


O Internacionalista n° 34 / dezembro de 2025
Editorial Nacional
Correntes reformistas, centristas e estalinistas golpeiam junto com o governo os oprimidos, e burocratizam sindicatos e movimentos sociais em defesa da tática eleitoral e da governabilidade burguesa
No interior das centrais, federações, confederações, sindicatos e movimentos sociais dirigidos por reformistas, centristas e estalinistas, a propaganda eleitoral para o pleito de 2026 já é uma realidade. A luta pelas reivindicações foi abandonada em proveito do mais descarado oportunismo eleitoral. Para isso, precisam conter a disposição de luta dos assalariados e demais explorados, impondo-lhes amargas derrotas e traindo-os, avançando no autoritarismo e o cerceamento das instâncias deliberativas, para que as oposições classistas sejam silenciadas à força. Na defesa de Lula/Alckmin, reformistas e estalinistas abrem caminho aos ataques da burguesia, desde àquelas aplicadas pelas mãos do governo que denominam como “seu”, até os que criticam por serem de “direita” ou “extrema-direita”. São obrigados a fazerem um verdadeiro malabarismo teórico para encaixarem a defesa do governo burguês e pró-imperialista de Lula que os ataca e destrói seus direitos e salários.
O suposto “combate ao fascismo” nas eleições de 2018 e 2022
Nas eleições de 2018, a campanha eleitoral deu um salto qualitativo quando as correntes que se reivindicam de esquerda passaram a defender o voto em Fernando Haddad (PT) com conteúdo de suposto “combate ao fascismo” e “em defesa da democracia”, em referência à ascensão de Jair Bolsonaro (então no PSL) ao 2º turno do pleito. As correntes reformistas, centristas e estalinistas correram para unir forças e votos na derrota eleitoral do “fascismo”. Bastou o anúncio da vitória de Bolsonaro para que Haddad desejasse “boa sorte” ao “fascista”, em seu governo.
Bolsonaro não foi combatido no campo da luta de classes. PT e aliados contiveram as lutas e, assim, esteve de mãos livres para adotar medidas antinacionais e antipopulares, pois as mesmas correntes que adotaram a caracterização de “fascista” não enfrentaram seus ataques aos explorados, em nome de desgastar a imagem eleitoral do bolsonarismo, especulando que poderiam vencer nas eleições de 2022, mas para isso precisaram conter as lutas para se mostrar uma alternativa eleitoral viável para a burguesia. Nos sindicatos e movimentos sociais que dirigem, contiveram a disposição de luta dos assalariados permitindo a aprovação da Contrarreforma Previdenciária; a implementação de redução de jornada com redução salarial na pandemia da COVID-19; a maior flexibilização da relação de trabalho com a Carteira Verde e Amarela como continuidade da Contrarreforma Trabalhista; a privatização da Eletrobrás, Transportadora Associada de Gás (TAG), Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa), 49 aeroportos, entre diversas outras – estima-se que o governo Bolsonaro tenha privatizado 36% das empresas estatais brasileiras, principalmente por meio das subsidiárias; entre diversos outros ataques. Lula, que fora preso para evitar concorrer ao pleito contra Bolsonaro, foi solto para poder concorrer em 2022, após a burguesia começar a abandonar Bolsonaro e não conseguir uma candidatura de “união nacional”. Eis como Lula ganhou o apoio da burguesia nacional e internacional, e, com o apoio das correntes que dirigem os sindicatos, que colocaram seu aparato à disposição das eleições burguesas, retornou à presidência, tendo por diferencial perante Bolsonaro sua capacidade de centralizar os sindicatos e movimentos.
O Partido dos Trabalhadores (PT), que dizia combater o fascismo, em nome da democracia rapidamente se aliou ao “inimigo”, o Partido Social Liberal (PSL), nas eleições municipais de 2020 – ambos os partidos estiveram juntos em 136 coligações. Destaca-se que em algumas cidades a coligação foi somente PT/PSL, como em Macieira-SC e São Pedro dos Crentes-MA. A aliança se manteve nas eleições municipais entre o PT e o Partido Liberal (PL – partido do qual Bolsonaro é filiado desde 2021), totalizando 85 coligações. Em alguns municípios, o PSOL participou dessas coligações sem nenhuma crítica, como em Corinto-MG (PT/PCdoB/PSOL/MDB/PP/PL/PSD/UNIÃO, entre outros), demonstrando como o PT e seus aliados caracterizam Bolsonaro como fascista por puro oportunismo eleitoreiro, não havendo divergências profundas com os partidos de direita, enquanto caminham juntos para atender as diversas frações da burguesia nacional e imperialista.
Reformistas, centristas e estalinistas burocratizam os sindicatos em nome da reeleição de Lula
No final dos anos 1970 e início dos anos 1980, para tirar os sindicatos das mãos dos interventores do estado da ditadura militar, muitas correntes classistas fizeram um imenso esforço de reorganizar às bases, campanhas por assembleias e congressos, formações políticas, entre outros, fortalecendo a democracia sindical. Nesse processo foram construídos sindicatos de luta e a própria CUT como central única. Já no final dos anos 80, as direções da CUT começaram um processo inverso, de burocratização e tiveram que limitar a democracia sindical para caminhar às eleições burguesas de 1989, com Lula. A derrota da coligação Frente Brasil Popular (PT, PCdoB e PSB) daquele ano marcou o salto qualitativo das direções sindicais, da CUT, de movimentos estudantis, sociais, rurais e etc. na investida em rasgar a democracia sindical e combater burocraticamente as oposições, principalmente à esquerda, para se manterem com os aparatos em mãos. Este processo foi tão intenso e violento que resultou na manutenção de muitos dirigentes há quase 40 anos à frente das direções sindicais, como é o caso da Apeoesp.
A cada eleição burguesa, especialmente presidencial e de governadores, que ocorrem no mesmo calendário, se aprofunda mais e mais a burocratização e a subordinação ao eleitoralismo, para tentar transformar os organismos de organização dos assalariados e demais explorados em currais eleitorais. Para isso, não podem se chocar com o governo que consideram como “seu”, o que os leva a controlar as esparsas assembleias com mãos de ferro, negando a democracia operária e impondo aos assalariados e demais explorados os golpes da burguesia, sem nenhuma resistência por meio das greves e ocupações.
A Frente Ampla Lula/Alckmin levou as correntes reformistas, centristas e estalinistas a se disciplinarem – direta ou indiretamente – ao PT
Nos últimos anos, as principais correntes de oposição ao PT no interior dos sindicatos contiveram, abortaram e até traíram as greves em defesa da governabilidade de Lula ou se subordinando às direções governistas, se jogando em alianças acríticas ou apenas como oposição “formal”, divergindo sobre questões pontuais, mas não se chocando abertamente com a política burguesa imposta no interior dos movimentos. Assim, se tornaram objetivamente instrumentos da política da conciliação de classes dos governistas, de Lula e da burguesia, permitindo as privatizações, terceirizações, retiradas de direitos históricos e impedindo qualquer ação consequente dos explorados em combate contra a classe exploradora.
O chamado governo “Lula 3” conseguiu estatizar ainda mais os sindicatos e movimentos, não apenas com indicações de militantes aos cargos do governo, como Vitória Genuino, do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), que se tornou Secretária Nacional de Juventude, ou João Fukunaga, de diretor do sindicato dos bancários à presidente da Prev (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil) por dois anos, e o ex-presidente da CUT, Vagner Freitas, para presidente do Conselho de Administração do Sesi; mas subordinando sindicatos e movimentos, e suas oposições eleitoreiras, à política da Frente Ampla burguesa.
O papel histórico dos sindicatos e movimentos e o próximo período
A cada dia que o pleito de 2026 se aproxima, as direções burocratizadas e autoritárias tentam mais e mais condicionar os sindicatos e movimentos como “currais eleitorais”, traindo abertamente as greves que se chocam com o governo Lula. Contudo, a história e a experiência demonstram que somente pela real luta de classes (paralisações, greves, piquetes, etc.) há a possibilidade de se combater os ataques às condições de vida dos explorados desferidos pelo governo de turno.
As centrais sindicais, sindicatos e movimentos se erguem no capitalismo como organismos de frente única para a luta pelas reivindicações contra a exploração. Foram criações das próprias massas operárias e assalariadas. Servem para organizar e unificar os assalariados e demais explorados em luta contra seus opressores. Os direitos trabalhistas são exemplos da atuação histórica dos sindicatos como instrumentos para combater os capitalistas e a importância da ação direta. Por isso, nunca devemos confundir essas organizações com suas direções traidoras dos explorados, ao contrário, as verdadeiras oposições classistas e revolucionárias devem se constituir ou serem fortalecidas para extirpar a burocracia reacionária da direção e colocar esses instrumentos de luta a serviço das massas. A política de independência de classe irá se chocar antagônica e inevitavelmente contra oportunistas e burocratas, e terá de recuperar os sindicatos varrendo com as direções traidoras.
Na fase imperialista, de decomposição do capitalismo, especialmente nos países semicoloniais atrasados, a burguesia em sua fase reacionária já abandonou a época das reformas que atendam as reivindicações das massas, e entrou na época das violentas contrarreformas (como a Trabalhista, Previdenciária e Administrativa) que todos os governos burgueses devem aplicar, portanto, o discurso dos reformistas, centristas e estalinistas em defesa de qualquer candidato que consideram como “seu” ou “dos trabalhadores” não passa de falácia oportunista e traição os interesses dos explorados, escondendo que os governos burgueses são os algozes de turno dos explorados.
A defesa do emprego, do fim do subemprego e desemprego, da melhora na condição de vida dos explorados, e toda e qualquer reivindicação, não virá de presente da burguesia e seus governos. Serão arrancadas à força pelos oprimidos, organizados e em unidade, com os métodos próprios do proletariado. É necessário avançar para além das lutas das questões mais sentidas, chocando-se com a burguesia e a sociedade de classes, raiz das opressões.