O Internacionalista n° 34 / NOTAS INTERNACIONAIS / dezembro de 2025


Dias depois de esta nota ser publicada, acontecerá o segundo turno das eleições entre Jeannette Jara (26,9% dos votos), do Partido Comunista do Chile (PCCH) e ex-ministra de Trabalho do governo Boric, e o direitista José Antonio Kast (23,9% dos votos), do Partido Republicano. Dois candidatos da extrema-direita, Johannes Kaiser (13,9%) e Evelyn Matthei (12,5%), já anunciaram seu apoio a Kast.
É a primeira eleição no país depois de ser reinstituída a obrigação do voto, aumentando em 5 milhões os eleitores. As passadas eleições foram marcadas por um elevado absentismo. Nas eleições que vencera Gabriel Boric, o abstencionismo chegou a 57% do padrão eleitoral. Índice ainda mais elevado nas regiões, cidades e bairros operários e populares, atingindo a média de 63%. Os maiores níveis de participação se verificam nas regiões, cidades e bairros de maior presença burguesa e a pequeno-burguesa. A lei do voto obrigatório, como veremos mais à frente, verificou que um setor dos explorados e oprimidos favoreceu à direita e ultradireita e seus discursos de “ordem” e “segurança” sob impactos da elevação dos índices de crimes nas periferias que atingem oprimidos, pobres miseráveis também. Como se vê, a restauração do voto obrigatório favorecerá, em última instância, à burguesia para que o próximo governo se revista da maior “legitimidade” formal possível para aplicar seus ataques contra as massas.
Há ainda um outro fator a ser avaliado: a derrocada das variantes esquerdizantes do democratismo pequeno-burguês e dos ditos marxistas, que juntos, não superaram 4% dos votos. Essa situação reflete que dentro do quadro da democracia formal os explorados são arrastados a votar no mal menor sob o espantalho teórico de que a contradição fundamental é entre a democracia e o fascismo.
O certo é que a apertada vitória de Jara indicou uma profunda erosão de apoios eleitorais e sociais ao governo que se comprometeu a realizar profundas reformas na estrutura econômica herdada da ditadura fascista e pró-imperialista de Augusto Pinochet. Embora Boric outorgou algumas migalhas (a exemplo da redução da jornada legal para 40 horas, ampliar o acesso ao sistema de saúde), no essencial, manteve e fortaleceu a estrutura das Administradoras de Fundos de Pensões (AFP), sistema privado de aposentadorias, ainda que aumentando a contribuição patronal (passou de 1,5% para 4,5%). É importante dizer que essa medida deslocou uma maior fatia de lucros dos capitalistas industriais e comerciais, grandes e médios, para as mãos do capital financeiro e os grandes monopólios capitalistas que controlam as AFP. Mas, não alterou o uso desses fundos para lucrar com o parasitismo financeiro. Enquanto sua proposta de um sistema misto (privado e público) ficou só em palavras.
Essas medidas foram apresentadas e defendidas por Jara, que foi Ministra de Trabalho de Boric. E aplaudida pelo Banco JP Morgan que esfregava as mãos com a injeção de 3,4 bilhões adicionais no mercado de capitais por intermédio das AFP. Foi aplaudida também pela Confederação da Produção e do Comércio (CPC) e a Sociedade de Fomento Fabril (Sofofa), que felicitaram a medida. Mas, não por um setor importante das massas às quais lhes cravou um punhal nas costas. A raiva se estende contra Jara e também contra Boric que deram as costas às massivas manifestações sob a bandeira de “Não + AFP”.
Lembremos também que o governo “progressista” de Boric aprovou uma lei antiterrorista de forma unânime, que caracteriza as condutas e “associações” terroristas como aquelas que, reunindo três ou mais pessoas se proponham cometer crimes como: a) sequestros, b) subtração de menores, c) lesões, d) homicídios, e) incêndios etc. viando f) desestabilizar as estruturas políticas, sociais e econômicas do “Estado democrático de direito”; g) afetar a infraestrutura etc. É sintomático que a lei foi aprovada após a morte de três carabineiros (polícia militarizada) por manifestantes do povo Mapuche, povo originário que habitava essas terras por séculos e foi massacrado e sofre hoje a violência permanente da burguesia para roubar os territórios que ainda lhe restam. Sequestros, ataques à infraestrutura das empresas capitalistas que exploram suas riquezas e saqueiam seus territórios, incêndio de maquinaria, bloqueios e ataques contra as forças repressivas do estado são métodos usados pelos Mapuche para resistir a opressão e enfrentar os latifundiários e os capitalistas. O mesmo se passa com piquetes, ocupações de fábrica, tomada de reféns, ataques à propriedade privada das greves operárias. O dito progressista Boric aprovou e impulsionou uma lei dentro dos marcos traçados pela “guerra ao terrorismo” dos EUA que é um instrumento do intervencionismo, dos golpes de estado e de medidas de coerção e bloqueio econômico contra os países que se resistem a aceitarem cegamente a suas ordens
Assinalamos estes aspetos para mostrar que a disputa eleitoral não enfrenta um “modelo” de “redistribuição” da renda contra um projeto de retirada de direitos e continuidade da ditadura pinochetista. De fato, as duas frações da política burguesa preservam os interesses dos capitalistas, o saque da nação oprimida e dos assalariados, assim com a estrutura militarizada de ataque e repressão aos protestos e do povo Mapuche, se distinguindo apenas pelo fato dos “socialistas” e “comunistas” quer garantir os lucros capitalistas derramando algumas migalhas para os mais pobres. Qualquer que seja o vencedor, permanecerão as relações de propriedade e exploração que desgraçam as massas.
Um dos cenários mais prováveis é uma vitória da direita e que hoje se acha fortalecida mundialmente. Isso expressou-se nos resultados eleitorais onde as quatro versões direitistas e fascistizantes obtiveram, de conjunto, mais da metade do total dos votos. Isso se reflete no controle, entre a extrema-direita e a direita, da maioria do Senado, portanto, fechando as portas a qualquer processo de retomada da farsa constituinte ou de mudança da Constituição pinochetista. Maioria que impõe regressões contínuas, a exemplo da lei antiterrorista orientada contra os Mapuches e as lutas operárias, camponesas etc.
A candidata “comunista” que já começou a “suavizar” seu discurso procurando atrair votos da direita mais liberal e suas bases de apoio, a obrigando a assumir um discurso mais direitista que prende bem em um setor dos explorados abrumados pela criminalidade que os atinge, e que ficam presos às igrejas que reproduzem a mensagem terrorista da burguesia. Isso explica, ainda, porque a direita não apenas manteve sua base eleitoral entre as regiões e bairros burgueses e da pequena burguesia acomodada, como entre bairros operários e populares que antes rejeitavam o discurso fascitizante e reacionário.
Esse é o resultado histórico e objetivo do desvio democratizante da revolta operário e popular de 2019, que por estar ausente sua direção revolucionária, impediu às massas revoltadas contra o regime burguês e a Constituição pinochetista, não conseguiram ir além da explosão de fúria e avançar pela via da revolução social. Verifica-se com as eleições um retrocesso das massas. eis porque se devem tirar as lições correspondentes desse processo histórico. Há um abismo entre o que fizeram instintivamente na luta de classes e como se manifestaram politicamente nas eleições burguesas 6 anos depois.
Qualquer que seja o governo eleito no segundo turno, terá de enfrentar as tendências de luta das massas que não foram esmagadas e nem derrotadas em luta aberta, apenas desviadas e enganadas pelas suas direções para reforçar a democracia burguesa. As tendências mundiais de luta de classes demonstram também que as massas não ficarão pacíficas e subordinadas. A crise e os ataques que virão alavancarão novas revoltas e confrontos de classe contra classe, e as lições de 2019 tomarão toda sua importância estratégica para o proletariado. Está aí manifesta em toda sua importância a crise da direção revolucionária e a necessidade de superá-la. A vanguarda de lutar pela independência política do proletariado, construir o partido revolucionário e dar passos à revolução e ditadura proletárias.