investimento privado. “Ou seja, depreciação da moeda, livre circulação de capitais estrangeiros, retirada dos subsídios aos combustíveis (elevação dos preços no mercado interno) etc.”1 Quanto à saúde, disse que reformará a Caixa a Nacional de Saúde (administração da saúde pública) por meio de uma “parceria público-privada”, além de “coparticipar gastos” de saúde e educação com os estados e prefeituras, sob a fórmula 50/50. Quanto à educação, disse que vai a municipalizar assim como a formação de professores, derrogando a Lei de Educação Avelino Siñani.
Um entrave o achará no Congresso, onde o MAS ainda possui uma grande bancada e pode frear seus projetos. Paz pode recorrer à negociação com os deputados que respondem ao ex-presidente Arce ou de Morales, negociando com uma ou outra das frações do MAS que está formalmente dissolvido como partido. Mas, sem dúvida, terá um forte apoio entre a grande burguesia agroindustrial, os latifundiários e da burguesia comercial, da mediana burguesia e setores da pequena burguesia urbana. A Câmara Agropecuária do Oriente (CAO) felicitou Paz pela vitória e se declararam em apoio a seu governo, mas lhe exigem a livre exportação, liberação dos preços, segurança jurídica e investimentos do estado no setor. É o mesmo setor que desde que o MAS venceu as eleições em 2005, têm organizado processos separatistas (Meia Lua) e apoiou todas as medidas golpistas ensaiadas contra o MAS.
A fração mais poderosa da burguesia boliviana reunida na CAO e o imperialismo festejam que, finalmente, o MAS fosse expulso do poder. Poderão agora avançar sobre mais terras e sobre o controle do lítio e, dessa forma, o imperialismo melhorar suas condições de expulsar a China do controle de sua exploração por toda América Latina objetivando submeter toda a região a seus interesses.
O governo masista facilitou indiretamente os objetivos da direita reacionária e racista do Oriente, também dos EUA, de deslocar o MAS pela via eleitoral ao flagrar inúmeros ataques às condições de vida da população assalariada. A estatização dos sindicatos impediu ainda os operários e assalariados de recorrer à luta de classes para defender seus salários, direitos e empregos contra o farsesco “Socialismo do Século XXI”, do qual os oprimidos têm que se libertar.
A burguesia imperialista norte-americana se encontra em meio a uma brutal e violenta ofensiva intervencionista para submeter todos os países da América Latina a seus ditames. A mudança de governo irá acelerar esse processo e se refletirá como empobrecimento e miséria generalizada das massas, e no entreguismo de seus recursos estratégicos para os monopólios. Terão então de recorrer à luta de classes e recuperar suas organizações de massas para o programa da revolução e ditadura proletárias do POR dos tempos de G. Lora, que está sendo revisado pela sua atual direção.