
O Internacionalista n° 33 / NOTAS INTERNACIONAIS / novembro de 2025
África
Derrubada de governo pró-imperialista em Madagascar pode favorecer a China em seu plano de expansão econômica pelo continente.
O presidente malgaxe Andry Rajoelina foi deposto após uma série de protestos iniciados no dia 25 de setembro, por causa de constantes blecautes e cortes de água em Antananarivo, capital do país. O presidente tentou se apoiar no exército para conter a revolta, mas parte das forças armadas se voltou contra o governo, derrubam-no dia 14 de outubro, obrigando assim o presidente a fugir para a França – antiga metrópole colonial de Madagascar. De acordo com relatório das Nações Unidas, ao menos 22 pessoas morreram nas primeiras semanas em decorrência da repressão violenta do governo às manifestações. Apesar disso, os protestos continuaram e tiveram força para derrubar o governo pró-imperialista. A imprensa internacional inclui Madagascar, Nepal e Peru entre os países que viram explodir o que denominam de “protestos da geração Z”. Faz-se necessário ir além das manchetes e terminologias dos jornais burgueses, que ocultam as raízes sociais e históricas da revolta, e que pouco colaboram para esclarecer as causas e consequências desses acontecimentos.
Madagascar é um país insular na costa sudeste da África, localizado estrategicamente entre a passagem do Atlântico para o oceano Índico. Entre 1896 e 1960 foi uma colônia francesa, conquistando independência formal neste último ano. Entre 1975 e 1992, foi instituída a República Democrática Malgaxe, inspirada pela URSS, as Repúblicas Populares do leste europeu e pelas revoluções antimperialistas africanas, proclamando-se socialista. A experiência foi curta, pois já na década de 1980 o governo abandona as políticas de desenvolvimento e industrialização baseada na propriedade estatizada pela revolução, sobretudo, terras agrícola e indústrias,, e passa a adotar políticas econômicas contrárias ao que pregava inicialmente, como endividar-se com o FMI, privatizar recursos e, não resistindo a dissolução da União Soviética, esse governo cai em 1992, dando lugar a uma nova república burguesa que coloca-se, mais uma vez, sob tutela do imperialismo. Hoje Madagascar tem alguns dos piores indicadores sociais do planeta e da África: 87,85% da população vive com menos de US$ 2,15 por dia; apenas 36% tem acesso a eletricidade; e apenas 10% têm acesso a saneamento básico. Sua economia que tornou a ser atrasada e semicolonial após a dissolução da RDM, é dependente de exportação de níquel bruto, baunilha e cravo (sendo o país líder mundial na exportação destes dois últimos produtos) e mais da metade dessas exportações têm como destinos EUA e França (sua antiga metrópole colonial).
As manifestações se inserem nesse contexto. Por um lado, as massas (especialmente os mais jovens) instintivamente lutam por condições de vida minimamente dignas, condições essas que o governo burguês pró-França não poderia, nem desejaria oferecer. Por outro lado, esses “protestos da geração Z” carecem de direção política ou programa claro e, muitas vezes, colocam-se como “apolíticos”.
A queda de Rajoelina impõe mais uma derrota geopolítica para sua antiga metrópole colonial, que já vinha perdendo influência no continente com a queda de governos pró-imperialistas apoiados por Paris no Mali (2020), em Burkina Faso (2022) e no Níger (2023). Ainda é cedo para fazer tal afirmação, pois o novo governo provisório não tomou nenhuma atitude concreta de rompimento econômico ou político com o Imperialismo, e menos ainda indicou se trilharia a nacionalização dos recursos, ainda que essa possibilidade não deva ser descartada.
Contudo, é certo que China acompanha o desenrolar dos fatos atentamente, visto que o vácuo de poder e os possíveis choques futuros do novo governo com o ocidente podem contribuir para aumentar sua influência econômica no país africano. A posição estratégica de Madagascar a transforma em pivô da dorsal marítima da Nova Rota da Seda (por suas águas, passam 80% de importações de petróleo consumidos na China). À Rússia também é interessante acompanhar os próximos acontecimentos, pois, mesmo não tendo ainda grande influência militar e econômica sobre o país, existem operações de extração de minérios em curso, além de acordos de cooperação militar assinados. Ou seja, é de interesse de ambos os países que Madagascar se afaste da órbita do imperialismo francês, e se aproxime de sua esfera de influência.
Nota-se que a queda do governo pró-imperialista malgaxe está, portanto, relacionada com a disputa entre o Imperialismo decadente e putrefato – nesse caso representado pela França – e os Estados operários degenerados, onde a propriedade nacionalizada dos grandes meios de produção se mantém de pé (China e Rússia). Ainda há que se ver para qual lado o novo governo militar penderá: Se romperá ou se continuará submetido ao imperialismo. Algo que já é possível afirmar, porém, é a atualidade da crise de direção. As massas sentem necessidade de lutar – e lutam por seus meios – mas sem uma direção revolucionária, que mostre a impossibilidade do capital dar respostas concretas às suas reivindicações, suas lutas estão condenadas a se esgotarem, a serem subordinadas aos interesses (e manobras) das burocracias herdeiras do estalinismo, ou serem cooptadas por algum outro grupo imperialista de plantão.
Tampouco se pode descartar uma aproximação do novo governo com os governos nacionalistas firmados em golpes militares que aconteceram no Sahel, e que se orientam a se unirem em uma espécie de aliança pan-africanista que fortalece seus laços com Rússia e China, se chocando com o imperialismo. Assim, voltam à tona, sob novas circunstâncias, as tendências antiimperialistas e anti-colonialistas que no século passado abriram caminho às revoluções. Entretanto, a unidade que libertará à África das cadeias da opressão imperialista, abrirá caminho a sua rela independência e autodeterminação e romperá a subordinação com as burocracias contrarrevolucionárias só pode ser conquistada sob a forma dos Estados Unidos Socialistas da África, o que coloca a necessidade da construção dos partidos internacionalista, revolucionários e proletários que recuperem as tradições da luta de classes e abram assim um caminho às revoluções proletárias.
