O Internacionalista n° 33 / NACIONAL / novembro de 2025


Na medida em que se dissipa a retórica da defesa da soberania contra as tarifas abusivas de Trump, surgem as negociações do governo Lula com os EUA sobre concessões à exportação de etanol, de “terras raras” e a possível construção de centros de processamento de dados e de IA em nosso país. Em troca, Trump supostamente retira ou diminui as tarifas aos produtos exportados desde o Brasil para os EUA.
Pesou no recuo norte-americano a pressão das empresas desse país que viram seus custos de produção aumentarem pelo aumento das tarifas, e do crescente descontentamento de consumidores que viram os preços de produtos e serviços básicos cresceram em 50%. Pesou ainda os protestos de produtores agrícolas que se viram prejudicados pela decisão da China de comprar os produtos agrícolas do Brasil e, especialmente, a soja que é o principal produto exportado dos EUA para a China. Estava como ameaça sobre Trump a decisão de câmaras de comércio e produtores estadunidenses acompanhar um projeto de lei que fora aprovado no Senado para desativar as tarifas impostas por Trump. A política de “máxima pressão” praticada contra o Brasil se mostrou insustentável e um blefe muito oneroso. Mas, ainda assim, Trump conseguiu o principal objetivo econômico que procurava com a extorsão tarifária.
Lula conseguiu reduzir a ofensiva tarifária abrindo o terreno para o deslocamento das exportações taxadas abusivamente para China e outros países. O fato de Bolsonaro ser preso e a maioria nacional do país se pronunciar contra a anistia dos envolvidos na aventura golpista de 8 de janeiro de 2023, aumentando a possibilidade de vitória de Lula em 2026 e que, graças a um plano muito generoso de subsídios às empresas afetadas pelo tarifaço e escoamento dos bens taxados para novos mercados, conseguindo ainda o apoio de setores da burguesia agroindustrial mais afetados pelas tarifas. EUA superestimou sua capacidade de ditar o curso da resolução da crise política com o julgamento de Bolsonaro e de impor ao Brasil uma mudança radical da política exterior em relação aos BRICS.
É nesse quadro que se realizou a reunião entre Mauro Vieira (Ministro das Relações Exteriores), Marco Rubio (o Secretário de Estado dos EUA) e Jamieson Greer (representante comercial dos EUA) do dia 16/10, que reforçou esse rumo traçado pelo governo. Alguns dias depois, Rubio e Greer se reuniram com empresas mineradoras operando no Brasil visando a estabelecer parcerias com empresas australianas, como a St. George, para a prospecção e exploração de terras raras até 2027. Moreira Salles (mineradora de capital nacional) estuda junto de empresas dos EUA e da Austrália a exploração de nióbio, tendo o encarregado de negócios dos EUA no país, Gabriel Escobar, como intermediário. O encontro entre Trump e Lula na ASEAN – que aquele caracterizou de “positivo” – foi precedido por essas circunstâncias.
A exploração de minerais críticos é um objetivo principal do imperialismo norte-americano. De serem realizados acordos entre os EUA e o Brasil, nosso país se incluirá na lista dos acordos dos EUA com Japão, Austrália e Argentina. A eleição na Bolívia de um governo francamente pró-imperialista poderia ainda garantir mais recursos aos EUA e facilitar seu objetivo de garantir uma base de recursos para continuar a guerra comercial desde uma posição mais fortalecida e, sobretudo, acelerar e fortalecer o aparelho bélico e militar no momento em que a possibilidade de um choque militar contra a China se projeta.
A China tem se tornado um país chave na extração e processamento de “terras raras” e minerais críticos. Demonstrou seu poder de atingir os EUA depois de impor controles à exportação desses elementos, e diminuir as capacidades industriais e militares dos EUA. A china é o fornecedor dominante no mercado desses minerais indispensáveis à indústria civil e militar (baterias, semicondutores, equipamentos óticos etc.), além de o único produtor de samário (metal que compõe as “terras raras”) com aplicações militares, a dominar o refino de disprósio ultrapuro (para produção de chips ultrarrápidos) e a fabricar 90% dos ímãs usados em componentes eletrônicos e motores elétricos.
No mais recente Congresso do Partido Comunista Chinês (PCCH), foi aprovado o plano de cinco anos para a autossuficiência em produtos tecnológicos, equipamentos eletrônicos e minerais. Somada à elevada produtividade e tecnificação de sua indústria nacional, China poderia ampliar o abismo das vantagens industriais e produtivas perante os EUA, o que tem se revelado, particularmente, no aumento exponencial de suas capacidades militares e tecnológicas. Antes que esse processo se consome, os EUA precisam garantir condições mínimas industriais e comerciais para se prover de recursos para manter a concorrência e, sobretudo, capacidades militares para derrotar seu principal rival mundial.
Comprova-se o prognóstico de nosso manifesto n° 78 do PPRI de que os EUA recorriam ao “arcabouço da guerra comercial para pleitear e impor acordos que sejam do interesse imediato dos EUA em sua disputa contra o avanço da China no país e na América Latina. Nesse sentido, a “disposição” dos EUA em negociar como parte do acordo de retirada das taxas abusivas o acesso e exploração das chamadas “terras raras” (…) assinalou o real motivo das manobras de Trump.” Mas, também de que as “empresas tecnológicas (Google, Meta, Microsoft, X, TikTok)”, exigiam “a aprovação de licenciamentos ambientais mais flexíveis visando construir no Brasil … centros de processamento de dados ou “data centers”.
Lula não apenas demonstra o conteúdo entreguista de sua política externa ao aceitar perder o controle sobre extração e processamento de recursos naturais importantíssimos ao desenvolvimento das forças produtiva internas, como, sobretudo, sua subserviência ao se tornar um peão nas movimentações belicistas do imperialismo contra seu principal parceiro comercial. Enquanto continua a discursar desde a tribuna para sua base eleitoral de que “não se curvará”, Lula se curva perante Trump e suas exigências na prática. É característico dos governos burgueses a dissociação entre os discursos de campanha e a política interna e externa que se aplica. Isso explica porque pode-se se entregar um ministério – sem qualquer poder decisório real na economia ou na política de estado – a um pretenso “socialista” visando ampliar a base social e eleitoral do governo (ver nota pág. 7), enquanto Lula: a) entrega a exploração do petróleo às multinacionais estrangeiras passando por cima dos povos originários e destruindo suas condições de existência física e cultural; b) apoia uma lei que destrói as condições naturais para a existência da humanidade em benefício de um punhado de grandes capitalistas imperialistas (PL da Devastação); c) impulsiona uma contrarreforma que destrói os empregos e direitos do funcionalismo para repassar mais dinheiro para os parasitas da dívida pública(ver nota pag. 10); e) mantêm a política de arrocho orçamentário para desviar recursos ao capital financeiro (Arcabouço Fiscal) etc.
Nenhum governo burguês defenderá a soberania e independência nacionais por mais manobras retóricas que ensaie. Nem tomará medidas contra o imperialismo e nem assumirá uma maior autonomia nas decisões e política interior e exterior, o que exigiria mobilizar a classe operária e os demais oprimidos desde seus sindicatos para impedir as ameaças e extorsões imperialistas recorrendo a bloquear as empresas imperialistas, os portos, ocupar indústrias etc. Na época de completa submissão e decomposição das raquíticas burguesias nacionais das semicolônias ao imperialismo, a defesa da soberania nacional passou para as mãos do proletariado, única classe que pode romper com os EUA e expropriar suas empresas e bancos sem indenização e os estatizar sob controle operário coletivo, estabelecer o monopólio sobre o comércio exterior e desenvolver as forças produtivas com o aproveitamento integral dos recursos naturais e industriais por meio de um plano racional e único de produção, desconhecer a dívida pública e expulsar os agentes do imperialismo em nosso país, por meio da revolução social, erguendo o governo operário e camponês apoiado nas massas em armas.